31 de jan de 2014

Teste de cegueira ideológica

Apresento ao leitor a seguinte citação, retirada de um livro não muito famoso:

"Quando é o poder que diz ao povo aquilo em que é preciso crer, está se referindo a uma 'espécie de religião política', raramente preferível à precedente [...] Ao fim e ao cabo, o conteúdo específico do novo dogma importa pouco [...] O essencial é a nova 'plenitude de poder', já que o poder temporal impõe também as crenças que lhe convêm. Controlando a escola, ele transforma a instrução, que supostamente deveria trazer a liberação, em ferramenta de uma submissão ainda maior; ele apresenta como dogmas imutáveis ou, pior, verdades científicas, as últimas decisões políticas [...] A religião tradicional queria controlar a consciência do indivíduo, fosse exercendo ela mesma o poder temporal, ou delegando a este a tarefa de reprimir. A religião política, por sua vez, poderá vigiar e orientar diretamente tudo. [...] O território da nova religião ultrapassa de longe o do antigo; em consequência aumenta também aquele que o indivíduo terá de defender."

Lanço, agora, três perguntas:

1- Você concorda até que ponto com o autor?

2- Quem você acha que é o autor de cujo livro a citação foi retirada?

a) Mestre (e, para alguns, uma deidade) Olavão, em "O Imbecil Coletivo"
b) O libertário Marcos Bagno, em "A Norma Oculta"
c) A maior filósofa do hemisfério, Marilena Chauí, em "O que é Ideologia?"
d) O filósofo búlgaro Tzvetan Todorov, em "O espírito das Luzes"
e) O reaciotário Luciano Henrique Ayan, em "Desvendando o Esquerdismo - Guia para Iniciantes".

3- Você considera que este autor tem o DIREITO de continuar a escrever livros (caso discorde dele)?

Saberão a segunda resposta em breve (ou nos comentários mesmo).

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, obstinadamente, procura desvendar os enigmas da Filosofia. Perguntaria a um certo membro do Ad Hominem como é ser odiado por olavettes e esquerdistas ao mesmo tempo, mas, além de já conhecer esta sensação, só se mistura com libertários durante o happy hour.

23 de jan de 2014

Explicando para meus filhos porque nem tudo é passível de discussão - Uma breve reflexão sobre a necessidade da existência de "tabus"

Facebook afora (e também fora do Facebook), não é difícil ver pessoas propagando uma ideia que, de antemão, parece ser muito interessante: A de que tudo é passível de discussão, sendo que o problema, na verdade, não estaria nas ideias a serem discutidas, mas nas pessoas com quem se discutiria. Relevante, também, é perceber como muitas das pessoas que julgam ter descoberto a América quando puderam "desafiar o senso comum" e propor o livre debate de qualquer ideia usam desse tipo de discurso não só para promover as causas que defendem, mas para promover a si próprias como portadoras da máxima virtude, a "tolerância" - o que, para a linguagem progressista, como aponta Olavo de Carvalho, significa o mesmo que pregar a visão única, mas isto é outra conversa.

Ocorre, no entanto, que, como nos diz o filósofo Luiz Felipe Pondé em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaios de Ironia, não sou dos que costumam confiar em gente que promove demais as próprias virtudes (ou, em linguagem mais aristotélica, não creio que um homem deva sair enunciando as próprias virtudes por aí). Vamos, então, aos trabalhos de mostrar, sucintamente, para os advogados do mundo melhor em que todos debatam tudo, uma visão pessimista e realista (ou seja, distópica) dos efeitos possíveis de convencer as pessoas de que tudo é passível de discussão.

Pondé ao saber da nova moda dos intelectuais facebookianos.
Falsos relativistas - Um adendo (Ou: Politicamente corretos, socialmente burros)

Vejamos, então, as implicações de propor que não existem tabus, ou seja, que não existem assuntos ou tópicos que não se possa discutir por meio de lógica pura e simples. Primeiro, uma das consequências de se colocar qualquer objeto ou ideia em discussão para indivíduos é que, mesmo com uma discussão inadequada, estes indivíduos podem vir a repensar suas crenças sobre o que está sendo discutido.

Se isso ocorre com indivíduos, então imaginem com uma sociedade inteira, composta, justamente, por indivíduos. Ou seja, isto significa que, caso consigamos convencer uma parte relevante de uma sociedade de que tudo pode ser discutido, estaremos a convencendo, por corolário, que tudo, inclusive os dogmas morais sob os quais ela se assenta, podem ser repensados.

Acontece que, para a maior parte dos que advogam por esta causa, o que acontecerá será simples: A sociedade provavelmente será convencida, por exemplo e por causa da virtuosidade natural dessa proposição, de que é um absurdo fazer piadas com negros, gays e ateus, mas que não é fazê-las com brancos, héteros e cristãos. Da mesma forma, obviamente se convencerá, de novo pela virtuosidade da proposta, que causas como o casamento gay, a legalização do Aborto, a legalização da maconha, a institucionalização das Cotas Raciais e/ou Sociais em universidades et cetera são naturalmente boas e que é um sinal de atraso e de "reacionarismo" não concordar com elas e não implementá-las de imediato no país.

Entretanto, toda esta situação tem dois agravantes e, por incrível que pareça, o menor deles é o político. O detalhe é que, normalmente, as mesmas pessoas que advogam em favor dessa tese claramente relativista não conseguem suportá-la quando se deparam com o "atraso" ou com a "reação", ou seja, não conseguem sequer admitir que suas ideias para um mundo melhor não sejam amplamente aceitas por todos, e que ainda haja quem tenha a petulância e a ousadia de ridicularizá-las ou mesmo de expressar um temor puro e simples com relação às consequências possíveis dessas ideias quando aplicadas na realidade concreta.

O que ocorrerá, então, é que, ao invés de se dar realmente voz para todos os lados de uma questão, a voz será progressivamente cedida, seja por meio de caricaturas do oponente ou de cerceamento de voz mesmo, apenas ao lado que obtiver a hegemonia, ou seja, o domínio dos meios de mídia e de cultura em um país, e isto se dá por um motivo bem simples e que foi muito bem detectado por Olavo: o de que o relativismo real e total é, na verdade, insuportável e inconveniente, pois ele pressupõe que se seja politicamente capaz não só de aceitar a divergência como também de aceitar a possibilidade de que o lado contrário esteja certo em alguns pontos. O problema é que, com o passar do tempo, este lado não será eliminado, mas sim poderá se fortalecer especialmente se vier a sofrer as supracitadas caricaturizações  e censuras (mais ou menos como ocorre com a atual "direita" no Brasil), o que trará, naturalmente, ao lado hegemônico a necessidade de jogar os perdedores no ostracismo. Para isso ocorrer sem maiores problemas, dever-se-á criar justamente o quê? Bingo, leitor, novos tabus, ou seja, o que mudará será apenas o lado que controla o que é tabu ou não.

Esse, no entanto, é, como já dito, o agravante político e, portanto, o menor dos agravantes, pois o maior é, sem dúvida, o social. Suponhamos, então, que o relativismo real foi alcançado e que há, de fato, discussão equilibrada sobre todos os tipos de assunto. Caímos, então, em uma segunda consequência. Se todos os assuntos podem ser discutidos sem nenhum tipo de restrição a não ser a de "pessoas ignorantes com que não se discute" e se dogmas morais que formam a nossa sociedade podem ser contestados igualmente sem nenhum tipo de restrição, então, eventualmente, isto significa que o próprio pensamento sobre outros dogmas que pareceriam até então incontestáveis também pode mudar. 

Ou seja, se não há assunto indiscutível e, principalmente, se não há, para um povo, por mais bem instruído e preparado que este seja contra fraudes ambulantes, tese impossível de se defender, o que acontece é que não há, da mesma maneira, posicionamento impossível de se adotar ou de se mudar, o que quer dizer que se pode abrir brechas, em nosso caso, para discutir e aceitar como corretas a pedofilia, a zoofilia, a necrofilia, o abandono de menores, o estupro de incapazes ou até mesmo o assassinato.

Tudo isto, por sua vez, causa, em uma sociedade organizada, exatamente a desorganização de sua moral e, por consequência, a deixa desorganizada em todos os aspectos, pois não terá qualquer valor seguro pelo qual possa se guiar e, portanto, progredir. Ocorre, no entanto, que, hora ou outra, será necessário, para se manter o mínimo de sanidade e de ordem, de início, coagir as pessoas para que vivam ordeiramente. Isto, porém, por si só não será suficiente, pois não existem valores em que os cidadãos se possam fiar e, portanto, não saberão como chegar ao modus vivendi mais ordeiro. Precisaremos, então, criar o quê? Bingo de novo, amigo leitor.

Percebemos, então, que, por mais lindo que seja em teoria, o discurso de que qualquer coisa pode ser discutida terá, na prática, dois caminhos mais prováveis e que levarão, finalmente, à necessidade de, justamente, negar o discurso de que tudo pode ser discutido (que, aliás, como bem notou um amigo leitor, Rudy Souza, parece ser indiscutível atualmente). Mas, enfim, né, devo pensar essas coisas por ser "de extrema-direita", não?

