11 de out de 2015

O Caro Dinheiro, o Comportamentalismo Insuficiente e o Moralismo Barato: uma resposta a Samy Dana

Mesmo não sendo um leitor assíduo da Folha de São Paulo e de seu colunismo, tive, graças a um compartilhamento do amigo Marcos Lannes, editor-chefe e blogueiro de Minuto Produtivo, a oportunidade de ler o mais recente artigo de Samy Dana, economista (e, naturalmente, colunista sobre o assunto Economia) e professor da FGV.

Não era, todavia, apenas sobre Economia que o articulista versava no escrito em questão, mas principalmente sobre educação de crianças e jovens, tema ao qual este articulista, enquanto professor, acaba naturalmente não podendo se furtar.

Sob o título de Usar mesada como recompensa é risco para a formação dos seus filhos, a tese de Dana é clara sobre o que este articulista que digita chamaria de "comportamentalismo monetário", isto é, a ideia e a prática de promover mudanças comportamentais em crianças por meio do dinheiro ou de sua ausência. Será, contudo, que sua legitimidade é tão notável quanto sua clareza?

O comportamentalismo insuficiente, mas mal explicado

Após começar dissertando muito bem sobre os desafios dos pais ao tentarem ensinar aos filhos como lidar com o dinheiro, o professor da FGV vai ao ponto ao explicar a ideia que criticaria:
Você já deve ter visto ou ouvido falar a respeito de uma "planilha educativa" que viralizou na internet em 2013. Um casal que mora em Rondônia resolveu adotar uma estratégia diferente para dar a mesada aos dois filhos, de 6 e 8 anos, respectivamente.
A ideia foi montar uma planilha com uma lista de penalidades financeiras que as crianças estariam sujeitas em caso de desobediência ou mau comportamento. A mesada dos dois era de R$ 50, mas atitudes como fazer refeições fora da mesa, reclamar para ir à escola ou desobedecer os pais poderiam render descontos de R$ 0,25 a R$ 3,00. Ao final do mês, a quantia real da mesada ia depender da quantidade de punições, ou seja, quanto melhor o comportamento, maior a mesada.
Resumidamente, o que o pós-doutor em Business nos mostra nesse excerto é um exemplo de educação infantil tipicamente behaviorista, baseada na corrente psicológica que tem como principais expoentes Watson, Pavlov e, mais notoriamente, F. B. Skinner, e como conceitos de maior destaque o Condicionamento Respondente (desenvolvido principalmente pelos dois primeiros) e Condicionamento Operante (desenvolvido por Skinner).

Não é muito difícil para qualquer um que tenha levado a Psicologia da Educação a sério (ou nem tanto) mesmo que por apenas um curto semestre universitário entender que, como toda corrente de pensamento, o Comportamentalismo (ou Behaviorismo, como prefiram) tem suas virtudes e seus vícios, assim como os têm a Gestalt, o Construtivismo e a Psicanálise, apenas para ficar com os exemplos mais famosos. 

Apesar de ser criticada por diversas correntes pelo seu reducionismo ao desprezar, em seus estudos, os aspectos cognitivos que influenciam o comportamento, não há como se negar, por exemplo, que os comportamentalistas nos legaram uma série de noções importantes sobre a relação entre estímulos (S) e respostas (R), especialmente quando foi graças ao Cão de Pavlov e aos experimentos de Watson que se passou a perceber como comportamentos essencialmente biológicos podem ser controlados por fatores ambientes e psicológicos - ou seja, como os S podem modificar, condicionar, manipular as R -, que comportamentos não necessariamente são genéticos e que, portanto, certos S geram determinados R, o que pode ser utilizado para diversos fins, quer benéficos (e.g., auxiliar na educação infantil), quer maléficos (e.g., manipular pessoas para progressivamente perderem o senso de moralidade e fazerem tudo o que lhes for ordenado).

