23 de jan de 2014

Explicando para meus filhos porque nem tudo é passível de discussão - Uma breve reflexão sobre a necessidade da existência de "tabus"

Facebook afora (e também fora do Facebook), não é difícil ver pessoas propagando uma ideia que, de antemão, parece ser muito interessante: A de que tudo é passível de discussão, sendo que o problema, na verdade, não estaria nas ideias a serem discutidas, mas nas pessoas com quem se discutiria. Relevante, também, é perceber como muitas das pessoas que julgam ter descoberto a América quando puderam "desafiar o senso comum" e propor o livre debate de qualquer ideia usam desse tipo de discurso não só para promover as causas que defendem, mas para promover a si próprias como portadoras da máxima virtude, a "tolerância" - o que, para a linguagem progressista, como aponta Olavo de Carvalho, significa o mesmo que pregar a visão única, mas isto é outra conversa.

Ocorre, no entanto, que, como nos diz o filósofo Luiz Felipe Pondé em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaios de Ironia, não sou dos que costumam confiar em gente que promove demais as próprias virtudes (ou, em linguagem mais aristotélica, não creio que um homem deva sair enunciando as próprias virtudes por aí). Vamos, então, aos trabalhos de mostrar, sucintamente, para os advogados do mundo melhor em que todos debatam tudo, uma visão pessimista e realista (ou seja, distópica) dos efeitos possíveis de convencer as pessoas de que tudo é passível de discussão.

Pondé ao saber da nova moda dos intelectuais facebookianos.
Falsos relativistas - Um adendo (Ou: Politicamente corretos, socialmente burros)

Vejamos, então, as implicações de propor que não existem tabus, ou seja, que não existem assuntos ou tópicos que não se possa discutir por meio de lógica pura e simples. Primeiro, uma das consequências de se colocar qualquer objeto ou ideia em discussão para indivíduos é que, mesmo com uma discussão inadequada, estes indivíduos podem vir a repensar suas crenças sobre o que está sendo discutido.

Se isso ocorre com indivíduos, então imaginem com uma sociedade inteira, composta, justamente, por indivíduos. Ou seja, isto significa que, caso consigamos convencer uma parte relevante de uma sociedade de que tudo pode ser discutido, estaremos a convencendo, por corolário, que tudo, inclusive os dogmas morais sob os quais ela se assenta, podem ser repensados.

Acontece que, para a maior parte dos que advogam por esta causa, o que acontecerá será simples: A sociedade provavelmente será convencida, por exemplo e por causa da virtuosidade natural dessa proposição, de que é um absurdo fazer piadas com negros, gays e ateus, mas que não é fazê-las com brancos, héteros e cristãos. Da mesma forma, obviamente se convencerá, de novo pela virtuosidade da proposta, que causas como o casamento gay, a legalização do Aborto, a legalização da maconha, a institucionalização das Cotas Raciais e/ou Sociais em universidades et cetera são naturalmente boas e que é um sinal de atraso e de "reacionarismo" não concordar com elas e não implementá-las de imediato no país.

Entretanto, toda esta situação tem dois agravantes e, por incrível que pareça, o menor deles é o político. O detalhe é que, normalmente, as mesmas pessoas que advogam em favor dessa tese claramente relativista não conseguem suportá-la quando se deparam com o "atraso" ou com a "reação", ou seja, não conseguem sequer admitir que suas ideias para um mundo melhor não sejam amplamente aceitas por todos, e que ainda haja quem tenha a petulância e a ousadia de ridicularizá-las ou mesmo de expressar um temor puro e simples com relação às consequências possíveis dessas ideias quando aplicadas na realidade concreta.