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, nas horas vagas, amante diletante da Filosofia. Foi chamado pela esquerda de "polemistazinho de merda" e pela direita de "progressista safado". Ficou agradecido, então, pela preferência.

21 de jan de 2014

Eu, Apolítico - O curioso (aliás, curiosíssimo) caso de Rachel Sheherazade... e da "nova direita brasileira" (Ou: A volta das perguntas que não foram)

Rachel Sheherazade: Jornalismo "de direita"?
Sim, amigos leitores. Depois de muito tempo (mais especificamente, desde o Carnaval de 2013), sinto-me obrigado a voltar a falar da figura sempre polêmica de Rachel Sheherazade, jornalista sbtana (muito gata, por sinal) que, como diria um nobre amigo, dia-sim-e-o-outro-também irrita os mais diversos grupos de fanáticos ideológicos, desde neo-ateus a feministas, marxistas que não assumem o Marxismo, marxistas declarados, secularistas, defensores da causa LGBT et caterva.

Não é difícil de se prever, então, o número imenso de ataques que a jornalista sofre, Facebook afora, por parte desses grupos, incluindo, aliás, ataques de ditos "filósofos" sem ideologia mas que, estranhamente, só aparentam discordar do esquerdismo mais radical na questão do método para construir o "mundo melhor" - o que quer que isto signifique na linguagem progressista. A onda mais recente, por exemplo, foi causada pela notícia de que os colegas de redação e de emissora de Sheherazade sentiriam vergonha de trabalhar com esta, posto que tem uma "postura muito opinativa", expressando "pensamentos com os quais nem todos concordam".

Traduzindo, o que Sheherazade faz, então, é expressar as opiniões de que a mídia progressista, em geral, não gosta, e, com isso, além de ganhar o rótulo de "direitista conservadora alienada homofóbica racista machista transfóbica gordofóbica ateofóbica cristã evangélica", cativar para si um público que, na verdade, se sente pessimamente representado não só pela política mas também pela mídia brasileira, muito pusilânime para sequer cogitar a possibilidade de existirem jornalistas com opinião própria, quanto mais a possibilidade de esses jornalistas expressarem essa opinião para o grande público.

Não vou, apesar disso, gastar saliva - no caso, caracteres - demonstrando o totalitarismo do tipo de pessoa (ou seja, do militante "por um mundo melhor", do "progressista" do progresso inalcançável) que, com essa espécie de boicote sorrateiro, tenta, na verdade, retirar dos órgãos de mídia qualquer tipo de pensamento que fuja à cartilha que o totalitarista resolveu seguir, pois, com brilhantismo, homens declaradamente de direita (e com fama bem maior e bem melhor entre a própria direita que a deste blogueiro anti-direitista) como Rodrigo Constantino, Luciano Henrique Ayan e, mais recentemente, Flávio Morgenstern já o fizeram cada um a seu modo e cada um com o seu tamanho de texto, indo desde o brevíssimo Constantino ao elaboradíssimo Morgenstern.

Ocorre, porém, que, em todos esses textos, apesar de uma abordagem perfeita do papelão protagonizado pelas esquerdas (mais uma vez, diga-se de passagem), faltou ainda abordar o outro lado do espectro: O papelão da direita política. O que quero dizer com isso? Explico já. Vamos, então, aos trabalhos.

Um problema de definição: O fanatismo de direita 

Olavo de Carvalho sobre a "nova direita brasileira"
Diz o filósofo campinense Olavo de Carvalho em seu O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota, assim como em diversas outras oportunidades, que a melhor forma de reconhecer um fanático de qualquer tipo, em especial o fanático ideológico, é ver como ele se porta perante as atitudes de outras pessoas, ou seja, como ele lida com a divergência de opinião, de crença e do escambau-a-quatro que, por uma razão óbvia de existirem, sempre, indivíduos com as mais diversas experiências de vida, sempre existirão. Nos termos olavianos:
O que o fanático nega aos demais seres humanos é o direito de definir-se nos seus próprios termos, de explicar-se segundo suas próprias categorias. Só valem os termos dele, as categorias do pensamento partidário. Para ele, em suma, você não existe como indivíduo real e independente. Só existe como tipo: "amigo" ou "inimigo". Uma vez definido como "inimigo", você se torna, para todos os fins, idêntico e indiscernível de todos os demais "inimigos", por mais estranhos e repelentes que você próprio os julgue.
Isto significa, então, que, antes da fervorosidade pura e simples, o que caracteriza um real fanático e o que o diferencia de um mero entusiasmado é, de fato, o grau de cegueira que aquele tem em relação a tudo e todos que pareçam não se enquadrar nas categorias com as quais ele está acostumado a pensar. Só que, ao contrário do que ocorre no artigo linkado, Olavo, normalmente, não para por aí e põe em jogo outro elemento essencial: o fanático não hesita, em benefício de seus fins político-ideológicos, em enquadrar dentro do seu esquema de pensamento todo e qualquer indivíduo que venha a divulgar opiniões para a plateia, seja ele filósofo de fato (e, provavelmente, um não-adepto de ideologias), analista político especializado, professor escolar, cronista, articulista ou mesmo ÂNCORA DE UM PROGRAMA DE TV VISTO PELO BRASIL EM MASSA.

Dito isto, cabem duas perguntas aos direitistas que defendem a jornalista de todo esquerdismo e incitam outras pessoas a defendê-la dizendo que Sheherazade seria, na verdade, um verdadeiro pilar da direita e do conservadorismo¹ dentro do jornalismo brasileiro: Vocês já viram ou ouviram, por algum acaso, Rachel Sheherazade se declarar "de direita" ou mesmo "conservadora"? E mais: Vocês pensaram na possibilidade de que, como boa parte do jornalismo brasileiro, Rachel, na verdade, não tenha lido boa parte da literatura direitista e conservadora e, portanto, NÃO SAIBA DIREITO o que significa ser, de fato, um direitista e conservador?

Não pensem, entretanto, que indago-lhes sobre isso por puro preciosismo. De forma alguma. O detalhe é que, quando se navega por muito tempo no Facebook, vê-se, na verdade, que o número de pessoas influentes na mídia que os direitistas dizem ser de direita mas que, na verdade, negam ou mesmo repudiam totalmente este rótulo quando indagados sobre o assunto é um tanto maior, tanto em notoriedade quanto em termos de números mesmo, do que os que o aceitam e o abraçam. Para se ter uma dimensão do problema, entre os famosos que já foram chamados de direita e negaram ou mesmo simplesmente não confirmaram esta informação, vemos gente como o mais influente sociólogo anti-Cotas no Brasil, Demétrio Magnoli - que chegou, inclusive, a dar entrevista se dizendo de esquerda -, a própria Rachel Sheherazade, o jornalista Luiz Carlos Prates (também do SBT) e os roqueiros Lobão Elétrico e Roger Moreira (ex-Ultraje a Rigor), este último, aliás, tendo dito, em hangout com Lobão e Danilo Gentili, que se alinharia ao centro se fosse forçado a escolher, para si, uma ideologia política.² Enquanto isso, entre os que confirmaram ser de direita, ao menos do que eu saiba, estão apenas os articulistas Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, bem menos conhecidos do que os outros cinco e do que deveriam.

Percebe-se, então, que, para quem diz adotar a prudência perante os fatos, essa parcela do conservadorismo facebookiano (e lembro sempre, não uso "conservador" como xingamento de forma alguma), quando da definição de seus próprios aliados políticos, não parece ser muito prudente. Isto, no entanto, é apenas a ponta do iceberg de todo o papelão da direita facebookiana. Sim, amigo leitor, o pior ainda está por vir. Vamos, então, a ele.

A direita e a "luta contra si mesmo" (Ou: A demanda injusta e totalitarista da opinião única)

Tendo explicado, então, o problema de se enquadrar um famoso ideologicamente sem consultá-lo sobre o assunto (problema este, aliás, quase insignificante perante o próximo que tratarei), falta explicar um problema que geralmente ocorre depois de a maioria dos membros do grupo ideológico que se julga privilegiado pelas opiniões do famoso enquadrado reconhecê-lo como seu representante legítimo.

Ocorre que, como já dito de diversas formas por mim, por Olavo de Carvalho e, fora deste artigo, também por Francisco Razzo, por Gustavo Nogy e pelo libertário radical Joel Pinheiro da Fonseca (contra quem só posso, até o momento, usar o fato de ele ser libertário e nada mais), o que o fanático de qualquer tipo de seita não consegue perceber é não só que existe vida fora de sua crença, mas que mesmo pessoas que compartilham com ele a mesma crença podem, sim, ter opiniões muito diferentes sobre assuntos diferentes. Um católico, por exemplo, pode ou não considerar válido o Concílio Vaticano II, dependendo, lógico, do modo como interpreta a tradição (essencial, aliás, para o entendimento do Catecismo católico como um todo) e mesmo o próprio livro sagrado. Do mesmo modo, protestantes podem divergir quanto à legitimidade de trabalhar para ter lucro³, ateus podem divergir quanto à  importância de se legalizar o Aborto ou o Casamento Gay e assim sucessivamente.