Dana, porém, acaba por reduzir toda a teoria comportamentalista a uma espécie de opção dos imediatistas:
Em psicologia comportamental, a prática é bem conhecida e chamada de estímulo-resposta. A cada tarefa concluída, a criança recebe uma recompensa. No exemplo dado, cada atitude de bom comportamento representa maior possibilidade da mesada integral. A técnica pode até ter eficácia para ter crianças muito bem comportadas em casa, mas será que esse tipo de didática realmente vale a pena?
O resultado imediato pode ser suficiente para convencer outros pais de que o método é interessante, mas é preciso analisar a questão pelo lado crítico. O grande problema desse tipo de ensino é o risco de as crianças assimilarem bons valores, obrigações e comportamento adequado a recompensas. E se a mesada, fator de motivação de tudo isso, for retirada? Como prever qual será o comportamento das crianças diante de tarefas básicas se não houver dinheiro no começo do mês?
Antes de tudo, cabe frisar que, para boa parte dos comportamentalistas (os clássicos, principalmente, adeptos do Condicionamento Respondente do experimento de Pavlov), o segredo para o sucesso educacional não necessariamente passa por nunca retirar o estímulo, mas sim por retirá-lo progressivamente, de modo a que a resposta continue pelo maior tempo possível mesmo sem qualquer tipo de estímulo, transformando-se em um comportamento internalizado, o que é justamente o maior objetivo de uma educação infantil que vise formar crianças bem comportadas.

Além disso, há um problema intrínseco à argumentação de Dana: como saber, a partir de uma tabela divulgada na internet, que a educação dada pelos pais às crianças é de base puramente behaviorista? Por que não é possível, por exemplo, que os pais estejam associando estímulo-resposta a conceitos de outras teorias psicológicas mesmo sem saber, que é o que muitos pais acabam fazendo ao enfrentarem o desafio que é educar crianças, ou, melhor ainda, seres humanos que viverão em um mundo que se torna cada vez mais complexo e cada vez menos receptivo aos pouco adaptáveis?

Mais ainda: se a educação de base puramente comportamentalista (o que não temos dados suficientes para afirmar com segurança que de fato ocorre nesse caso) é um risco, o que diremos, então, da proposta do professor da FGV?

Educação por princípios... princípios do século

Segundo o doutor em ADM, "distribuir recompensas pode ser uma forma de incentivo em algumas situações, mas transformar isso em regra para tudo é um risco muito grande a longo prazo". Lógica indefectível, como deve ocorrer com todo argumento pautado em lógica.

O que não se sustenta, entretanto, é a alternativa que Dana propõe ao comportamentalismo rastaquera:
Bom comportamento é uma questão de princípios, a criança não pode esperar uma recompensa por isso. Se essa mensagem é a que fica impressa ao longo de sua formação, como adulta, ela desejará ser recompensada por qualquer atitude positiva que tenha em sociedade. 
O professor da FGV é, como muitos brasileiros, o adepto do lema "educar para princípios e por princípios". Tal slogan pode parecer muito nobre e totalmente exequível, mas uma análise mais atenta nos mostrará que a conversa pode muito bem ser outra.

Percebam: por mais que seja virtuoso tentar educar uma criança baseando-se em princípios, o problema intrínseco a esse tipo de educação é que, na realidade, o próprio conceito de princípios assim como os princípios são tão frágeis e flutuantes que, muitas vezes, até mesmo adultos que foram educados por pessoas que indiscutivelmente não eram sem princípios têm sérias dificuldades até mesmo em compreendê-los, quem dirá ao aplicá-los no mundo real.

Princípios, por mais que sejam necessários para o convívio em sociedade e por mais que, portanto, precisem ser cultivados desde cedo, são desafiadores para todos não apenas porque muitas vezes é impossível cumpri-los, mas também porque é necessária uma imensa maturidade para compreender não só sua essência como, outrossim, que e porque muitas vezes são esquecidos em nome de justificativas muito boas e de razões não tão boas assim.

Seguindo o mesmo raciocínio reducionista de Dana, ou melhor, o raciocínio endossado por muitos de que seguir um método educacional necessariamente excluir seguir outros simultaneamente, pode-se argumentar, então, que a educação por e para princípios também é um risco, posto que nem todas as individualidades são capazes de suportar um mundo em que os seus princípios não sejam respeitados integralmente, por mais que isto seja impossível, o que poderia gerar uma geração de ressentidos que, munidos de blogs e vlogs na internet e de milhares de fãs, espalham o ódio a favor de um mundo melhor, preterindo o humano real e pensando, sempre, no ideal intangível que, inevitavelmente, não será alcançado e perpetuará esse ciclo interminável de ódio e loucura.

