29 de set de 2013

Para que serve a filosofia de Paulo Ghiraldelli Jr.?

Olá, amigos leitores, e vamos a mais um de meus, suponho, esperados artigos.

Desta vez, falarei sobre o autodeclarado e formado filósofo Paulo Ghiraldelli Jr., cujas falácias acerca da "Primavera Brasileira" já desmontei em ocasião anterior e cujas ideias são tão coerentes que, ao mesmo tempo em que defende Cotas Raciais, supervaloriza o vestibular ao usá-lo como principal argumento contra a existência intelectual de Olavo de Carvalho, que, segundo Ghiraldelli, não passou no vestibular - como se isso fizesse ou devesse fazer qualquer diferença para quem defende as Cotas - no hall dos maiores filósofos e jornalistas brasileiros e latinoamericanos de todos os tempos.

Paulo Ghiraldelli fazendo cara de coerência (sqn) (1)
Não venho aqui, entretanto, discutir seus argumentos sobre Cotas (algo que também defendo, chorem amigos direitistas conservadores e liberais, mas outro dia explico e debato isso) ou sua implicância, que desconfio ser provinda de uma frustração amorosa platônica, contra Olavo, mas sim um de seus últimos artigos no portal iG. Desta vez, Ghiraldelli, em um tom entre o canastronismo e a desonestidade intelectual, indaga-se: "Para que serve um filósofo conservador?". Hora, então, de dar àquilo que se convencionou chamar de artigo talvez a única resposta sensata possível.

O homem que conservava (ou não)

Ao começar seu artigo, Ghiraldelli afirma que 

Só uma girafa com neurônios avariados diria que não vale a pena tentar mudar o mundo. Não precisamos ir onde Judas perdeu as botas para ficarmos insatisfeitos com o que alguns ainda chamam de “status quo vigente".

Vemos, então, que define um conservador como aquele que defende não valer a pena "mudar o mundo" (o que quer que isto signifique) nem se indispor contra o status quo. Ocorre, porém, que, para azar de Ghiraldelli, há outras pessoas, conservadoras ou não, também formadas em Filosofia ou em outra área das chamadas Ciências Humanas que adotam uma definição, digamos, muito menos simplista e mais coerente - ah, esse problema para a filosofia ghiraldelliana - do que a apresentada pelo professor da UFRRJ. Um desses é Francisco Razzo, filósofo, professor e articulista do blog Ad Hominem, que, em artigo sobre o tema, define os termos "conservador" e "conservadorismo" da seguinte maneira:

um conservador nada mais é do que aquele que pensa a partir da relação plural e histórica entre seres humanos vivos e mortos e com memórias acumuladas num feixe de crenças das quais são suas e partilhadas por outros de sua comunidade. Isto é, caracteriza-se por aquele que nunca pensa a partir de si mesmo e de uma suposta autossuficiência, nem da autossuficiência do coletivo. 

E continua:

A memória, segundo a mentalidade conservadora, é depósito de experiência reais. Portanto, o conservadorismo não tem, em um primeiro momento, nada a ver com ideologias políticas. E, em última instância, limita-se a uma atitude prudente a respeito da relação entre finitude humana e memória histórica. 

Assim sendo, segundo esta definição, conservadorismo nada tem a ver com "não querer mudar o mundo" ou "ficar insatisfeito com o status quo" - lembrando que este, o status quo, tem uma definição tão plástica que, se for critério para chamar alguém de conservador, transformará automaticamente todos em conservadores de alguma forma -, mas sim de levar as experiências humanas passadas em consideração e agir com cautela diante de mudanças políticas ou sociais radicais demandadas por setores da população ou mesmo forçadas pelas circunstâncias. Vemos então que o que Ghiraldelli fez foi bem mais distorcer do que apresentar uma definição coerente da qual se possa partir para uma discussão honesta. 