O problema é que, como também já dito aqui, Rachel Sheherazade não foi, de forma alguma, consultada previamente sobre suas crenças políticas. A única coisa que se poderia afirmar sobre ela, diga-se de passagem, é que seu pensamento é, legitimamente, um pensamento tipicamente evangélico, pois esta crença, a religiosa, era a única que ela havia assumido publicamente.

Aconteceu, então, o que era previsível. Após um comentário no Jornal do SBT sobre a sociedade "machista" e "patriarcal", Rachel se viu diante do fogo cruzado: Uns, totalmente abobalhados pela ideologia, consideraram-na "traidora da causa" (qualquer que esta fosse, pois a direita política brasileira, até hoje, também por falta de espaço midiático, não mostrou a que veio), enquanto outros, hipnotizados pelas ideias previamente espalhadas pela "musa da direita"*, sequer toleraram, em seus blogs e páginas de Facebook, as críticas que, naturalmente, surgiram contra a opinião sheherazadiana. O que se demonstrou com isso foi, justamente, o que todo analista político de direita ou mesmo mero ex-militante de esquerda já percebeu: que a direita ainda está, em termos de estratégia política, engatinhando, enquanto a esquerda, mais experiente, disso se aproveita para continuar com ridicularizações infantiloides e acusações vigaristas (conhecem a do "nazismo de direita"?**). Eis o mistério da fé direitista na superioridade de suas teorias econômicas como chave única para o sucesso garantido.

O leitor, então, poderia me perguntar: Como a direita conservadora deve resolver isso? Eu, por enquanto, não darei todo um esquema, mas apenas um conselho, pois o melhor a se fazer, nesses casos, é cada vez mais adotar justamente o princípio que esses ditos conservadores já dizem adotar: a prudência.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas também faz suas excursões, ocasionalmente, pelas bandas da Filosofia. Até pensou em virar à direita, mas foi frustrado pela (in)capacidade cognitiva de alguns de seus membros. Na briga entre as duas ideologias, aliás, torce mais e mais por uma geração apolítica.

NOVOS PODCASTS:

60º Podcast de Octavius: Eleições 2014 - A opinião de um Apolítico (Ou: Direita é a mãe!)

¹Detalhe: Não foi justamente a esquerda quem primeiro chamou Sheherazade de "reacionária" e "representante do ultra-conservadorismo brasileiro"? Falta, então, autonomia à direita de Facebook para distinguir entre quem são seus afins e quem a esquerda diz serem seus afins?

²Aliás, do que eu saiba, o próprio Danilo Gentili TAMBÉM NÃO DISSE, até hoje, se era ou não de direita.

³Sobre isso, aliás, um ótimo livro é "A ética protestante e o espírito do capitalismo", do sociólogo Max Weber, talvez o único deles, aliás, que realmente preste. Lá, o leitor poderá entender um pouco melhor o quão conflitantes eram e ainda são as visões sobre o trabalho de religiões como o Luteranismo, o Calvinismo, o Metodismo e o Anabatismo, todos, pelo menos em tese, cristãos.

*Nota: Até concordo com o "musa", mas não com o "da direita". Simplesmente não.

**No post anterior, um anônimo, muito provavelmente esquerdista, reclamou que, em seu post sobre o nazismo ser de esquerda, Luciano Ayan se esqueceu do conselho dos "historiadores sérios" de "analisar o nazismo na prática". Cabem, então, duas perguntas:
1- Desde quando somos obrigados a nos pautar no que historiadores escandalosamente progressistas (e, portanto, tendenciosos) falam para analisar a lógica do nazismo?
2- O que Marx diria sobre essa separação BIZARRA entre práxis e teoria?

15 de jan de 2014

Manifesto Jaaviano contra Olavo de Carvalho e outros arrogantes, inconsistentes, desonestos intelectuais e "fechados à diversidade da experiência humana e da realidade que nos constitui"

Caros amigos leitores, tenho um anúncio a fazer. Após ver o vídeo sobre o jornalista campinense Olavo de Carvalho feito pelo doutor em Psicologia Adriano Facioli (mais conhecido como Frank Jaava), membro da Tropa Lanterna Verde, resolvi seguir seu conselho e não mais considerar como filósofo ou como referência filosófica em qualquer assunto ou para qualquer abordagem séria de qualquer assunto os ditos filósofos que não possuírem consistência, humildade e honestidade intelectual, assim como não considerarei os que não forem, como ele disse mesmo?, "abertos para diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui".

Frank Jaava explicando ao telespectador sobre "conservadores extremos e rancorosos"
Vejamos, então, quem seria excluído desse grupo. O primeiro, sem dúvida, seria Friedrich Nietzsche, autor com importantes contribuições principalmente no que se refere ao estudo do mundo clássico (em especial grego) e da estética como um todo. Afinal, além de sua obra ser muito dispersa em termos filosóficos, que história é essa de, em Ecce Homo, escrever um capítulo intitulado Por que escrevo livros tão bons? E quanta falta de educação ele teve ao chamar Kant de imbecil em O Anticristo, não é? Fora o que fala dos cristãos em Crepúsculo dos Ídolos e Além do Bem e do Mal, um absurdo total! E mesmo que sejam artifícios de retórica e (segundo Jaava) "sofística", um homem desses jamais pode ser considerado um filósofo. Apenas "conservadores extremos e rancorosos" podem considerar um cara desses filósofo mesmo!

Já o segundo, sem dúvida, é ainda mais fraquinho e, com certeza, não deve ter contribuído muito para o estudo da retórica clássica, da estética e da moral de um ponto de vista ateu. Falo de ninguém mais do que Arthur Schopenhauer, pessimista alemão. Afinal, que história é essa de crer na teoria da conspiração de que só não entrou para a Academia na Alemanha porque a maioria (senão todos) os acadêmicos influentes da época eram partidários de Hegel, a quem Schopenhauer se opunha ferrenhamente? E esse negócio de passar metade do A arte de conhecer a si mesmo falando sobre como sua obra, por não se pautar no querer puro e simples, será eternizada? É muita falta de humildade!

Caramba, já ia até me esquecendo: E quando esse pessimista, em A arte de envelhecer, escreve que Hegel, Fichte e Schelling, seus contemporâneos, tinham sido o que de pior aconteceu para a Filosofia até então? E em A arte de escrever, então, quando ele fala que tudo o que Hegel consegue fazer são apenas floreios e mais floreios para que sua escrita pareça menos medíocre? Mas esse homem, além de não ter uma visão aberta "para a diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui", só xinga seus opositores! Como assim ele é considerado filósofo por alguém? Esses "conservadores extremos e rancorosos" só podem estar de brincadeira!

Schopenhauer: "Eu paguei net para ouvir essas porra?"
O que dizer, então, de gente como Sartre, um dos que mais contribuíram, em sua época, para a mudança de paradigma do estudo das artes em geral, que, ao apoiar o Stalinismo, mesmo que por pouco tempo e mesmo se arrependendo depois, e ao afirmar que poesia não é gênero literário para engajamento político, não percebe "a diversidade da experiência humana" e deseja apequenar o leitor ante os fatos? De Kant, que, arrogantemente, quis fazer excursões pela Biologia e pela Física mesmo sem manjar nada de nenhuma dessas áreas e depois nem teve a honestidade intelectual de reconhecer seu erro e pedir desculpas? De Foucault, que acreditava, como demonstra em A Ordem do Discurso, obra indispensável para quem quer entender como até mesmo a ciência pode se reduzir a um simples discurso em que o que vale é a vaidade dos cientistas e não a verdade, nesse conspiracionismo maluco de que cientistas podem, sim, excluir o que vá contra as suas ideias pessoais do rol das verdades científicas? De Rousseau, que, em Do Contrato Social, ao se pronunciar favorável à Pena Capital, desconsidera "a riqueza da realidade que nos constitui"?

E é isso aí! Como sou um homem que sabe reconhecer a "diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui", não posso levar a sério esse tipo de gente tão pouco humilde, tão inconsistente e tão desonesta intelectualmente!

Epa, espera... Como é esse negócio de "eles estavam tentando entender a realidade que os cercava mesmo"? Ah, deve ser só besteira dos "conservadores extremos e rancorosos."

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e caminha, mesmo que a passos tímidos, na trilha da Filosofia. Se ganhasse 1 centavo por cada vez que ouvisse a palavra diversidade empregada por psicólogos, sociólogos, antropólogos, sociolinguistas e afins, já teria feito, há pelo menos um ano, Gates e Slim parecerem pobretões.

12 de jan de 2014

Eu, Apolítico - A imbecilidade do Desarmamentismo Civil (Ou: O "filósofo" da cidade de São Paulo, o pai da Psicanálise e as estatísticas de mesa de bar)

Já há um bom tempo, venho observando e relatando, por estas bandas, as "genialidades" pronunciadas e/ou escritas pelo ilustríssimo "filósofo da cidade de São Paulo" (e isso porque outros muito mais ilustres, como Miguel Reale e Mário Ferreira dos Santos, também lá viveram e filosofaram), Paulo Ghiraldelli Jr., dentre elas a de que se deve ler um conservador sem considerá-lo conservador, ou seja, sem se atentar, justamente, às premissas filosóficas de que parte para dizer A ou B, a de que um filósofo de verdade só pode ser assim considerado se apoiar todo tipo de manifestação por mais imatura e provavelmente infrutífera que seja, e, finalmente, e talvez a maior de todas, a genialidade de dizer que todo o problema da escola pública se resume a dinheiro, e não, também, ao óbvio erro, inerente a toda e qualquer pedagogia progressista, de, ao invés de querer formar um cidadão capaz de  exercer alguma função técnica que lhe permita, então, não se tornar refém do acaso e de qualquer patrão, digamos, menos "generoso", querer que o cidadão saia da escola "crítico", ou, em linguagem de pessoas normais, desejoso de transformar a realidade e a sociedade sem nem mesmo conhecê-las (e muito menos entendê-las) a fundo.