Does that ring any bells?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se acreditou algum dia em "educação por princípios", esse dia certamente era um de princípios do século. Mantém, na plataforma WordPress, o blog Apoliticamente Incorreto.

9 de ago de 2015

Juca Kfouri no banco dos réus: o discurso de ódio e o preconceito classista dos coxinhas esquerdistas contra os manifestantes anti-PT

A revista esquerdista Fórum, uma Caros Amigos sem versão impressa, decidiu republicar, devido à proximidade de novas manifestações pró-impeachment de Dilma, um artigo - se é que um texto tão mal paragrafado pode ser categorizado dessa maneira - do jornalista esportivo Juca Kfouri sobre os panelaços que ocorreram em Março de 2015, pouco antes das primeiras manifestações anti-PT tomarem as ruas do Brasil neste ano.

No texto, intitulado O panelaço da barriga cheia e do ódio, Kfouri, mais desconhecido por ter enchido o saco de Kaká e, anos depois, de Neymar do modo mais ateu Toddynho possível por causa de faixas e camisetas com os dizeres "100% Jesus", escancara de maneira tão grotesca o seu medo e o seu ódio a qualquer manifestação mais contundente de antipetismo que faz até mesmo um antidireitista declarado como este que vos escreve partir em defesa dos adeptos do panelaço e das manifestações, por mais que deles divirja em um milhão de tópicos, desde ideologia política até métodos de divulgação dessa ideologia.

Enfim, vamos às bizarrices.

O coxinha esquerdista, como sempre, adora o dinheiro dos outros

Já de início, Juca nos brinda com uma prova do tom de sua crítica:

Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado.
Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.

Se Juca fosse minimamente honesto, teria dito não apenas a quantia de dinheiro que foi sonegada, mas também o tanto que foi pago de impostos por parte dos brasileiros sem qualquer distinção de classe. 

Para seguir a lógica de Juca, só no ano passado fomos capazes de entregar a uma burocracia estatal repressora e ineficiente a bagatela de 1,8 trilhão de reais, mais do que o triplo da quantia sonegada e mais do que suficiente para que um governo minimamente competente e honesto mantivesse não só as contas em dia como também fosse capaz de investir satisfatoriamente, isto é, investir sem precisar fazer qualquer tipo de corte de verba em setores estratégicos como educação ou saúde.

Juca Kfouri e o coxinhismo de esquerda: fala tão bem sobre política quanto sabe tocar bateria. Juca Kfouri não sabe tocar bateria.
O neoateu, porém, não quer saber de responsabilidade fiscal, tema desde o início do ano espinhoso para o séquito de puxa-sacos do partido governante. O que ele quer, amigo leitor, é o seu dinheiro, que servirá para alimentar desde ONGs de idoneidade duvidosa até megacapitalistas que não querem mais saber de concorrência e que, por isso, procuram o Estado para obter uma grana fácil oferecendo serviços de péssima qualidade. 

Juca, como todo bom coxinha de esquerda, adora o dinheiro dos outros e, por isso, sempre fará campanhas por mais e mais direitos, sem se interessar por como esses direitos incham a máquina estatal por meio de impostos, tornando-a não necessariamente mais eficiente, mas certamente mais endinheirada para reprimir todos aqueles que divirjam do projeto de poder do momento e, claro, mais tentadora para aqueles que quiserem fazer da corrupção o seu método de governar.

Ele, porém, não para por aí e se utiliza da tática esquerdista ao dizer que, ao endossar pequenas corrupções, o "brasileiro" (como se João, Maria e outros 200 milhões fossem todos homogêneos em seus pensamentos e ações) não teria qualquer moral para se manifestar contra a corrupção governamental.

A falta de vergonha na cara é tamanha que Juca se esquece de que as pequenas corrupções que cita são frutos muitas vezes justamente de tentativas de escape ou de subversão de uma burocracia estatal que a todos sufoca, tornando o país cada vez menos produtivo e atrativo para se ser um cidadão cumpridor do número exorbitante de leis que temos. 

