1 de jun de 2015

Uma tirinha da pesada: Marcos Lannes sob o espectro da desconstrução e da reconstrução

Circula já há algum tempo no Facebook uma tirinha provavelmente criada pela neoesquerda americana e imediatamente comprada pela neoesquerda brasileira em que, por meio dos personagens Richard (um garoto com boas condições financeiras e com pais presentes) e Paula (uma garota que nasceu em família com condições financeiras mais baixas e que, por isso, convive com piores oportunidades), se contesta a ideia de meritocracia, ou seja, a ideia de que aquele que traz mais vantagens a todos é o que naturalmente deve se sobressair na vida e de que, muitas vezes, o esforço pessoal é o fator mais decisivo nesse bom sucesso.

Não sou esquerdista e, por isso, nada tenho contra a meritocracia em essência. Considero, por exemplo, um desserviço ao debate público a existência de uma esquerda que meramente contesta a democracia e a meritocracia sem dizer explícita e honestamente não só qual é o sistema melhor do que o atual, mas por que meios (e, mais ainda, se estes meios são todos honestos ou se são necessários os meios desonestos) iremos alcançá-lo, o que significa, para qualquer um que entenda o que é política, que tratamos muito provavelmente com pilantras, e não com debatedores que se deva levar a sério.

O problema, porém, é que, justamente por não ter assumido fidelidade ideológica para com o lado destro do espectro político, não consigo ficar calado quando leio um texto defendendo a meritocracia de modo apenas parcialmente verdadeiro. Pior ainda é quando, como autor deste texto, está alguém que considero não só como amigo, mas também como uma das poucas mentes sensatas do debate político.

Falo de ninguém mais ninguém menos do que o ainda injustamente pouco conhecido Marcos Lannes, do blog Minuto Produtivo. Apesar de conservador declarado, Marcos acaba sendo uma das poucas vozes das quais raramente ouvimos palavras que não soam como o puro e barato moralismo típico da tribo de manés que se autodeclaram "conservadores brasileiros". Como, no entanto, ninguém é perfeito, também Marcos cometeu seus erros em certos comentários que compõem o bom artigo A meritocracia NÃO precisa de oportunidades iguais para funcionar.

Desejo, então, por meio do sistema que o leitor já conhece, expor o que penso (e deve ser esta, justamente, a única "autoridade" de minhas palavras) sobre certos pontos para, talvez, acrescentar ao leitor de ambos os artigos uma visão que ainda não tinha sido exposta tanto na tirinha quanto no artigo de meu amigo.

Minuto construtivo

Começo contestando uma das premissas que Lannes assume para que o debate seja iniciado. Segundo o futuro engenheiro de produção:
"A premissa importante antes de se debater esse assunto, é que, diferente da tirinha, que resume os seres humanos em dois grupos de espantalhos homogêneos, a verdade é que existem bilhões de indivíduos diferentes, com perfis diferentes, aspirações diferentes e visões de mundo diferentes."
É óbvio para qualquer um que pense fora da caixa progressista que vem cada dia mais tentando ser a única caixa de bombom do universo o que Marcos bem diz: ora, uma análise rigorosa nos faria perceber que o mundo não se divide apenas em Richards e Paulas. O problema para Lannes, porém, começa justamente quando vamos tentando destrinchar os outros agrupamentos possivelmente existentes, sendo que um deles é justamente o das pessoas que, tendo nascido em berço de ouro, desperdiçam suas oportunidades ao máximo mas que, ainda assim, conseguem, por meio de herança, passar uma vida inteira vadiando sem maiores problemas, o que definitivamente nenhum dos que não nasceram nesse tipo de berço pode fazer se quiser aumentar suas chances de sobrevida no mundo caótico em que vivemos.

Mais óbvio ainda é que, com isso, não quero propor a solução esquerdista para o dilema, ou seja, a estatização dos meios de não sei quem ou o fuzilamento dos grupos x, w e y. O problema, porém, é que, por mais que, como Lannes bem pontua, "existem filhos de pais ricos que possuem carreiras medíocres (se levar em conta o que seus genitores investiram), e existem filhos de pais pobres que construíram ótimas e sólidas carreiras (principalmente se levar em conta algumas limitações de investimento)", persiste o problema moral de que, quando o primeiro se mantém rico e quando o segundo se mantém pobre, o julgamento tanto das pessoas quanto dos tribunais sobre os dois dificilmente terminará em favor do segundo, o que pode, a depender das circunstâncias, minar todas essas conquistas e, de certa forma, até premiar as falhas do outro. É claro que, para mudar esse quadro, é necessário mudar a mentalidade geral pelas vias democráticas, mas o problema é: que setor da direita consegue reagir adequadamente a isso, ou seja, sem gritar acusações de marxismo cultural a quem propõe essa mudança óbvia?

Minuto desconstrutivo

Passo, agora, aos limites da semiótica lannesiana, ou seja, a certos equívocos que notei na interpretação de meu amigo da tirinha sobre a qual teceu comentários:

"A tirinha tão elogiada por alguns passa a impressão de que Richard tem menos mérito em conseguir as coisas pelo fato dos pais serem ricos. Ou, melhor dizendo, os pais do garoto de classe média/alta são culpados pelo simples fato de terem mais recursos e uma melhor rede de relacionamentos - no mundo dos negócios é conhecida como networking - que lhe permita chegar onde chegou."