Mário Ferreira tentando achar a "filosofia da cidade de São Paulo" de Ghiraldelli
Quando acho, porém, que a vastíssima erudição do ilustre "filósofo" chegou ao seu limite, eis que ele me surpreende e escreve um artigo sobre a questão do Desarmamento Civil, intitulado, por ele, de A arma faz xixi na mão de criança, em que coloca, dentro e fora de seu artigo, uma série de pontos interessantes para o crivo de um cético, ou pelo menos de um cético em formação, como este que vos fala. Então, como diria o grande poeta pós-moderno brasileiro Pedro Bial, "aos trabalhos". Hora de analisar a posição de Guiraldelli¹ sobre a questão das armas no Brasil.

O complexo de Freud e a deslegitimação preventiva do oponente

Antes, porém, de irmos à análise do artigo em si, cabe a mim explicar porque havia dito que há pontos interessantes a serem analisados mesmo fora do artigo de Ghiraldelli. Para isso, recorro ao já citado por estas bandas blog Ceticismo Político, cujo dono, Luciano Henrique Ayan, é, reconhecidamente, um especialista em desnudar estratégias de propaganda política, fraudes e muitas outros elementos mais que estão inseridos no contexto das disputas políticas como as conhecemos (e até como não as conhecemos).

Lá, há, no mínimo, dois posts que descrevem, com precisão, duas das táticas usadas pelo "filósofo" são-paulino paulistano não só no artigo aqui analisado como também em outros, entre eles o Onze tópicos sobre o energúmeno, em que o professor da UFRRJ (por enquanto), antes de começar, nos avisa, sobre o energúmeno, que:
Você pode encontrá-lo em vários lugares. Mas sei que se vier me ofender, é porque o encontrou no espelho.
Da mesma forma, no fim do artigo sobre desarmamento, Ghiraldelli nos alerta, com um Post Scriptum sucedido apenas por um ponto, e não por dois-pontos, como se esperaria de qualquer pessoa que dominasse as regras de pontuação do próprio idioma, que:
essa questão da posse de arma irá fazer alguns virem aqui apenas para agredir.
Eis, então, o momento para a primeira entrada de Ayan. Em um seu post do início de Abril do ano passado, o investigador de fraudes conversa com o leitor sobre a "deslegitimação do oponente de forma preventiva", técnica em que, segundo Ayan, o que se faz é "um ataque duplo, em que o primeiro ataque é baseado em rotinas para infligir dano ao outro lado, e o segundo ataque, em paralelo, para atacar e tirar a legitimidade de um possível revide.", ou seja, em que se diz, como no caso dos artigos de Ghiraldelli, que quem vier a "ofendê-lo" - o que, para Paulo, parece significar apenas expressar qualquer discordância, dada a maneira como modera, a seu bel-prazer e com um critério que, no mínimo, faz a balança pesar a seu favor sempre, os comentários dos leitores que vão contrapor o que ele diz - não o fará por causa do tom jocoso com que o "filósofo" se dirige a seus adversários (e veremos isso mais adiante), mas sim porque é "energúmeno", incivilizado, barbaresco, inculto, sem bom ensino médio, "autodidata" (o que, para Ghiraldelli, é uma ofensa pior do que o comportamento de Maria do Rosário quanto à violência, sobre o qual ele, até agora, nada disse), etc.

Pena, para o "filósofo", que todos esses xingamentos (ou não) que usa não são mais do que puras suposições sobre as vidas de seus comentaristas ou mesmo fruto de leitura mental, e que, no reino da lógica, ainda é permitido discordar de "filósofos", pois não são os títulos de alguém que definem a veracidade do que este venha a dizer, mas sim a coerência de suas ideias não só internamente como também com o mundo exterior.

Há, porém, um segundo truque a ser desmascarado antes de partirmos para o exame das ideias do "filósofo da cidade de São Paulo". Ainda no Post Scriptum sucedido de um ponto e não de dois-pontos, após começar a desqualificação preventiva de todos os que venham a discordar dele, Ghiraldelli completa:
É que quando eu ponho pingos nos “is”, os mais imaturos me veem como pai disciplinador, e ficam doidos para se comportarem como adolescentes rebeldes. O desejo de posse de arma talvez mostre um Édipo mal equacionado, pessimamente elaborado.
Aqui, então, além da desqualificação barata, vemos um típico caso do freudianismo, também relatado por Ayan, técnica esta em que as teorias do pai da Psicanálise são usadas, sem maiores provas, como argumentos para desqualificar o oponente. No caso, o que Ghiraldelli usa é a contestadíssima teoria do Complexo de Édipo para dizer não só que seus detratores não tiveram, como costuma afirmar, "o bom ensino médio", mas também que sua psique, durante a infância, foi perturbada por alguma sorte de eventos envolvendo as figuras paterna e materna. Obviamente, só falta a Ghiraldelli lembrar que, ao contrário do que pode parecer ao retoricista incauto, a psicanálise, assim como qualquer teoria científica, psicológica, sociológica, literária, filosófica e o escambau a quatro, não prescinde de comprovação, ou seja, que é necessário, para que um argumento de fundo psicanalítico valha, que ou o argumentador a prove verdadeira, ou a plateia a aceite, previamente, como verdadeira, o que, considerando o número de opositores a Dr. Freud, não parece ser o caso.

"Porra, Ghira, não força, cara" - Dr. Freud sobre os psicanalismos histriônicos ghiraldellianos
Dito isto, encerro, por aqui, a parte dos truques extra-artigo usados por Ghiraldelli. É tempo, então, de passar à análise do artigo em si.

Enlouquecendo Ghiraldelli: Contra as estatísticas, não há argumentos... Será? E onde estão as estatísticas?

Na introdução de seu artigo, Ghiraldelli, de cara, já dá seu primeiro salto metafísico:
Algumas pessoas acreditam que de posse de uma arma de fogo elas estarão seguras diante da violência urbana. O problema que elas não percebem é que possuindo uma arma de fogo elas estarão logo integradas às estatísticas de aumento da violência urbana.
Ou seja, para Ghiraldelli, o simples fato de portar uma arma de fogo levará, necessariamente, uma pessoa para as estatísticas de aumento da violência urbana. Pena, porém, que não existe como saber se uma pessoa não só quererá usá-la - para quais fins, francamente, não sei, pois o "filósofo" nada explica sobre como pessoas sem motivos fortes para usar uma arma necessariamente irão usá-la - como se realmente precisará da arma em alguma situação. Afinal, não se pode prever, com exatidão total, se quem será assaltado necessariamente portará uma arma de fogo, visto que não é possível prever quem será vítima de assalto.

Ghiraldelli, porém, cita um dado interessante já nesse primeiro parágrafo: as estatísticas. É nelas que ele, então, confia no parágrafo seguinte, quando afirma que:
As melhores estatísticas brasileiras mostram correlações que, em resumo, nos dão quatro informações: a posse da arma de fogo não aumenta a segurança do cidadão; a arma de fogo do cidadão tem um caminho fácil, que é a mão de bandido; a arma de fogo nas mãos do cidadão, tendo ele dito que sabe atirar ou não, aumenta a probabilidade dele ferir pessoas inocentes; a posse da arma de fogo envolve quem a utiliza em situações jurídicas (e outras) tão terríveis que, não raro, muitos dos que fazem uso dela acabam por se arrepender.
Primeiro, cabe perguntar: O que seriam "as melhores estatísticas"? Seriam aquelas que corroboram com o que afirma Ghiraldelli, ou aquelas levantadas por institutos com real credibilidade no assunto?

É com pesar que digo, porém, que não é Ghiraldelli que pode responder a essas perguntas, porque, infelizmente, em seu texto, ele não mostra nenhuma dessas estatísticas. Um leitor seu, então, lhe pede alguma estatística que possa usar para argumentar contra os armamentistas, mas Ghiraldelli apenas responde que "não faz artigos acadêmicos em blog"². Mas, ora, será que o ilustre "filósofo" não descobriu, até hoje, que é possível inserir links em um post das mais diversas maneiras? Caso leia este meu texto, por exemplo, poderá ver que, ao passar o mouse sobre algumas palavras ou frases (uma delas, inclusive, neste mesmo parágrafo), estas estarão destoando do restante do texto e poderão ser clicadas sobre para levá-lo a outras páginas web afora. Não é preciso, então, escrever qualquer artigo acadêmico para mostrar, ao seu leitor, estatísticas ou links externos. Ou será que, para nosso ilustre "filósofo" paulistano, essa tarefa demandaria excessivo esforço sináptico?