Além disso, o comunista da ESPN (quase um pleonasmo) se esquece de que a corrupção estatal é, justamente pelo grande papel que o Estado historicamente representa no Brasil, muito mais fatal do que pequenas corrupções feitas muitas vezes exatamente para fugir do jugo autoritário dessa burocracia falida. Para alguém tão chegado da turma dos relativistas totais, Juca parece um exemplo perfeito de alguém que não sabe julgar os fatos dentro de seu contexto, o que quer que isso ande significando hoje em dia.

Juca Kfouri, a Marilena Chauí de calças

Nos trechos seguintes, Juca prova que, para uma esquerda vigarista, o modus operandi Marilena Chauí de vociferar contra uma classe média abstrata e "reacionária" não será posto de lado facilmente. Segundo Kfouri, 

O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção.
Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando  aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.
Elite branca que não se assume como tal, embora seja elite e branca.

Antes de tudo, é surpreendente a habilidade de Juca e dos esquerdistas em geral de, do alto de sua vigia de pensamento, declararem que quem protestou necessariamente era dono de uma varanda gourmet e que era, necessariamente, uma elite branca, como se a crise desencadeada pela corrupção petista como método de governo não estivesse afetando a todos, inclusive àqueles que esperavam, pelo FIES, o acesso à universidade nos anos restantes de sua graduação, mas que, se não tiveram suas bolsas suspensas, apenas conseguiram-nas com uma dificuldade injustificável quando se oferece qualquer programa ao povo.

A crise afeta, senhor Kfouri, justamente aqueles que, segundo seu raciocínio, não protestariam contra Dilma. Aqueles que não mais podem colocar carne no prato com uma frequência saudável, posto que a carne só fica mais cara. Aqueles que, agora, precisam fazer contas aos borbotões antes mesmo de comprar pão pela manhã, já que mesmo este produto básico da mesa do brasileiro não vem saindo nada barato nem compensatório para o bolso de quem recebe um salário mínimo.

Não, senhor Kfouri, o que surgiu no Brasil nos últimos dois anos não foi "a luta de classes" ou "o ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente", muito menos contra um "governo que revelou  uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres". Governo que prefere o trabalhador é governo que, antes de tudo, deixa o dinheiro no bolso do trabalhador, seja não o sobretaxando, seja com uma política econômica responsável pela qual esse mesmo governo de fato seja capaz de honrar os compromissos que assumiu, fatos que, ao contrário do que foi dito nesse arrazoado de bizarrices que a esquerda brasileira tem coragem de compartilhar como se fosse um texto de Dostoiévski redivivo, não vêm ocorrendo durante o mandato de Dilma Rousseff.

Por fim, se o coxinha de esquerda diz:

Sejamos francos: tão legítimo como protestar contra o governo é a falta de senso do ridículo de quem bate panelas de barriga cheia, mesmo sob o risco de riscar as de teflon, como bem observou o jornalista Leonardo Sakamoto.

Eu tenho o direito a empregar o mesmo raciocínio e dizer que, perto de gente que escreve um artigo repleto de discurso de ódio e de preconceito classista em que sugerem que pessoas que pegam em panelas para exercer o legítimo direito de protestar cometem uma imoralidade tão grande quanto quem se levanta em armas para derrubar um governo, qualquer panelaço ou xingamento a um chefe de Estado é não só legítimo, como mandatório.

Em suma, se quem bate panelas de barriga cheia precisa exercer o senso do ridículo, quem escreve de barriga cheia um texto recheado de ódio e de preconceito classista precisa deixar de ser um cãozinho amestrado do governo enquanto se diz isento, precisa parar de pensar ideologicamente e voltar os olhos à realidade, precisa exercitar o pensamento lógico e perceber que o fato de o oposicionista ser rico ou pobre não faz a menor diferença para se sua causa é verdadeira ou falsa, precisa, enfim, aprender o que de fato é "senso do ridículo" e "vergonha na cara" antes de aconselhar seus adversários políticos a descobrir o que essas duas expressões significam.

Se "Dilma Rousseff, gostemos ou não, foi democraticamente eleita em outubro passado", então cabe a seus partidários o ônus de admitir, sem concessões vigaristas nem falsas condescendências (muito menos acusações de golpismos ou udenismos, porque estas só colam mesmo para nossa esquerda que, mais do que cretina, é totalitária), que os panelaços e as manifestações são nada mais do que o esperado em um país em que a palavra "liberdade" de fato significa algo mais do que a liberdade de defender as causas de que nós gostamos. 