O que ocorrerá, então, é que, ao invés de se dar realmente voz para todos os lados de uma questão, a voz será progressivamente cedida, seja por meio de caricaturas do oponente ou de cerceamento de voz mesmo, apenas ao lado que obtiver a hegemonia, ou seja, o domínio dos meios de mídia e de cultura em um país, e isto se dá por um motivo bem simples e que foi muito bem detectado por Olavo: o de que o relativismo real e total é, na verdade, insuportável e inconveniente, pois ele pressupõe que se seja politicamente capaz não só de aceitar a divergência como também de aceitar a possibilidade de que o lado contrário esteja certo em alguns pontos. O problema é que, com o passar do tempo, este lado não será eliminado, mas sim poderá se fortalecer especialmente se vier a sofrer as supracitadas caricaturizações  e censuras (mais ou menos como ocorre com a atual "direita" no Brasil), o que trará, naturalmente, ao lado hegemônico a necessidade de jogar os perdedores no ostracismo. Para isso ocorrer sem maiores problemas, dever-se-á criar justamente o quê? Bingo, leitor, novos tabus, ou seja, o que mudará será apenas o lado que controla o que é tabu ou não.

Esse, no entanto, é, como já dito, o agravante político e, portanto, o menor dos agravantes, pois o maior é, sem dúvida, o social. Suponhamos, então, que o relativismo real foi alcançado e que há, de fato, discussão equilibrada sobre todos os tipos de assunto. Caímos, então, em uma segunda consequência. Se todos os assuntos podem ser discutidos sem nenhum tipo de restrição a não ser a de "pessoas ignorantes com que não se discute" e se dogmas morais que formam a nossa sociedade podem ser contestados igualmente sem nenhum tipo de restrição, então, eventualmente, isto significa que o próprio pensamento sobre outros dogmas que pareceriam até então incontestáveis também pode mudar. 

Ou seja, se não há assunto indiscutível e, principalmente, se não há, para um povo, por mais bem instruído e preparado que este seja contra fraudes ambulantes, tese impossível de se defender, o que acontece é que não há, da mesma maneira, posicionamento impossível de se adotar ou de se mudar, o que quer dizer que se pode abrir brechas, em nosso caso, para discutir e aceitar como corretas a pedofilia, a zoofilia, a necrofilia, o abandono de menores, o estupro de incapazes ou até mesmo o assassinato.

Tudo isto, por sua vez, causa, em uma sociedade organizada, exatamente a desorganização de sua moral e, por consequência, a deixa desorganizada em todos os aspectos, pois não terá qualquer valor seguro pelo qual possa se guiar e, portanto, progredir. Ocorre, no entanto, que, hora ou outra, será necessário, para se manter o mínimo de sanidade e de ordem, de início, coagir as pessoas para que vivam ordeiramente. Isto, porém, por si só não será suficiente, pois não existem valores em que os cidadãos se possam fiar e, portanto, não saberão como chegar ao modus vivendi mais ordeiro. Precisaremos, então, criar o quê? Bingo de novo, amigo leitor.

Percebemos, então, que, por mais lindo que seja em teoria, o discurso de que qualquer coisa pode ser discutida terá, na prática, dois caminhos mais prováveis e que levarão, finalmente, à necessidade de, justamente, negar o discurso de que tudo pode ser discutido (que, aliás, como bem notou um amigo leitor, Rudy Souza, parece ser indiscutível atualmente). Mas, enfim, né, devo pensar essas coisas por ser "de extrema-direita", não?

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, nas horas vagas, amante diletante da Filosofia. Foi chamado pela esquerda de "polemistazinho de merda" e pela direita de "progressista safado". Ficou agradecido, então, pela preferência.

11 comentários:

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    1. Seu neocon de bosta! heuehuehueheuheuhuehuehue

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  2. Otávio, acredite se quiser mais isso daqui foi a coisa mais surreal, anti surrealista que já li!

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    1. Bem pois achei que seu texto beira a surrealidade. Principalmente na parte "o que quer dizer que se pode abrir brechas, em nosso caso, para discutir e aceitar como correta pedofilia, a zoofilia, a necrofilia, o abandono de menores, o estupro de incapazes ou até mesmo o assassinato." (NÃO DEFENDENDO NENHUMA DAS PRATICAS), porem foi a discussão desses assuntos que os tornaram crimes (tirando o assassinato).
      E é anti surrealista, pois esse pregavam que absolutamente tudo é discutível, principalmente em uma sociedade burguesa.

