29 de set de 2013

Para que serve a filosofia de Paulo Ghiraldelli Jr.?

Olá, amigos leitores, e vamos a mais um de meus, suponho, esperados artigos.

Desta vez, falarei sobre o autodeclarado e formado filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., cujas falácias acerca da "Primavera Brasileira" já desmontei em ocasião anterior e cujas ideias são tão coerentes que, ao mesmo tempo em que defende Cotas Raciais, supervaloriza o vestibular ao usá-lo como principal argumento contra a existência intelectual de Olavo de Carvalho, que, segundo Ghiraldelli, não passou no vestibular - como se isso fizesse ou devesse fazer qualquer diferença para quem defende as Cotas - no hall dos maiores filósofos e jornalistas brasileiros e latinoamericanos de todos os tempos.

Paulo Ghiraldelli fazendo cara de coerência (sqn) (1)
Não venho aqui, entretanto, discutir seus argumentos sobre Cotas (algo que também defendo, chorem amigos direitistas conservadores e liberais, mas outro dia explico e debato isso) ou sua implicância, que desconfio ser provinda de uma frustração amorosa platônica, contra Olavo, mas sim um de seus últimos artigos no portal iG. Desta vez, Ghiraldelli, em um tom entre o canastronismo e a desonestidade intelectual, indaga-se: "Para que serve um filósofo conservador?". Hora, então, de dar àquilo que se convencionou chamar de artigo talvez a única resposta sensata possível.

O homem que conservava (ou não)

Ao começar seu artigo, Ghiraldelli afirma que 

Só uma girafa com neurônios avariados diria que não vale a pena tentar mudar o mundo. Não precisamos ir onde Judas perdeu as botas para ficarmos insatisfeitos com o que alguns ainda chamam de “status quo vigente".

Vemos, então, que define um conservador como aquele que defende não valer a pena "mudar o mundo" (o que quer que isto signifique) nem se indispor contra o status quo. Ocorre, porém, que, para azar de Ghiraldelli, há outras pessoas, conservadoras ou não, também formadas em Filosofia ou em outra área das chamadas Ciências Humanas que adotam uma definição, digamos, muito menos simplista e mais coerente - ah, esse problema para a filosofia ghiraldelliana - do que a apresentada pelo professor da UFRRJ. Um desses é Francisco Razzo, filósofo, professor e articulista do blog Ad Hominem, que, em artigo sobre o tema, define os termos "conservador" e "conservadorismo" da seguinte maneira:

um conservador nada mais é do que aquele que pensa a partir da relação plural e histórica entre seres humanos vivos e mortos e com memórias acumuladas num feixe de crenças das quais são suas e partilhadas por outros de sua comunidade. Isto é, caracteriza-se por aquele que nunca pensa a partir de si mesmo e de uma suposta autossuficiência, nem da autossuficiência do coletivo. 

E continua:

A memória, segundo a mentalidade conservadora, é depósito de experiência reais. Portanto, o conservadorismo não tem, em um primeiro momento, nada a ver com ideologias políticas. E, em última instância, limita-se a uma atitude prudente a respeito da relação entre finitude humana e memória histórica. 

Assim sendo, segundo esta definição, conservadorismo nada tem a ver com "não querer mudar o mundo" ou "ficar insatisfeito com o status quo" - lembrando que este, o status quo, tem uma definição tão plástica que, se for critério para chamar alguém de conservador, transformará automaticamente todos em conservadores de alguma forma -, mas sim de levar as experiências humanas passadas em consideração e agir com cautela diante de mudanças políticas ou sociais radicais demandadas por setores da população ou mesmo forçadas pelas circunstâncias. Vemos então que o que Ghiraldelli fez foi bem mais distorcer do que apresentar uma definição coerente da qual se possa partir para uma discussão honesta. 