São, portanto, o protesto democraticamente legitimado que só não está sendo ouvido em muitos lugares pela esquerda porque esta fecha, como sempre, os ouvidos ao que não lhe serve ideologicamente, e nada prova melhor isso do que a série de asneiras e sandices escritas por Juca Kfouri e requentadas por blogs de esquerda que se fingem de malucos ao disfarçarem que não entendem que os protestos não são direcionados, neste momento específico, contra a abstrata corrupção de todos, a ser investigada posteriormente, mas contra a real corrupção do partido que, por ter em mãos os órgãos de repressão estatal em sua força máxima e por ter em mãos praticamente os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), representa um perigo ao qual ninguém pode mais vendar os olhos. Muito menos os ditos esquerdistas a favor do povo.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa sinceramente, como ateu, que Juca Kfouri anda crendo demais no Deus-ParTido.

17 de jun de 2015

Legalismo, um delírio

Este é um texto antigo postado em Sociedade Alternativa de Letras quando por lá fui autor. Desta vez, será prefaciado por um adendo do amigo Roger Scar no Facebook meses depois de o texto original ter sido publicado.

PREFÁCIO - O que é um legalista e porque não sê-lo?

O legalista é aquele indivíduo que olha para uma lei, interpreta e assimila-a como se a própria fosse condição real imutável. Ele diz que "se a lei proíbe, é errado." Por corolário ele também diz que "se a lei permite, então está tudo certo."
Há muitos legalistas no mundo. Mas, na área do direito eles se concentram. Meu palpite é que seja algum tipo de lavagem cerebral sofrida, só que eu precisaria cursar direito para ter certeza, e isso não farei. A questão é que ser legalista e advogado ao mesmo tempo torna a situação mais trágica por duas razões.
A primeira razão, é claro, resume-se ao fato de que quem cursa direito estuda - ou deveria - filosofia, o que por si só já deveria resolver o problema. E a segunda razão é que, em nosso sistema, leis não são feitas por quem estudou direito, mas por deputados e senadores que nem precisam ter cursado a quinta série.
Ou seja: ser legalista é depositar toda sua fé nos parlamentares.

Por Roger A. Scar

TEXTO ORIGINAL - Legalismo, um delírio

Escrevi, recentemente, um texto sobre quão incautos são aqueles que defendem a tese de que, por ser o Comunismo (ou, na linguagem esquerdista, "Socialismo real") um sistema tão ou mais mortífero do que o Nazismo, e sendo a apologia a esta doutrina criminalizada, a apologia às "doutrinas vermelhas" também deveria ser considerada um crime.
 
No texto, abordei as diversas facetas do problema, entre elas a de que não há uma cultura que sustente essa criminalização e a de que esse tipo de projeto apenas reforça a ideia de que somos necessitados de um Estado-babá que nos diga em que pensar ou não, mas uma em especial, aquela que intitulei Legalismo, um delírio, merece um texto exclusivamente seu, pois não é difícil ver que, em muitos outros casos e em ambos os lados do espectro político-ideológico, esse é um erro comum.
 
Como no texto supracitado, defino legalismo não tanto como o sentimento de que as leis devem ser cumpridas a qualquer custo, mas principalmente como a crença de que são elas, e não a moral, a cultura ou outro fator de coesão social, que fazem as pessoas serem capazes de discernir entre o certo e o errado, o bom e o mau (e o bem e o mal, por corolário), o verdadeiro e o falso, o belo e o grotesco et cetera.
 
Não é muito difícil perceber que, a não ser que se creia em direitos naturais (e, portanto, em moral objetiva), este tipo de pensamento faria seus defensores caírem automaticamente no relativismo, pois lugares e culturas diferentes, por mais que tenham algumas leis em comum, inevitavelmente terão muitas que diferirão por causa de suas necessidades de momento, das diferentes ideias que sustentam e até mesmo dos gostos pessoais dos seus líderes de momento.
 