Enfim, deixemos que ele responda depois, pois, agora, Paulo Ghiraldelli continua, em seu texto, subestimando a capacidade de seus adversários e afirmando que:
Essas estatísticas são fáceis de entender, mas há gente que não pode entender estatística. Trata-se de uma matéria do campo matemático, uma área na qual o brasileiro médio sofre. Essa dificuldade com a matemática acoplada a um pensamento conservador, às vezes de forte tendência mágica, alimenta não só tradicionais direitistas, mas também muitos da esquerda.
Fora a citação bizarra do "pensamento mágico" - que, aliás, parece ser algo mais inerente à revolução do que à conservação, pois é aquela e não esta que acredita em mudança súbita da sociedade por meio da força - sem maiores esclarecimentos e a pressuposição de que todo armamentista é "um brasileiro médio" e que, portanto, "não entende  de matemática", Ghiraldelli, então, chega ao ponto-chave: não basta ter as estatísticas, é preciso compreender as estatísticas. O problema é que, como já dito, NÃO TEMOS, por parte de Ghiraldelli, qualquer estatística para analisar - pergunto-me se seria por medo de que a análise "filosófica" não tenha sido tão bem construída assim, mas deixemos isto para outra ocasião.

Tomo, então, a liberdade de apresentar, eu mesmo, algumas estatísticas - que, aliás, a princípio, parecem corroborar as assertivas ghiraldellianas sobre armas - extraídas de um verdadeiro dossiê da revista VEJA sobre a questão³. , podemos ver que, de fato, a maioria das armas de fogo dos cidadãos caíram na mão de bandidos... no Rio de Janeiro entre 1999 e 2005. E também podemos ver, já no início da reportagem, que, ao contrário do que pressupõe Ghiraldelli ao se fiar nas estatísticas como argumento, "As estatísticas sobre porte e uso de arma de fogo no país são consideradas incompletas e pouco confiáveis por especialistas das áreas de criminalidade e segurança pública.", havendo apenas pesquisas isoladas falando sobre o assunto e não havendo, sequer, um levantamento confiável de quantas armas existem circulando pelo país.

Isso significa que, até que o "filósofo" prove ao contrário, o que as estatísticas provam, por melhor que sejam interpretadas, é, a priori, nada. O detalhe é que, a posteriori, podemos esboçar algum tipo de interpretação para certos dados apresentados. Podemos perceber, por exemplo, que havendo armas em apenas 3,5% dos domicílios no Brasil, não há, nem de longe, como dizer que é a arma que o cidadão porta que impulsiona a criminalidade no Brasil (e dizer isto, aliás, seria de uma leviandade enorme, pois o tráfico, que financia boa parte das armas de criminosos, não teria sido posto em questão).

Do mesmo modo, não se deve interpretar a grande perda de armas dos cidadãos para bandidos tão literalmente quanto Ghiraldelli fez, posto que é preciso considerar que, ao contrário dos bandidos, o cidadão comum NÃO TEM como desenvolver propriamente as habilidades com as armas nem como manter essas habilidades polidas, já que, fora o Tiro de Guerra, que se frequenta por, no máximo, dois anos, e alguns clubes de tiro que não existem em todos os lugares do Brasil - em minha cidade, por exemplo, talvez apenas os membros de famílias mais ricas saibam da existência de algum-, não existem lugares em que se possa aprimorar as habilidades com armas. Ou seja, não é preciso realmente das estatísticas... para perceber que o cidadão comum (para não falar em "cidadão de bem", já que a turma progressista é alérgica a essa expressão mesmo quando usada englobando também o proletariado) está, no quesito treinamento, em óbvia desvantagem.

Para outros tópicos, porém, a estatística, de fato, não é necessária, como, por exemplo, no caso de sabermos que a arma de fogo, de fato, NÃO aumenta a segurança do cidadão, isto porque, estando nós em uma sociedade sob domínio de um Estado, a segurança não é algo que depende apenas da vontade e dos recursos de um indivíduo, mas sim da própria competência do Estado em usar o monopólio da violência (sobre o qual voltarei a falar mais no final do texto) para assegurar que seus cidadãos possam encostar a cabeça no travesseiro com o menor medo possível de serem assaltados e/ou mortos durante o sono.

Do mesmo modo, não é preciso de muito esforço sináptico nem de estatísticas para saber que, ao facilitarmos ao cidadão o acesso às armas, estaremos incorrendo no risco de ele ferir inocentes, pois esta é uma consequência mais do que óbvia do que acontece quando é permitido ao cidadão acessar com mais facilidade qualquer objeto que possa levar um ser humano ao óbito, mesmo que esta não seja sua função primordial. Explicando melhor e parafraseando Bene Barbosa, porta-voz do movimento armamentista Movimento Viva Brasil, se formos proibir os cidadãos de ter algo simplesmente porque este algo pode, em algum momento, levar o cidadão a ceifar vidas inocentes, teríamos de proibir, então, até mesmo os automóveis (e teríamos argumentos até melhores, visto que a imaturidade do brasileiro com automóveis é bem mais visível do que com armas, dado o número de mortes por imprudência no trânsito).


Bene Barbosa surpreso com a "filosofia" de Ghira

Também não é preciso de qualquer estatística para perceber que, fazendo ou não uso adequado das armas de fogo, o cidadão se verá envolvido em um imbróglio jurídico de proporções escatológicas, só que isto se dá não porque o problema esteja nas armas, mas sim porque a justiça brasileira, além de extremamente morosa, aparenta, nos últimos tempos, estar ficando cada vez mais bizarra, especialmente quando se vê que, em alguns casos, o literalismo jurídico manda, enquanto, em outros, o que vige é uma interpretação extremamente divergente do que a lei aparenta dizer sobre certo caso.

Vê-se, então, que, para alguém que se crê um grande intérprete não só das estatísticas como também da realidade em que elas se inserem, o "filósofo" está mais é para filodoxo do que para um filósofo propriamente dito. Mais adiante em seu texto, porém, levanta um ponto pertinente ao escrever que:
As coisas começam realmente a ficar preocupantes, especialmente para o filósofo, quando a questão da posse de arma em sociedades como a nossa se apresenta antes de tudo pelo desejo de realmente combater o crime.
Pena, porém, que a relevância não dura muito (isso sem contar o fato de a única prova de ser filósofo que Ghiraldelli deu até hoje é o título de doutor em Filosofia e algumas interpretações de Rorty e Paulo Freire), pois Ghiraldelli, então, se apoia, novamente, nas estatísticas "bem feitas":
 Quando as pesquisas são bem feitas, elas assustadoramente exibem que a segurança não é tão prioridade quanto aparece à primeira vista. O brasileiro realmente acredita que ele pode ser um agente de combate ao crime [...]
 Mas, como de costume, não apresenta qualquer uma dessas "pesquisas bem feitas" para que o seu leitor possa tirar suas próprias conclusões, o que, aliás, reforça minha tese inicial de que o que Ghiraldelli realmente quer é que concordem com as conclusões dele, apesar de se esforçar homericamente em provar o contrário.

Voltando ao texto, depois dessa ladainha sobre pesquisas, o "filósofo" paulistano tenta voltar à retórica por si própria e afirma, categoricamente, que:
O brasileiro realmente acredita que ele pode ser um agente de combate ao crime, que ele mata o bandido e pronto, está tudo resolvido, ou seja, que não haverá vingança de outros bandidos e que ele não sofrerá nada na própria justiça. 
Primeiro, sem mostrar qualquer pesquisa, como ele disse, "bem feita", não é justo pedir ao leitor que acredite no que se fala, então, sobre o brasileiro. Segundo, mesmo que Ghiraldelli esteja certo sobre o brasileiro não saber das consequências na justiça, isto se dá porque, simplesmente, o brasileiro não procura, desde cedo, o conhecimento sobre seus direitos e deveres, isto porque NÃO PRECISA deles a não ser em raríssimas ocasiões em que, se for mais afortunado, poderá ter um advogado para tratar de seu caso e, se for pobre, já entrará para o julgamento sem ilusões, mesmo tendo garantidos pela Constituição os seus direitos*. Por fim, o cidadão não pensa que haverá vingança de outros bandidos:

1- Porque o bandido, mesmo que armado, pode não ter outros aliados
2- Porque não há como prever qual bandido é membro de quadrilha ou não.

E, lógico, um cidadão que não tem treinamento constante com armas certamente será presa fácil da possível quadrilha, podendo, então, como diz Ghiraldelli posteriormente, ser colocado, junto com sua família (que, curiosamente, está toda, necessariamente, desarmada, mesmo que haja pelo menos mais um adulto na família), em um inferno. Só que, caso se facilite o acesso às armas por parte do cidadão (visto que elas já são legalizadas, apesar da terrível burocracia necessária para adquirir e manter uma em posse), deve-se, também, facilitar o treinamento deste cidadão e instruí-lo, melhor e mais extensivamente do que fez Ghiraldelli, sobre os riscos e as responsabilidades de andar armado. Porém, aí caímos em outra questão, que é a do monopólio da violência por parte do Estado. Hora, então, de cumprir minha promessa e terminar este texto.