Ainda assim, essa foi apenas a ponta do iceberg, já que, em seguida, o filósofo de São Paulo infere que, por uma série de fatores estarem atrapalhando o bom andar do "sistema" brasileiro, qualquer defesa ao status quo seria, antes de tudo, um erro filosófico. O detalhe é que, ao contrário do que Ghiraldelli finge pensar, não é porque um sistema apresenta falhas pontuais e reversíveis que deve ser mudado. Aliás, pelo contrário: é justamente a não-total ineficiência do sistema que mantém a população pelo menos parcialmente imunes a crápulas que, aplicando lógica parecida com a de Paulo, mudaram tudo do ruim para o péssimo - e ceifaram milhões de vidas no processo, o que torna a coisa toda ainda mais bestial. O que deve ser feito (ou, pelo menos, o que a prudência aconselhar a fazer) , então,  não é derrubar totalmente o sistema ou desmantelá-lo por meio da cultura, como vem tentando fazer a maior parte dos revolucionários, mas sim consertar essas falhas, o que, de fato, não vai contra qualquer princípio conservador.

O mais interessante do texto de Paulo, porém, ainda está por vir.

Recuperando neurônios

"Você interrompeu o Memórias Postumas... para isso?"
Depois de toda porca reflexão sobre a linha conservadora de pensamento e de negar ser uma girafa com os neurônios avariados - o que, aliás, é verdade: uma girafa com neurônios avariados, em comparação a Ghiraldelli, é quase um Machado de Assis quando se trata de cultura e quase uma filósofa clássica quando se trata de coerência -, o Sartre tupiniquim resolve botar as garras de fora e partir para a definição da figura do filósofo conservador. Segundo ele:

Não consigo sair por aí gritando “eis aqui eu, um filósofo conservador, eu não quero mudar nada porque tudo vai bem”. É claro que não vou fazer isso. No entanto, sei muito bem que há quem seja conservador e filósofo. Sei também que uma figura desse tipo não diz encontrar a tal girafa no espelho. Ao contrário, não raro os conservadores se descrevem como “corajosos”, “inteligentes” e, mais recentemente, “democratas”.

E prossegue:

Não raro, um filósofo conservador é bastante verborrágico. Ele tem uma necessidade de estar em todo lugar, fazendo propaganda de seus ideais políticos, mesmo quando diz não gostar de política e de não querer conversar de política. Ele sabe também que entre os não conservadores há os que são profissionais da mudança do mundo, e estes se levam muito a sério. Não é difícil tais profissionais se acreditarem predestinados, com uma missão na Terra. Desse modo, o filósofo conservador não poupa seu discurso de frases de efeito, exageros retóricos e farpas que realmente atingem os mudancistas ou melhoristas ou reformistas ou progressistas ou revolucionários. Ora, essa é a parte pior do conservador, e pode realmente ser deixada de lado, até porque é aquilo que se repete e logo se torna entediante.

E aqui é ápice do curioso, amigo leitor, pois, quando se lê os textos de Ghiraldelli, percebe-se nele e em outros progressistas da mesma laia - ou seja,  "intelectuais" que fingem, por alguma razão que não convém discutir aqui, ter deixado a esquerda para poderem desferir críticas à direita sem qualquer peso na consciência, como se o tivessem antes de deixarem a esquerda - nada mais do que AS MESMAS CARACTERÍSTICAS do "filósofo conservador". O filósofo de São Paulo, inclusive, é mestre nisso, o que se constata depois de algum tempo lendo (e perdendo neurônios com) seus textos. 

Aliás, minto: no caso de Ghiraldelli, não é apenas uma parte, mas a integralidade de sua filosofia que pode ser deixada de lado. Esta característica, do que eu saiba, não aparece em qualquer filósofo conservador.

"D boas aki observamd vse m compara a Pomba Giradelis Jr."
O ponto do texto de Ghiraldelli, porém, ainda não foi alcançado. Afinal, para que serve um filósofo conservador?

                     Afinal, para que serve a filosofia... de Paulo Ghiraldelli Jr.?

Ao cabo de seu texto, Ghiraldelli finalmente resolve responder à pergunta de seu título:

Penso que há boas razões para ler um filósofo conservador sem dar muita bola para o que ele fala segundo gostos políticos, e assim ficar mais livre para averiguar o que diz no âmbito propriamente filosófico. Em outras palavras: um filósofo conservador vale ser lido antes como filósofo que como conservador.

Não entendeu, caro leitor? Pois então vamos explicar.