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    2. "Bem pois achei que seu texto beira a surrealidade. Principalmente na parte "o que quer dizer que se pode abrir brechas, em nosso caso, para discutir e aceitar como correta pedofilia, a zoofilia, a necrofilia, o abandono de menores, o estupro de incapazes ou até mesmo o assassinato." (NÃO DEFENDENDO NENHUMA DAS PRATICAS), porem foi a discussão desses assuntos que os tornaram crimes (tirando o assassinato)."

      Vamos lá, Antonio, de novo, para eu ver se você entende: Esses assuntos não foram postos como crimes porque foram discutidos, mas porque foram tomados como pressupostos morais necessários para uma sociedade minimamente sã. E, mesmo que tivessem sido postos em discussão para todos, o ponto ainda se mantém: Se eu posso discutir tudo, eu posso MUDAR DE OPINIÃO sobre tudo. Se isso acontece com um indivíduo, pode acontecer com toda a sociedade. Se nenhum assunto não pode ser discutido, nenhuma opinião, então, é imutável. Isto significa, então, que podemos, sim, mudar a opinião social sobre cada um desses temas. E aí?

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    3. Sim podemos! Porem a logica de acabar com a discussão é bem mais perigosa que isso, pois dai para entrar em alguns pontos a diante é um pulo, historicamente todo meio de censura começou através da proibição da discussão de pontos morais.
      Alem do mais a existências desses tabus não impediu por exemplo do uso de zoofilia como técnica de tortura em regimes como o de Pinochet e Franco, aonde tocar nesse assunto era simplesmente inaceitável!
      E ai?

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    4. Caro amigo néscio, não estou falando de PROIBIR discussões. Ninguém propôs proibição de coisa alguma aí. O que eu disse é que é PERIGOSO conscientizar as pessoas de que elas podem e, mais, de que DEVEM discutir sobre todo e qualquer tópico pelos motivos que listei.

      E quem SABIA desses usos durante os regimes que você citou? Se a maioria do povo soubesse, teria aprovado ou não?

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    5. Bem pelo menos não foi o que me aparentou Otavin, porem acho que minha interpretação mais chata se deve ao fato de achar extremamente perigosos desses discursos, de que tais coisas não podem ou não devem ser discutidas.
      Não acho "PERIGOSO conscientizar as pessoas de que elas podem e, mais, de que DEVEM discutir sobre todo e qualquer tópico" a não ser é claro que vc tenha medo de que essas coisas estejam baseadas em posições fracas, o que não é o caso de nenhuma das que vc citou, na verdade acho que um aprofundamento da discussão sobre o assunto levaria a uma diminuição da pratica dessas atividades, acho que ignorância e medo não são armas de qualidade.

      Sobre os uso juro que não sei até onde isso era compartilhado socialmente (Aposto que pouco pelas características dos regimes), porem os citei como exemplo de como certas atividades possam ser defendidas como tabus, porem praticadas contra "inimigos".

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    6. "Sobre os uso juro que não sei até onde isso era compartilhado socialmente (Aposto que pouco pelas características dos regimes), porem os citei como exemplo de como certas atividades possam ser defendidas como tabus, porem praticadas contra "inimigos"."

      O que não as torna mais legítimas, e isso nem deve ocorrer.

      Pelo visto, você vai precisar reler esse post para entender em qual sentido eu usei o verbo "poder". Obviamente, não quero proibir discussões. Acha que sou o que, algum comunista?

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    7. Não só acho que vc esta cada vez mais fanático e cada vez menos crítico, ou seja, para começar a propagar ingenuamente discursos muito bem direcionados é fácil. Eu gostaria mesmo que fosse fácil assim definir que gosta de uma boa censura, porem posso te falar com extrema certeza que isso não tem porra nenhuma a ver com comunismo, Pinochet que o diga!

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