Ghiraldelli, o energúmeno?

Voltando brevemente aos onze tópicos sobre o energúmeno, que Ghiraldelli insiste em definir como todo aquele que não sabe que suas demandas e suas ideias podem se voltar contra ele próprio**, ao responder a um leitor que, pertinentemente, colocou em questão a auto-defesa, Ghiraldelli cita, sem pensar duas vezes, a discussão weberiana sobre o "monopólio da violência" pelo Estado, monopólio este derivado, justamente, do contrato social como descrito por Hobbes e Rousseau. Ou seja, isto significa, na prática, que, pressupondo a concordância de todos sobre a necessidade de regras comuns a todos e de um Estado que garanta a aplicação dessas regras (o que, aliás, pode ser quebrado ao se ver o crescimento até notável no número de libertários, alguns até exageradamente anti-Estado), este mesmo Estado também deveria, necessariamente, ser o único grande portador de todos os meios possíveis para coibir, entre outras coisas, a violência e a criminalidade dentro do seu território.

Ocorre, porém, que, apesar de nobre em princípio, esta ideia pode levar a uma grande falha, à qual o "filósofo da cidade de São Paulo", pelo visto, não se atentou. Obviamente, por mais que se tente, é impossível que o Estado, sozinho, seja o único que tenha poder para matar ou prender todo aquele que interfira com suas políticas, e isto se dá tanto porque existe o comércio ilegal de armas, instrumentos usados para a violência, quanto porque há os criminosos, que fazem da violência suas principais armas.

Entretanto, existem alguns casos em que o que se forma ou o que se pretende obter não é um Estado Democrático de Direito, uma Monarquia Constitucional, uma República Federativa ou algum desses governos em que se privilegie a liberdade e o poder de escolha dos cidadãos sobre as suas vidas e sobre quem deve administrar os bens comuns por determinado período de tempo, mas sim um Leviatã, uma Monarquia Absoluta, uma República Nazista, um tipo de Estado em que a preocupação é, justamente, controlar o máximo possível a vida dos cidadãos (autoritarismo), quando não todos os aspectos da vida dos cidadãos, incluindo o que estes podem ou não pensar (totalitarismo).

Acontece que, quando um Estado desses se forma, considerando que não se formará sem oposição e sem o mínimo de atritos, é muito perigoso para seus líderes que os cidadãos comuns ou mesmo seus opositores tenham como se defender das arbitrariedades que virão a perpetrar quando dentro do governo. É para evitar esses riscos, então, que esses estatistas procuram o monopólio absoluto de todo e qualquer tipo de instrumento que possa servir para, justamente, deflagrar a violência não apenas contra civis, mas contra o próprio Estado.

Percebe-se, então, que também o "filósofo" deveria repensar um pouco mais toda sua certeza sobre o quão bom é o desarmamento civil e, por corolário, o monopólio da violência por parte do Estado. Afinal, se, como ele disse, um tiro de um cidadão comum "é no mínimo três tiros. Um sai pelo cano, dois pela culatra. Os do cano tiram uma vida de uma vez, os outros dois funcionam como uma longa e tenebrosa tortura capaz de destruir não só o atirador, mas sua família e tudo o mais ao seu redor.", posso dizer, então, que nenhum tiro também pode ser três tiros ou mais. Resta saber quantos desses tiros serão usados pelo crime e quantos serão usados pelo Estado.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e percorre, ainda timidamente, os caminhos da Filosofia. Se, para ser filósofo, precisar se formar e analisar o mundo como o fazem Ghiraldelli e outros acadêmicos, morrerá feliz se for para sempre chamado de polemista medíocre.

¹ Escrevo o nome do "filósofo" com "u" porque ele, por sua vez, já chegou ao cúmulo de escrever o sobrenome de José Guilherme Merquior com "ch" e com "lch", transformando o diplomata e ensaísta brasileiro (ou seja, alguém que deveria ser conhecido para um doutor em Filosofia a ponto de saber grafar seu nome sem maiores problemas), assim, em "José Guilherme MerCHior" e em "José Guilherme MeLCHior", o que deveria fazer, então, até mesmo o leitor mais fanático do "filósofo da cidade de São Paulo" colocar em dúvida as capacidades cognitivas deste. 

² Muito curiosamente, um blog também não precisaria estar condicionado do mesmo modo que um jornal impresso, plataforma na qual, por questões óbvias (leia-se: o impresso), não se pode colocar links tão acessíveis quanto na rede, mas Ghiraldelli, pelo visto, parece pensar que deve escrever como se fosse para um jornal ou revista. Ainda mais curiosamente e, desta vez, ironicamente, é justamente um dos piores escribas da imprensa brasileira, o também "filósofo" Emir Sader, que dá um bom exemplo de como, sim, se pode colocar alguma referência externa em um artigo, quando, ao fim de alguns de seus artigos na Caros Amigos, coloca, bem ou mal, livros que o leitor possa consultar sobre as questões por ele abordadas. Será que nem Emir, então, o "filósofo da cidade de São Paulo" consegue imitar?

³ A você que demerita um artigo pela fonte, só posso mandar ir para a Conchinchina, para não falar algo pior.

* Curiosamente, a escola, tão louvada por Ghiraldelli em seus artigos mais recentes, quase nunca procura inserir o estudante na discussão sobre como procurar os próprios direitos, ou mesmo traz palestrantes que saibam do assunto para discuti-lo com os alunos, mesmo que tenha poder aquisitivo para isso. Ué, mas o problema da escola não era apenas dinheiro, senhor Paulo Ghiraldelli Jr.?

** Ainda sobre este tópico, aliás, é curioso que, em resposta a outro leitor, Ghiraldelli fala que "a civilização vai pelo caminho do desarmamento", enquanto se esquece de que, como denunciado constantemente pelo jornalista britânico Pat Condell e por outros, a mesma civilização (Leia-se: Europa) também caminha para a islamização, o que, creio que Ghiraldelli saiba, não necessariamente trará apenas bons resultados, especialmente para as minorias que Ghiraldelli defende (porcamente, por sinal). E então, Dr. Paulo Ghiraldelli Jr., qual era aquela conversa sobre civilização e energúmenos mesmo?

4 de jan de 2014

Notas Mensais - Dezembro 2013 - Janeiro 2014

"Hierarquizar a cultura só prejudica"

Dando uma olhada em uma reportagem do site de extremíssima-esquerda Pragamatismo Político, digo, Pragmatismo Político, deparo-me com a famosa carta-resposta da mulher que submeteu ao crivo da Academia um projeto de mestrado sobre a "poética" de Valesca Popozuda à jornalista do SBT Rachel Sheherazade, figura talvez mais odiada do que admirada dentro do restrito círculo dos brasileiros que veem telejornal, e, ainda mais, que assistem ao telejornal do SBT.


Devo dizer que, como um dos poucos que não têm o menor medo de admitir o gosto pelo funk - e, não, você não vai me convencer do contrário, eu sei que você não manja porra nenhuma de Estética, Música ou Literatura e que provavelmente é apenas mais um moleque que descobriu o rock ontem, então nem tente -, e como alguém que não considera "Ciências Humanas" uma área a ser levada a sério no plano "científico", não vejo problema algum na existência de pesquisa sobre Popozuda, Catra, Koringa ou qualquer outro artista mais famoso no cenário brasileiro.


Explico: Queiramos ou não, gostemos ou não, quando tratamos de humanidade, não existe efeito sem causa, assim como não existe ação sem uma finalidade ou sem razão, mesmo que a razão seja a ausência de razão (um paradoxo ontológico, diga-se de passagem). Trocando em miúdos, por mais que se reprove Valesca Popozuda ou o funk em geral, é até mesmo imperativo que se investigue o porquê de esses fenômenos existirem. Afinal, Valesca e o funk carioca atual não nasceram por inspiração das Musas ou por geração espontânea, e podem existir os mais diversos motivos para que tanto a artista quanto o ritmo tenham se originado e, mais ainda, tenham chegado à proeminência. Podemos encontrar as causas desse fato na Cultura, na Sociedade, na História, na Política, na Ideologia, na Tradição Intelectual Brasileira ou até mesmo na Filosofia, assim como podemos encontrar uma explicação que articule muito bem todos esses fatores ao mesmo tempo - Apesar de que quem dá essas explicações são, geralmente, teóricos comunistas e progressistas, ou seja, gente que não tem capacidade sináptica para sequer compreender o que lhes pareça "politicamente incorreto", quanto mais para explicar com profundidade filosófica algum de seus posicionamentos.


É possível perceber, até agora, então, que o problema do projeto, definitivamente, não é CIENTÍFICO - isto, é lógico, se aceitarmos o absurdo retumbante de que tudo o que se chama "Ciências Humanas" é científico - , nem que é algo com que não se deva gastar a verba pública (sim, pois o dinheiro para este projeto está vindo do seu bolso, contribuinte). O grande problema, expresso perfeitamente pela epígrafe que coloquei e que está contida na carta da mestranda, é usar "o método científico" e o dinheiro público" para, de dentro de uma universidade pública, começar a perverter toda uma mentalidade complexa sobre hierarquização cultural sob o pretexto de que fazer juízo de valor sobre o que é alta cultura ou não é "elitismo".