Apesar de o homem ser um animal político (mas não ideológico, frise-se) e, sendo o filósofo um homem, este também não poder ser materializado sem, pelo menos, a mínima ideia de quais sejam as suas concepções políticas, temos, segundo o filósofo de São Paulo, que olhar para o filósofo conservador sem considerá-lo conservador! O detalhe é que, por mais que Ghiraldelli teime, dificilmente se compreenderá  as considerações nietzschenianas sobre o mundo, por exemplo, sem se levar em conta sua preferência pelo mundo da estética do que pelo da política. O mesmo vale para o conceito de liberdade central para a filosofia existencialista de Sartre, que, depois, se tornaria, por algum tempo, um stalinista convicto, rebatido pelo também filósofo, mas absurdista e extremamente politizado, Albert Camus. Como fazer isso, então, com um filósofo conservador?

Isto não significa, é lógico, que devemos anular categoricamente todas as contribuições filosóficas de determinado pensador por seus equívocos em matéria de política, porque, se o fizéssemos - e aqui me utilizo de um exemplo dado pelo já citado Razzo em seu genial artigo A arte da difamação e a grandeza da filosofia, cuja leitura recomendo -, acabaríamos jogando no lixo, por exemplo, as indispensáveis considerações metafísicas de Martin Heidegger simplesmente por este ter, por um período relativamente longo de sua vida, apoiado o Nazismo, a segunda doutrina política com maior número de mortes em sua conta.

O problema é que, no caso do conservadorismo e do filósofo conservador, "não dar muita bola para os gostos políticos" é, sim, o mesmo que anular essa filosofia, pois é justamente em torno de suas ponderações sobre filosofia política que o conservador construirá sua visão sobre outras áreas da Filosofia como a Ética, a Estética, a Antropologia Filosófica, entre outras.

Podemos perceber, então, que, no fundo e no raso, a utilidade da filosofia de Paulo Ghiraldelli Jr., lastimavelmente, é apenas incentivar o olhar superficial e incompleto sobre as filosofias com as quais não concorda. Pelo visto, esquece-se de que ele próprio disse, em sua entrevista para o Provocações, de Antônio Abujamra, que filosofar é, em essência, provocar. Não creio, no entanto, que, em tempos de progressismo quase ditatorialmente imposto, o conservadorismo não sõe como uma deliciosa provocação. Pelo menos a mim, um não-conservador declarado, soa, e quero me deixar provocar enquanto tiver esta liberdade.

Notas:

(1) Agradeço ao amigo Pérsio Menezes, do peublogg, por seu post, do qual tirei a inspiração para a legenda, sobre um texto de Emir Sader.

Referências Bibliográficas:

GHIRALDELLI JR., P. Para que serve um filósofo conservador? Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-09-28/para-que-serve-um-filosofo-conservador.html>. Acesso em: 29 set. 2013. 

MENEZES, P. Escreve como pensa: Análise 001 - Emir Sader. Disponível em: <http://peublogg.blogspot.com.br/2012/12/forca-e-fraqueza-do-partido-da-midia.html>. Acesso em: 29 set. 2013.

RAZZO, F.A. A arte da difamação e a grandeza da filosofia. Disponível em: <http://www.adhominem.com.br/2013/08/a-arte-da-difamacao-e-grandeza-da.html>. Acesso em: 29 set. 2013. 


RAZZO, F.A. Explicando para os meus netos o que significa ser um conservador. Disponível em: <http://www.adhominem.com.br/2013/08/explicando-para-os-meus-netos-o-que.html>. Acesso em: 29 set. 2013. 

4 comentários:

  1. O cara foi sensato apenas uma vez, quando disse que “só existem dois tipos de marxistas: aqueles que nunca leram Marx e aqueles que só leram Marx“

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  2. Quando o senhor vai me desbloquear? Espero que esteja bem! Abraço! E viva Adam Smith!

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    1. Quando porcos criarem asas, senhor Lucas Pierre Domingos. Ademais, nada disse sobre o texto, rs.

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    2. Não seja grosso! Mudei! Não apoio mais ditaduras, nem sou grotesco. Tampouco estou naquele espaço falso chamado Duelos Retóricos, rs.

      Sobre o texto: o Paulo Ghiraldelli não faz espécie alguma de filosofia. O que ele gosta mesmo é de viver brigando feito um velho coroca com o Olavo de Carvalho, outro babaca pseudo-filósofo, queimador de filme da Direita e que acredita em Nova Ordem Mundial, "ditadura petralha", entre outras coisas.


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