Ainda assim, essa foi apenas a ponta do iceberg, já que, em seguida, o filósofo de São Paulo infere que, por uma série de fatores estarem atrapalhando o bom andar do "sistema" brasileiro, qualquer defesa ao status quo seria, antes de tudo, um erro filosófico. O detalhe é que, ao contrário do que Ghiraldelli finge pensar, não é porque um sistema apresenta falhas pontuais e reversíveis que deve ser mudado. Aliás, pelo contrário: é justamente a não-total ineficiência do sistema que mantém a população pelo menos parcialmente imunes a crápulas que, aplicando lógica parecida com a de Paulo, mudaram tudo do ruim para o péssimo - e ceifaram milhões de vidas no processo, o que torna a coisa toda ainda mais bestial. O que deve ser feito (ou, pelo menos, o que a prudência aconselhar a fazer) , então,  não é derrubar totalmente o sistema ou desmantelá-lo por meio da cultura, como vem tentando fazer a maior parte dos revolucionários, mas sim consertar essas falhas, o que, de fato, não vai contra qualquer princípio conservador.

O mais interessante do texto de Paulo, porém, ainda está por vir.

Recuperando neurônios

"Você interrompeu o Memórias Postumas... para isso?"
Depois de toda porca reflexão sobre a linha conservadora de pensamento e de negar ser uma girafa com os neurônios avariados - o que, aliás, é verdade: uma girafa com neurônios avariados, em comparação a Ghiraldelli, é quase um Machado de Assis quando se trata de cultura e quase uma filósofa clássica quando se trata de coerência -, o Sartre tupiniquim resolve botar as garras de fora e partir para a definição da figura do filósofo conservador. Segundo ele:

Não consigo sair por aí gritando “eis aqui eu, um filósofo conservador, eu não quero mudar nada porque tudo vai bem”. É claro que não vou fazer isso. No entanto, sei muito bem que há quem seja conservador e filósofo. Sei também que uma figura desse tipo não diz encontrar a tal girafa no espelho. Ao contrário, não raro os conservadores se descrevem como “corajosos”, “inteligentes” e, mais recentemente, “democratas”.

E prossegue:

Não raro, um filósofo conservador é bastante verborrágico. Ele tem uma necessidade de estar em todo lugar, fazendo propaganda de seus ideais políticos, mesmo quando diz não gostar de política e de não querer conversar de política. Ele sabe também que entre os não conservadores há os que são profissionais da mudança do mundo, e estes se levam muito a sério. Não é difícil tais profissionais se acreditarem predestinados, com uma missão na Terra. Desse modo, o filósofo conservador não poupa seu discurso de frases de efeito, exageros retóricos e farpas que realmente atingem os mudancistas ou melhoristas ou reformistas ou progressistas ou revolucionários. Ora, essa é a parte pior do conservador, e pode realmente ser deixada de lado, até porque é aquilo que se repete e logo se torna entediante.

E aqui é ápice do curioso, amigo leitor, pois, quando se lê os textos de Ghiraldelli, percebe-se nele e em outros progressistas da mesma laia - ou seja,  "intelectuais" que fingem, por alguma razão que não convém discutir aqui, ter deixado a esquerda para poderem desferir críticas à direita sem qualquer peso na consciência, como se o tivessem antes de deixarem a esquerda - nada mais do que AS MESMAS CARACTERÍSTICAS do "filósofo conservador". O filósofo de São Paulo, inclusive, é mestre nisso, o que se constata depois de algum tempo lendo (e perdendo neurônios com) seus textos. 

Aliás, minto: no caso de Ghiraldelli, não é apenas uma parte, mas a integralidade de sua filosofia que pode ser deixada de lado. Esta característica, do que eu saiba, não aparece em qualquer filósofo conservador.

"D boas aki observamd vse m compara a Pomba Giradelis Jr."
O ponto do texto de Ghiraldelli, porém, ainda não foi alcançado. Afinal, para que serve um filósofo conservador?

                     Afinal, para que serve a filosofia... de Paulo Ghiraldelli Jr.?