Para deixar o que quero dizer aqui mais claro, transcrevo o trecho em que se encontra a frase citada na primeira linha. Segundo a mestranda:


"Dizer que produção de cultura vai do luxo ao lixo é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. Como eu disse ao G1 e digo diariamente, hierarquizar a cultura só prejudica. Essa hierarquia construída ao longo de séculos e baseada em um gosto de classe muito bem definido, no qual apenas o que elites definem o que é cultura e o que não é – ou, nas suas palavras, o que é ‘luxo’ e o que é ‘lixo’ – precisa ser COMBATIDA. Creio que a academia é SIM uma das trincheiras na luta pela desconstrução desse pensamento elitista, preconceituoso e, para não ser maldosa, desonesto."


Vejam, agora, qual é o problema da argumentação e qual é o perigo desse projeto. Segundo a fã de Valesca, "dizer que a produção de cultura vai do luxo ao lixo é de uma desonestidade intelectual sem tamanho". O problema é que, apesar de ser uma bela frase de efeito, isto, a priori, não quer dizer rigorosamente nada, visto que são necessárias provas de que essa hierarquização é intelectualmente desonesta.


Pena, porém, que o que nossa Michel Foucault do século XXI e de "terra brasilis" (e "fluminensis") oferece como prova sejam, primeiro, uma opinião pessoal sua ("como eu disse ao G1", como se uma afirmação pessoal fosse importante ou relevante para a discussão dessa questão), e, segundo, um raciocínio completamente torto baseado na Teoria de Luta de Classes de Karlnalha Marx, teoria esta que, por sua vez, também carece de maiores provas, já que não considera aquilo que realmente forma uma classe: os indivíduos que nela são agrupados, cada qual com seus desejos, anseios e capacidades, o que torna impossível, na verdade, uma real "consciência de classe". 


Ou seja, basicamente, a apreciadora do funk valesquiano alicerça sua afirmação na irrelevância de suas próprias concepções, que não fundamenta dignamente, e em uma gigantesca petição de princípio derivada de uma teoria que, por sua vez, também deriva de outra gigantesca petição de princípio (alguém já conseguiu provas "científicas" do materialismo histórico-dialético?). 


Apesar disso, se fosse esse todo o problema, seria apenas o caso de acontecer como aconteceu: a mulher foi achincalhada por um tempo e jogada ao limbo depois. O problema é que, na verdade, esta é só a parte argumentativa da questão, e não a parte de fato perigosa. O caso é que real complicação aparece quando a mestranda demonstra seu verdadeiro objetivo: Usar a Academia, ou seja, as instituições financiadas com dinheiro público para projetos voltados AO PÚBLICO, para "desconstruir" crenças que, na verdade, formaram não só a sociedade ocidental cristã como também suas antecessoras, as sociedades grega e romana. 


E é com essas três sociedades como exemplo, na verdade, que podemos ver a falha fundamental no pensamento que visa a "desconstruir esse elitismo": Para esse tipo de gente, o atual feminismo, uma ideologia hoje DESTRUTIVA e discriminatória, teria de ter o mesmo valor, por exemplo, da filosofia artistótelica, base construtora de praticamente todas as ponderações éticas, metafísicas, culturais, políticas e estéticas que nos afetam até hoje. Segundo os desconstrucionistas, também, precisaríamos nos acostumar com a ideia de que a preciosíssima escrita virgiliana, como em Eneida, não tem, objetivamente, qualquer traço superior quando comparada, por exemplo, à poética de Mc Federado. Do mesmo modo, gênios da literatura mundial como Shakespeare, Baudelaire, Mallarmé, Poe, Kurt Vonnegut, George Orwell, Cruz e Sousa, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Gil Vicente, Eça de Queirós e Saramago, que sequer podem ser igualados entre si - e é só comparar o teatro machadiano com o teatro shakespeareano para se ter um exemplo CLARÍSSIMO disso -, teriam obrigatoriamente, de ser tão valorizados quanto o sertanejo universitário ou mesmo o próprio funk.


E isto, também, porque apenas peguei como comparativos pessoas que, em sua grande maioria (sendo as exceções, talvez, Orwell e Saramago), ou contribuíram para a formação histórica das sociedades em que viveram, ou não a atrapalharam. Se fôssemos tomar, então, os que se opuseram ao modelo cristão de pensamento, as comparações seriam ainda mais bizarras: Como igualar toda a complexidade ateia e anti-hegeliana do pensamento schopenhaueriano com a bizarrice ressentida de Foucault? Como dar o mesmo valor à obra filosófica de um Nietzsche e à filosofia de autoajuda para minorias de Paulo Ghiraldelli Jr.? Ou, ainda mais bizarramente, como não reconhecer que, apesar do mérito de escrever uma vasta obra sobre Spinoza, Marilena Chauí, no auge de sua filosofia, não chegaria a um vigésimo do mais ralo escrito spinoziano?


Enfim, é isto que a mestranda funkeira deixa de lembrar: Mesmo que se creia com fervorosidade no paradigma desconstrucionista, não existem evidências suficientes de que ele, ao igualar romanos e funkeiros, gregos e sertanejos, franceses e pagodeiros, não trará, na verdade, vários danos à sociedade, que não verá mais valor no que realmente importa e no que demandou esforço sináptico de mais do que dois neurônios para ser escrito/construído/arquitetado/sistematizado. 


Não nego, portanto, que o funk valesquiano, assim como o funk em geral, se tenha tornado um elemento da cultura brasileira. Afinal, em primeira instância, a cultura é o que somos. O detalhe é que a alta cultura, nesse sentido, deve sempre ser aquilo a que aspiramos, o que significa que, ao se banir a alta cultura, bane-se, também, qualquer referencial maior do qual um artista pode partir para produzir sua obra e torná-la um aspecto cultural, o que, com o tempo, elimina a produção cultural e, com isso, inicia o sucumbir das sociedades.

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"Ad homines"

A página de extremíssima-extrema esquerda "Meu professor de História" contra-ataca. Desta vez, ficaram impressionados com como Olavo de Carvalho teve a "ousadia" e a "petulância" de ir comentar em sua page medíocre, mesmo após postarem, por meses a fio, puros espantalhos do pensamento olaviano e ousarem dizer que links que o "refutam" são duas críticas MISERÁVEIS de gente como Bertone e Altman, pessoas que sequer conhecem o significado de "fascista" e "extremista", mas o usam alicerçados em como um discurso pode tornar as pessoas violentas - esta, aliás, uma das piores aberrações metafísicas inventadas pela "Análise Crítica (ui!) do Discurso".

Bom, costumo ser professor apenas para os meus alunos, mas, neste caso, devo abrir uma exceção. Vamos lá, então:

Caros esquerdistas úteis, um dos pilares da liberdade de expressão é justamente que, caso você difame alguém, este alguém possa comentar em sua publicação ou sobre sua publicação também livremente e desconstruir todo o seu discurso, além de, se for o caso, mover, contra você, uma ação judicial por danos morais (não recomendo este último, acho francamente um tiro no pé). Vocês, no entanto, parecem não conhecer isto, pois apenas querem distorcer o pensamento de um homem pacífico, que expressa opiniões não-violentas (e não, ser contra o Aborto ou contra o casamento gay não é "uma violência", queridos analfabetos), e querem que ele nunca revide, mesmo que com um único comentário de Facebook em que apenas expressa o descontentamento com como seu discurso é deturpado por inimigos e por amigos.

Existe, também, o fator "refutar": Como se refuta o pensamento de alguém com apenas dois ou três links de jornalistas que, obviamente, nunca sequer leram qualquer livro em que o pensamento olaviano estivesse melhor articulado e explicado e, por isso, reduziram-no ao velho grito esquerdista de "fascismo! nazismo!"? Será que algum dos dois ineptos chegou a pegar em mãos para ler mesmo "O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota", livro que sequer é considerado um dos mais completos de Olavo, antes de fazerem seus artigos, digo, suas defecações digitais? (Nota: O mesmo vale para pessoas que "refutaram Marx" sem nunca o terem lido ou que consideram Nietzsche "inteligível por qualquer um alfabetizado" e defendem essa ideia porque seus colegas da faculdade de Filosofia eram neo-ateus e louvavam o pensamento do bigodudo alemão mais do que um católico-trad diz que louva ao seu deus. Enfim, de qualquer maneira, não se refuta pensamento de um autor tomando por bases seus seguidores, nem com links de analfabetos que se julgam seus algozes, mas que sequer leram atentamente qualquer de suas obras).

Por fim, os ainda engambelados pela conversinha barata do comunista professor de História do MEC (a página supracitada, aliás, deveria se chamar "Meu professor de História ainda mente pra mim", já que querem fazer uma referência podre ao "Meu professor de História mentiu pra mim") reclamam de como "uma horda de olavetes" veio com "ad homines" (Safatle curtiu esse nível de alfabetização) contra eles após o comentário de Olavo de Carvalho. Mas, ora, não é isso mesmo que acontece quando alguém que se oponha aos delírios interpretativos dessa página faz um comentário? Ou vão negar que uma horda de babacas progressistas, a cada comentário feito por alguém que ELES JULGAVAM "de extrema-direita" apareciam para tentar calá-lo com ridicularizações baratas?

