13 de set de 2013

Falácias - Apelo à Autoridade

Olá, amigos leitores, e este é mais um dos meus posts sobre falácias, que, como já defini quando falei da primeira delas em 15/06, são "[...]todo tipo de argumento enganoso, o típico argumento que, para uma visão menos atenta e apenas estrutural, parece estar correto, mas que tem alguma falha lógica ou semântica em sua constituição ou em sua conclusão." (SANTOS, O.H.C., 2013).

Ao contrário das outras vezes, porém, falarei sobre a falácia do título não por si mesma, mas como uma forma de adiantar um post que em breve farei sobre Educação e que já foi prometido ao meu leitor e ouvinte em um de meus podcasts.

Vamos, então, aos trabalhos. O argumentum ad verecundiam (em português: Falácia do Apelo à Autoridade) consiste em afirmar que um argumento está certo porque seu autor é X, formado em Y, mestrado em Z e doutorado em ABCDEFGH..., ou, simplesmente, é dizer que o argumento está certo não pela sua lógica, mas pela credibilidade do autor que o apresentou.

Para facilitar um pouco, vejamos como esta falácia se formula:

FALÁCIA I: "Ora, mas como assim você não acredita na hipótese antropogênica para o aquecimento global? Quer desafiar a inteligência do Al Gore, seu leigo?"

Vamos, então, à análise desta afirmação. Primeiro, para situá-los, a hipótese antropogênica para o aquecimento global é aquela que defende não só a existência do aquecimento global, como a culpa dos seres humanos por seu rápido desenvolvimento. Como qualquer hipótese, há os que a defendam com unhas e dentes, há os agnósticos (ou seja, os que não estão certos de que esta esteja certa) e os céticos (aqueles que delas desconfiam).

O detalhe é que, independente de qual seja a minha posição ou a de meu leitor sobre o antropogenismo, não acho que seja difícil perceber que existe uma diferença muito clara entre falar "Eu sou um defensor da hipótese porque as evidências que conheço me levaram a isso" e afirmar "O pensador Al Gore, ecologista renomado, defende esta hipótese, logo ela está certa".

Entendem, amigos leitores? Citar autores afamados para corroborar com suas ideias não só não é proibido, como, na maior parte das vezes, é necessário e até obrigatório. Agora, daí a divinizá-los e transformá-los, ao invés de suas linhas de raciocínios, em provas cabais para um assunto, é um salto de fé e um erro lógico inadmissíveis em qualquer debate e em qualquer autor de qualidade.

Há, porém, um caso mais sutil, que é o apelo à autoridade anônima, ou seja, é quando a autoridade não é enunciada. Um exemplo clássico é:

FALÁCIA II: "A ciência linguística já provou que não existem línguas simples ou complexas, mas sim línguas diferentes, logo o mesmo vale para variantes linguísticas e, portanto, é inadmissível dizer que tal fala é 'inadequada'". (destaque meu)

Não entrando aqui no mérito de se o autor da frase está com a razão ou não quando a questão é língua, vamos nos atentar ao ponto destacado. O autor, ao invés de demonstrar porque não há línguas melhores do que outras e mostrar de que premissas se partiu para se chegar a essa conclusão, prefere simplesmente apelar para a entidade "ciência", tida por muitos como incontestável mas composta, ao contrário do que se pensa, por várias linhas diferentes de pesquisa.

Só para ficar na Linguística, temos pelo menos três grandes vertentes que, cada uma a seu modo, definem objetos como "língua", "linguagem", "fala", "texto", entre outros. Temos o Estruturalismo, fundado por Ferdinand de Saussure, o chamado pai da linguística moderna; o Gerativismo, capitaneado pelo sofista político e linguista respeitável Noam Chomsky; e a Sociolinguística, uma resposta ao Gerativismo fundamentada principalmente nos escritos de William Labov.

O mais importante, porém, são as seguintes perguntas: Qual dessas vertentes "provou" que não há línguas melhores do que outras? De que premissas partiu? Como isso ficou provado? Qual foi o método adotado para fazer as pesquisas necessárias para isso? Nenhuma das outras vertentes, ou mesmo nenhum dos outros cientistas da própria vertente, contestaram essa ideia? Essa hipótese é falseável? Essa hipótese vem sendo contestada, e os contestadores vêm sendo ouvidos e respeitados?

Essas e muitas outras, entretanto, são perguntas desconsideradas quando se afirma, com tanto dogmatismo (algo, aliás, pelo menos em tese, anticientífico), que "a ciência", seja ela qual for, "provou X, logo fim de papo". Isso, ao contrário do que muitos dizem, não é argumento, é apelo à autoridade, logo falácia ou método barato de propaganda. Argumentação, nesse caso, seria a apresentação das evidências e dos raciocínios que levaram algum cientista a concluir X, e não Y. Fora disso, só há falsos argumentos.

Mas, enfim, para terminar, vamos a mais alguns exemplos:

FALÁCIA III: "Como assim não existe marxismo cultural? Ora, mas Olavo falou que..." (Gosto muito dos artigos de Olavo de Carvalho, mas não é porque ele falou algo que isso está necessariamente certo. O próprio, aliás, sempre preza por mostrar evidências muitas vezes mais do que suficientes para o que fala. Não há, portanto, motivos para usar "apenas" Olavo como autoridade suficiente para provar qualquer coisa).

FALÁCIA IV: "Você acredita em verdades absolutas? Mas que trouxa, a Filosofia já provou que a verdade é relativa!" (Favor me apresentar a essa Filosofia, pois a que eu conheço é muito controversa e muito plural para "afirmar" qualquer coisa)

FALÁCIA V: "É inadmissível alguém falar que sexualidade é pura questão de escolha ou de comportamento quando a ciência já provou que..." (Mesmo caso da FALÁCIA II).

Bom, acho que esses são suficientes por hora. Despeço-me por aqui e agradeço-lhe pela atenção, caro leitor!

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