O problema, porém, é que quando se fala em "o certo", "o bom", "o verdadeiro", "o belo", especialmente para essas mesmas pessoas que defendem a criminalização de certas condutas ou doutrinas por não se encaixarem em qualquer dessas características - e aqui não falo com o neutralismo tedioso de muitos dos meios intelectuais, pois acho comunismo algo abominável em quase todos os sentidos -, não se intenciona discutir sobre o que é mutável até mesmo por simples preferências pessoais, e sim sobre o que, independente de tempo e de espaço, serve como regra universal de julgamento moral, factual, político e estético.
 
Aliás, falando em tempo, volto às necessidades de momento e pergunto aos legalistas: se são as leis o principal instrumento para discernir o certo do errado, seria a Pena Capital certa durante o Regime Militar e errada em nossos tempos? E, principalmente, se esta mudança se deu pela mudança de percepção da verdade (como de fato ocorreu), como garantir que as atuais leis são as melhores e mais corretas? Seria a verdade, novamente, dependente do que o personagem O'Brien, do genial 1984, escrito pelo mais genial ainda George Orwell, chama de "solipsismo coletivo", isto é, do julgamento de um coletivo determinado sobre o que é verdadeiro e o que é falso?
 
Já se o apelo for aos direitos naturais, essa crença na força das leis como elementos de geração de repúdio ou apoio moral a determinado item fica ainda mais fragilizada, pois, se os direitos naturais pressupõem (como de fato ocorre) uma moral objetiva, isto significa justamente que, antes de qualquer direito ou dever existir, deve haver uma moral imutável e universalmente válida que o sustente. Como seria, então, o direito responsável pela moral se é a moral que dá origem ao direito, e não o contrário?
 
O legalismo nos termos aqui colocados, entretanto, é tão frágil que apenas a observação atenta da realidade que nos cerca já seria mais do que suficiente para desmontá-lo. Afinal, se pirataria é crime, por exemplo, por que tantos não só a toleram e dela se utilizam como, em determinadas circunstâncias, também a apoiam moralmente? Será, também, que se certas condutas já não fossem repudiadas quase que por todos em nossa sociedade haveria como sustentar, apenas pela lei, que estão erradas sem cair em uma argumentação circular?
 
E enquanto os legalistas tentam nos mostrar o mistério de sua fé, os que queriam ver criminalizados e mandados para a lata de lixo da história é que, tão politicamente habilidosos de tão estratégicos e tão estratégicos de tão politicamente habilidosos, sequer precisam se esforçar muito para mostrar quaisquer mistérios que bem prefiram. Eis, meus amigos, o triste fim de quem não acredita no conselho de Goethe: "é urgente ter paciência".
 
Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pede desculpas à humanidade se algum dia já foi um legalista.

1 de jun de 2015

Uma tirinha da pesada: Marcos Lannes sob o espectro da desconstrução e da reconstrução

Circula já há algum tempo no Facebook uma tirinha provavelmente criada pela neoesquerda americana e imediatamente comprada pela neoesquerda brasileira em que, por meio dos personagens Richard (um garoto com boas condições financeiras e com pais presentes) e Paula (uma garota que nasceu em família com condições financeiras mais baixas e que, por isso, convive com piores oportunidades), se contesta a ideia de meritocracia, ou seja, a ideia de que aquele que traz mais vantagens a todos é o que naturalmente deve se sobressair na vida e de que, muitas vezes, o esforço pessoal é o fator mais decisivo nesse bom sucesso.

Não sou esquerdista e, por isso, nada tenho contra a meritocracia em essência. Considero, por exemplo, um desserviço ao debate público a existência de uma esquerda que meramente contesta a democracia e a meritocracia sem dizer explícita e honestamente não só qual é o sistema melhor do que o atual, mas por que meios (e, mais ainda, se estes meios são todos honestos ou se são necessários os meios desonestos) iremos alcançá-lo, o que significa, para qualquer um que entenda o que é política, que tratamos muito provavelmente com pilantras, e não com debatedores que se deva levar a sério.

O problema, porém, é que, justamente por não ter assumido fidelidade ideológica para com o lado destro do espectro político, não consigo ficar calado quando leio um texto defendendo a meritocracia de modo apenas parcialmente verdadeiro. Pior ainda é quando, como autor deste texto, está alguém que considero não só como amigo, mas também como uma das poucas mentes sensatas do debate político.