Mas, enfim, o que mais esperar de Sua Esquerdindecência Maior, digo, dessa página de neocomunistas? rsrsrsrsrs


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 Por que não sou de direita?
Tenho uma revelação a fazer: Ao contrário do que parece, eu NÃO sou de direita. Já fui "acusado desse crime", aliás, muitas vezes (um semi-famoso vlogueiro japa, inclusive, ao comentar um post meu, chama-me de "extrema-direita"), mas, felizmente, nesse caso só posso ser julgado inocente com todas as provas em meu favor.

Primeiro de tudo, para que eu fosse de direita, meu pensamento teria, necessariamente, de estar livre de todo e qualquer traço do meu anterior comunismo. Nessa matéria, entretanto, sou réu confesso: Ainda não consegui me livrar totalmente de algumas ideias que defendia enquanto marxista. Não vejo grandes problemas, por exemplo, na EXISTÊNCIA de educação e saúde públicas nem de alguns programas sociais esporádicos, muito menos em que o Estado não seja TÃO mínimo, desde que seja eficiente, o que, para a direita, não é admissível.

Do mesmo modo, quase todos os meus posicionamentos quanto a temas polêmicos não mudaram desde a época de marxista. Continuo favorável à legalização do Aborto, favorável à legalização da Eutanásia, favorável à Pena de Morte, contrário à Prisão Perpétua, favorável ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e à adoção de crianças por casais gays e contrário ao ambientalismo. Muito curiosamente, o meu único posicionamento a mudar nesse ínterim ficou, justamente, mais à esquerda: Passei, depois de deixar de ser marxista, a ser favorável às Cotas Raciais em universidades públicas, por motivos que ainda explicarei.

O que realmente mudou, entretanto, foi meu posicionamento sobre como esses assuntos devem ser discutidos. Apesar de nunca ter sido partidário da existência de tabus (a não ser no que se refere à sexualidade, que, DEFINITIVAMENTE, não deve ser discutida com crianças, mas não deve MESMO), eu, enquanto esquerdista e progressista convicto, agia, sempre que confrontado com o lado oposto (mais conservador ou mesmo simplesmente menos extremista), como se a mera existência da oposição fosse, contra mim, uma violência inominável, pior do que qualquer genocídio staliniano. Agora, após tentar enxergar o (na época) outro lado, consegui não só tolerar o que se opõe ao meu ponto de vista como também me preocupar quando essa oposição é calada, pois sei que existem boas (ótimas, aliás) razões para que alguém se oponha, por exemplo, à legalização do Aborto ou do casamento gay, ou a qualquer outro dos posicionamentos que listei acima. Afinal, percebi que, realmente, não se trata apenas de debates facebookianos infrutíferos. Trata-se, também, de perceber que certas mudanças não trazem consigo apenas felicidade e justiça, mas também uma nova configuração social para a qual, provavelmente, não estamos preparados.

O que percebi, então, é que, em certos assuntos, o melhor é a prudência, é a investigação séria antes do palpite (apesar de eu ainda ser um "filodoxo" assumido), e não a imposição de certo ponto de vista apenas porque "o mundo muda, então devemos mudar também". Isto, entretanto, não me faz de direita ou conservador, me faz apenas PRUDENTE, também porque o grosso dos meus posicionamentos políticos, como se vê, NÃO É CONSERVADOR NEM DE DIREITA, o que torna, por lógica, impossível eu ser conservador ou de direita.

Por fim, por mais que não se resuma a isso, para se definir como de esquerda ou de direita, é necessário ter uma postura também quanto a como a Economia deve ser regida. Não tenho. Quando critico a socialdemocracia (uma gigante "bomba-relógio") ou o próprio "socialismo real" (um nome "simpático" para comunismo), o faço porque são sistemas que NÃO DERAM CERTO, e não por ser um partidário do livre-mercado (nem sou, pois não sei se é a solução também), nem por profundos conhecimentos sobre Economia.

Digo, aliás, que existem ainda pelo menos três tipos de linguagem que, para mim, equivalem ao grego: Biologuês, economês e juridiquês. Há, entretanto, uma diferença entre a linguagem jurídica e as outras duas: Pretendo desvendá-la. Quem quiser me chamar de "extrema-direita" depois desta confissão, então, só pode ser duas coisas: burro ou desonesto.
 
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Atlético-MG, o maior dos medianos

Apesar de tudo o que se falou e ainda se fala sobre a humilhante derrota do Atlético Mineiro (CAM) no Mundial, existe, ainda, um ponto que, pelo visto, não ficou suficientemente claro. Admiradores e torcedores ou não do Atlético, precisamos entender isto de uma vez: o Atlético Mineiro NÃO É uma grande equipe.

Por que falo isso? Muito simples. Não vou cair na falácia de que o que faz uma equipe grande são títulos, pois, de fato, não é o caso. O Corinthians, mesmo antes de ganhar a Libertadores e o Mundial, era uma grande equipe. O mesmo vale para, em casos mais recentes, Internacional (pré-2006, lógico), Palmeiras e Vasco, equipes que, por seu histórico no Brasil, também demoraram muito para ganhar um título internacional de real expressão (não conto o São Paulo porque as circunstâncias em que disputou a Libertadores eram bem diferentes).

Isto não significa, porém, que títulos de expressão não sejam um INDÍCIO válido de que uma equipe seja grande. Afinal, mesmo em tempos de crise, não existe como questionar a grandeza de times como Palmeiras (8 Brasileirões, 1 Libertadores, 1 vice-Mundial), Santos (8 Brasileirões, 3 Libertadores e 2 Mundiais), São Paulo (6-3-3) ou Flamengo (6 Brasileirões, 1 Libertadores, 1 Mundial, 3 Copas do Brasil), cujos títulos, sem dúvida nenhuma, representam muito bem a expressividade desses times na história do Brasil, seja em número de torcedores, seja em qualidade de futebol normalmente jogado.

Algum torcedor atleticano, então, poderia objetar que a torcida atleticana é expressiva e que o futebol normalmente jogado pelo "Galo" é de grande qualidade. Pena, porém, que isto não corresponda ao real. Quanto à torcida, esta só é grande em Minas realmente, enquanto a de outros times, como Flamengo, Vasco e Corinthians, também se faz presente em número relativamente alto em quase todos os Estados da federação. Quanto ao futebol, então, nem se fala. Afinal, fora Reinaldo (que, se bem me lembro, era dos anos 1970) e Bernard (este mais recente), quantos grandes ídolos há no Atlético-MG? (e falo aqui, lógico, de homens de seleção, não apenas de ídolos locais)

Até mesmo o próprio Corinthians, que NÃO TEM tantos ídolos de grande qualidade (e ainda assim consegue ser putaqueopariumente foda em quase tudo que disputa), ganha dos patéticos de Minas neste critério, pois temos, entre outros, Sócrates, Casagrande, Neto, Ronaldo (Goleiro), Marcelinho Carioca, Edílson e Luisão, todos jogadores de nível de seleção brasileira em suas eras. O Flamengo, então, nem se fala: Zico, Romário, Edmundo, Andrade, Adriano (mais recente). E a lista continuaria interminavelmente se fôssemos comparar o Atlético com times como Palmeiras (apesar de Marcos e Ademir da Guia, em minha opinião, já serem comparação mais do que suficiente), Vasco (Romário, Dinamite, Edmundo, J. Pernambucano, etc), Santos (Pelé e Neymar, I rest my case e não desço a minudências) e até mesmo o próprio Cruzeiro (Tostão, Sorín, Alex, entre outros).

Ainda assim, mesmo estes dois dados extras não seriam suficientes para rotular o Atlético como o que é, ou seja, como um time médio com dinheiro em caixa. O que decide esta comparação, realmente, é que, ao contrário de Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Flamengo, Vasco, Cruzeiro, Internacional, Grêmio e até mesmo Fluminense (que também é apenas outro time médio com cash de sobra), o Atlético-MG NÃO TEM O HÁBITO DE DISPUTAR TÍTULOS EXPRESSIVOS, e isto se prova com uma simples retrospectiva: De 1999 até o início de 2012, quantos grandes títulos desse tipo o Patético efetivamente disputou a ponto de chegar a uma final? Nenhum, certo? E mesmo na era de Reinaldo, em que, reza a lenda, o Atlético era forte, quantos títulos foram ganhos ou mesmo disputados até o mais amargo fim? Poucos demais para um grande time, não?

Então, fica evidente que, por mais que eu o deteste, só existe um grande time em Minas Gerais, e este é o Cruzeiro, que, apesar de 2011 e 2012, conseguiu, nos últimos 15 anos, não só disputar todo ano como ganhar, em algumas ocasiões, títulos expressivos, o que seu rival só fez graças a patrocínios vultuosos a partir, justamente, de 2012, o ano-ápice do quase-crepúsculo de seu rival.


Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, ocasionalmente, dá uma revisada na Filosofia. Até seria de Direita se não tivesse, necessariamente, que estar do mesmo lado de gente que vê o Marxismo Cultural até embaixo da cama, ou mesmo na própria cama.

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