Além do fato de não necessariamente ser errado dizer que Richard tem menos mérito do que teria, por exemplo, um "Bob" de origem não-rica ao conseguir o que quer, o problema das impressões é que, justamente, estas variam de leitor para leitor. Enquanto para Lannes, que do que eu saiba não teve raízes esquerdistas em sua formação política, a impressão se resumiu apenas à questão do mérito, minha impressão foi de que, além de contestar a ideia de meritocracia, o que se quis expor foi a crescente cegueira (porque me recuso a usar o confusíssimo termo "alienação" da esquerda imbecil do Brasil varonil) de Richard à totalidade das razões que o fizeram chegar ao ponto em que chegou, esquecendo-se, por exemplo, de que conseguir um estágio graças ao networking paterno citado pelo graduando em engenharia é algo bem mais "de bandeja" do que ter de cuidar dos pais doentes, sacrificar parte dos estudos e, com isso, conseguir um emprego de baixa remuneração em que também se é vigiado, inclusive com mais fervor, constantemente.

Nada, contudo, supera a inferência errada de Marcos quanto ao que se julga sobre os pais de Richard: não há, em nenhum lugar do texto (no caso, da tirinha), trechos que nos permitam inferir qualquer juízo de valor negativo com relação às posses dos pais de Richard, sendo que nem mesmo a questão do estágio, eticamente questionável, é profundamente questionada na tirinha. Lannes, então, ainda deve ao leitor uma resposta, com base no texto da tirinha, sobre de onde sua interpretação foi tirada, isto porque, momentos depois, o articulista diz que os pais de Richard teriam adquirido sua riqueza necessariamente de forma meritocrática, o que também não é colocado na tirinha, ou seja, o que configura mais um salto de fé do amigo conservador.

Minuto reconstrutivo

Termino implicando com a maneira com que o futuro engenheiro de produção interpretou a finalidade a que se propõe a tirinha. Segundo Lannes, o objetivo da tirinha é "contestar a ideia de meritocracia, a invalidando pelo fato de não existir igualdade de oportunidades". É claro que, por mais que a ideia de me tornar um dos melhores sofistas do século ainda me atraia, não sou relativista a ponto de negar o que vejo diante de meus olhos, ou seja, que o que Marcos subentendeu não poderia estar mais correto, apesar de certamente haver aqueles que dirão que a tirinha só quis "problematizar" a ideia de meritocracia, como se "problematizar" já não fosse um primeiro passo político para se invalidar determinada ideia.

Não quero, então, contestar a interpretação de Lannes neste ponto em específico, mas propor uma discussão que poderá ajudar muitos direitistas, e isso inclui Marcos, a militarem ou a pensarem de modo um pouco diferente sobre essa questão. Dou enfoque, para isso, à última fala do personagem Richard, então um homem de sucesso cercado por seu séquito de puxa-sacos (as usual, diga-se de passagem). Seja honesto comigo, leitor: não é justamente o ar de superioridade arrogante de Richard nesse último quadrinho que o faz uma figura que dificilmente ganharia a nossa simpatia e cujos argumentos, portanto, rejeitaríamos ou teríamos pelo menos a tendência a rejeitar logo de cara? Ao mesmo tempo, esse comportamento não é, em termos, muito parecido inclusive com o das pessoas que superaram o binarismo Richard x Paula e, tendo origem pobre, se deram muito bem na vida, quando falam sobre como quem não venceu na vida é necessariamente preguiçoso ou burro, mesmo sem conhecer a história de vida dessas pessoas?

Penso, então, que o leitor já sabe onde quero chegar: por menos que se possa condenar generalizações em essência - afinal, uma parte considerável da guerra política consiste justamente em pegar condutas particulares de um membro de um grupo e generalizá-la para todos, seja para defesa, seja para ataque -, não há momento em que deveríamos pelo menos tomar cuidado para generalizarmos de um mal jeito justamente aqueles de cujo apoio precisamos? Quem das "Paulas", afinal, votaria, em sã consciência, em um político que é apoiado por pessoas que as veem de uma maneira totalmente distorcida, enxergando-a como pouco mais do que lixo humano?

Essa, então, é minha proposta para uma direita mais tenaz: não tentar necessariamente defender Richard, mas, antes, aproveitar a desconstrução esquerdista de Richard para, com isso, reconstruir um "Robert", um "John" ou mesmo um "Will" que, inevitavelmente, possa virar o jogo e, progressivamente, tirar a ideia de meritocracia do limbo da história das ideias perante o grande público. Isso, lógico, aos que irem, neste artigo, para além do "marxismo cultural" que aparentemente é apoiado.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Por algum motivo, pensou que este post cairia melhor em Blogger do que em WordPress. Espera, então, não estar enganado.

PS: Lannes respondeu a meu texto. Quem quiser pode acompanhar o final da discussão em Apoliticamente Incorreto.

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