Falo de ninguém mais ninguém menos do que o ainda injustamente pouco conhecido Marcos Lannes, do blog Minuto Produtivo. Apesar de conservador declarado, Marcos acaba sendo uma das poucas vozes das quais raramente ouvimos palavras que não soam como o puro e barato moralismo típico da tribo de manés que se autodeclaram "conservadores brasileiros". Como, no entanto, ninguém é perfeito, também Marcos cometeu seus erros em certos comentários que compõem o bom artigo A meritocracia NÃO precisa de oportunidades iguais para funcionar.

Desejo, então, por meio do sistema que o leitor já conhece, expor o que penso (e deve ser esta, justamente, a única "autoridade" de minhas palavras) sobre certos pontos para, talvez, acrescentar ao leitor de ambos os artigos uma visão que ainda não tinha sido exposta tanto na tirinha quanto no artigo de meu amigo.

Minuto construtivo

Começo contestando uma das premissas que Lannes assume para que o debate seja iniciado. Segundo o futuro engenheiro de produção:
"A premissa importante antes de se debater esse assunto, é que, diferente da tirinha, que resume os seres humanos em dois grupos de espantalhos homogêneos, a verdade é que existem bilhões de indivíduos diferentes, com perfis diferentes, aspirações diferentes e visões de mundo diferentes."
É óbvio para qualquer um que pense fora da caixa progressista que vem cada dia mais tentando ser a única caixa de bombom do universo o que Marcos bem diz: ora, uma análise rigorosa nos faria perceber que o mundo não se divide apenas em Richards e Paulas. O problema para Lannes, porém, começa justamente quando vamos tentando destrinchar os outros agrupamentos possivelmente existentes, sendo que um deles é justamente o das pessoas que, tendo nascido em berço de ouro, desperdiçam suas oportunidades ao máximo mas que, ainda assim, conseguem, por meio de herança, passar uma vida inteira vadiando sem maiores problemas, o que definitivamente nenhum dos que não nasceram nesse tipo de berço pode fazer se quiser aumentar suas chances de sobrevida no mundo caótico em que vivemos.

Mais óbvio ainda é que, com isso, não quero propor a solução esquerdista para o dilema, ou seja, a estatização dos meios de não sei quem ou o fuzilamento dos grupos x, w e y. O problema, porém, é que, por mais que, como Lannes bem pontua, "existem filhos de pais ricos que possuem carreiras medíocres (se levar em conta o que seus genitores investiram), e existem filhos de pais pobres que construíram ótimas e sólidas carreiras (principalmente se levar em conta algumas limitações de investimento)", persiste o problema moral de que, quando o primeiro se mantém rico e quando o segundo se mantém pobre, o julgamento tanto das pessoas quanto dos tribunais sobre os dois dificilmente terminará em favor do segundo, o que pode, a depender das circunstâncias, minar todas essas conquistas e, de certa forma, até premiar as falhas do outro. É claro que, para mudar esse quadro, é necessário mudar a mentalidade geral pelas vias democráticas, mas o problema é: que setor da direita consegue reagir adequadamente a isso, ou seja, sem gritar acusações de marxismo cultural a quem propõe essa mudança óbvia?

Minuto desconstrutivo

Passo, agora, aos limites da semiótica lannesiana, ou seja, a certos equívocos que notei na interpretação de meu amigo da tirinha sobre a qual teceu comentários:

"A tirinha tão elogiada por alguns passa a impressão de que Richard tem menos mérito em conseguir as coisas pelo fato dos pais serem ricos. Ou, melhor dizendo, os pais do garoto de classe média/alta são culpados pelo simples fato de terem mais recursos e uma melhor rede de relacionamentos - no mundo dos negócios é conhecida como networking - que lhe permita chegar onde chegou."

Além do fato de não necessariamente ser errado dizer que Richard tem menos mérito do que teria, por exemplo, um "Bob" de origem não-rica ao conseguir o que quer, o problema das impressões é que, justamente, estas variam de leitor para leitor. Enquanto para Lannes, que do que eu saiba não teve raízes esquerdistas em sua formação política, a impressão se resumiu apenas à questão do mérito, minha impressão foi de que, além de contestar a ideia de meritocracia, o que se quis expor foi a crescente cegueira (porque me recuso a usar o confusíssimo termo "alienação" da esquerda imbecil do Brasil varonil) de Richard à totalidade das razões que o fizeram chegar ao ponto em que chegou, esquecendo-se, por exemplo, de que conseguir um estágio graças ao networking paterno citado pelo graduando em engenharia é algo bem mais "de bandeja" do que ter de cuidar dos pais doentes, sacrificar parte dos estudos e, com isso, conseguir um emprego de baixa remuneração em que também se é vigiado, inclusive com mais fervor, constantemente.

Nada, contudo, supera a inferência errada de Marcos quanto ao que se julga sobre os pais de Richard: não há, em nenhum lugar do texto (no caso, da tirinha), trechos que nos permitam inferir qualquer juízo de valor negativo com relação às posses dos pais de Richard, sendo que nem mesmo a questão do estágio, eticamente questionável, é profundamente questionada na tirinha. Lannes, então, ainda deve ao leitor uma resposta, com base no texto da tirinha, sobre de onde sua interpretação foi tirada, isto porque, momentos depois, o articulista diz que os pais de Richard teriam adquirido sua riqueza necessariamente de forma meritocrática, o que também não é colocado na tirinha, ou seja, o que configura mais um salto de fé do amigo conservador.

Minuto reconstrutivo

Termino implicando com a maneira com que o futuro engenheiro de produção interpretou a finalidade a que se propõe a tirinha. Segundo Lannes, o objetivo da tirinha é "contestar a ideia de meritocracia, a invalidando pelo fato de não existir igualdade de oportunidades". É claro que, por mais que a ideia de me tornar um dos melhores sofistas do século ainda me atraia, não sou relativista a ponto de negar o que vejo diante de meus olhos, ou seja, que o que Marcos subentendeu não poderia estar mais correto, apesar de certamente haver aqueles que dirão que a tirinha só quis "problematizar" a ideia de meritocracia, como se "problematizar" já não fosse um primeiro passo político para se invalidar determinada ideia.

Não quero, então, contestar a interpretação de Lannes neste ponto em específico, mas propor uma discussão que poderá ajudar muitos direitistas, e isso inclui Marcos, a militarem ou a pensarem de modo um pouco diferente sobre essa questão. Dou enfoque, para isso, à última fala do personagem Richard, então um homem de sucesso cercado por seu séquito de puxa-sacos (as usual, diga-se de passagem). Seja honesto comigo, leitor: não é justamente o ar de superioridade arrogante de Richard nesse último quadrinho que o faz uma figura que dificilmente ganharia a nossa simpatia e cujos argumentos, portanto, rejeitaríamos ou teríamos pelo menos a tendência a rejeitar logo de cara? Ao mesmo tempo, esse comportamento não é, em termos, muito parecido inclusive com o das pessoas que superaram o binarismo Richard x Paula e, tendo origem pobre, se deram muito bem na vida, quando falam sobre como quem não venceu na vida é necessariamente preguiçoso ou burro, mesmo sem conhecer a história de vida dessas pessoas?

Penso, então, que o leitor já sabe onde quero chegar: por menos que se possa condenar generalizações em essência - afinal, uma parte considerável da guerra política consiste justamente em pegar condutas particulares de um membro de um grupo e generalizá-la para todos, seja para defesa, seja para ataque -, não há momento em que deveríamos pelo menos tomar cuidado para generalizarmos de um mal jeito justamente aqueles de cujo apoio precisamos? Quem das "Paulas", afinal, votaria, em sã consciência, em um político que é apoiado por pessoas que as veem de uma maneira totalmente distorcida, enxergando-a como pouco mais do que lixo humano?

Essa, então, é minha proposta para uma direita mais tenaz: não tentar necessariamente defender Richard, mas, antes, aproveitar a desconstrução esquerdista de Richard para, com isso, reconstruir um "Robert", um "John" ou mesmo um "Will" que, inevitavelmente, possa virar o jogo e, progressivamente, tirar a ideia de meritocracia do limbo da história das ideias perante o grande público. Isso, lógico, aos que irem, neste artigo, para além do "marxismo cultural" que aparentemente é apoiado.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Por algum motivo, pensou que este post cairia melhor em Blogger do que em WordPress. Espera, então, não estar enganado.

PS: Lannes respondeu a meu texto. Quem quiser pode acompanhar o final da discussão em Apoliticamente Incorreto.