Ao cabo de seu texto, Ghiraldelli finalmente resolve responder à pergunta de seu título:

Penso que há boas razões para ler um filósofo conservador sem dar muita bola para o que ele fala segundo gostos políticos, e assim ficar mais livre para averiguar o que diz no âmbito propriamente filosófico. Em outras palavras: um filósofo conservador vale ser lido antes como filósofo que como conservador.

Não entendeu, caro leitor? Pois então vamos explicar.

Apesar de o homem ser um animal político (mas não ideológico, frise-se) e, sendo o filósofo um homem, este também não poder ser materializado sem, pelo menos, a mínima ideia de quais sejam as suas concepções políticas, temos, segundo o filósofo de São Paulo, que olhar para o filósofo conservador sem considerá-lo conservador! O detalhe é que, por mais que Ghiraldelli teime, dificilmente se compreenderá  as considerações nietzschenianas sobre o mundo, por exemplo, sem se levar em conta sua preferência pelo mundo da estética do que pelo da política. O mesmo vale para o conceito de liberdade central para a filosofia existencialista de Sartre, que, depois, se tornaria, por algum tempo, um stalinista convicto, rebatido pelo também filósofo, mas absurdista e extremamente politizado, Albert Camus. Como fazer isso, então, com um filósofo conservador?

Isto não significa, é lógico, que devemos anular categoricamente todas as contribuições filosóficas de determinado pensador por seus equívocos em matéria de política, porque, se o fizéssemos - e aqui me utilizo de um exemplo dado pelo já citado Razzo em seu genial artigo A arte da difamação e a grandeza da filosofia, cuja leitura recomendo -, acabaríamos jogando no lixo, por exemplo, as indispensáveis considerações metafísicas de Martin Heidegger simplesmente por este ter, por um período relativamente longo de sua vida, apoiado o Nazismo, a segunda doutrina política com maior número de mortes em sua conta.

O problema é que, no caso do conservadorismo e do filósofo conservador, "não dar muita bola para os gostos políticos" é, sim, o mesmo que anular essa filosofia, pois é justamente em torno de suas ponderações sobre filosofia política que o conservador construirá sua visão sobre outras áreas da Filosofia como a Ética, a Estética, a Antropologia Filosófica, entre outras.

Podemos perceber, então, que, no fundo e no raso, a utilidade da filosofia de Paulo Ghiraldelli Jr., lastimavelmente, é apenas incentivar o olhar superficial e incompleto sobre as filosofias com as quais não concorda. Pelo visto, esquece-se de que ele próprio disse, em sua entrevista para o Provocações, de Antônio Abujamra, que filosofar é, em essência, provocar. Não creio, no entanto, que, em tempos de progressismo quase ditatorialmente imposto, o conservadorismo não sõe como uma deliciosa provocação. Pelo menos a mim, um não-conservador declarado, soa, e quero me deixar provocar enquanto tiver esta liberdade.

Notas:

(1) Agradeço ao amigo Pérsio Menezes, do peublogg, por seu post, do qual tirei a inspiração para a legenda, sobre um texto de Emir Sader.

Referências Bibliográficas:

GHIRALDELLI JR., P. Para que serve um filósofo conservador? Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-09-28/para-que-serve-um-filosofo-conservador.html>. Acesso em: 29 set. 2013. 

MENEZES, P. Escreve como pensa: Análise 001 - Emir Sader. Disponível em: <http://peublogg.blogspot.com.br/2012/12/forca-e-fraqueza-do-partido-da-midia.html>. Acesso em: 29 set. 2013.

RAZZO, F.A. A arte da difamação e a grandeza da filosofia. Disponível em: <http://www.adhominem.com.br/2013/08/a-arte-da-difamacao-e-grandeza-da.html>. Acesso em: 29 set. 2013. 


RAZZO, F.A. Explicando para os meus netos o que significa ser um conservador. Disponível em: <http://www.adhominem.com.br/2013/08/explicando-para-os-meus-netos-o-que.html>. Acesso em: 29 set. 2013. 

14 de set de 2013

Eu, Apolítico - Ceticismo x Academia (Ou: Porque desconfiar de Renato Janine Ribeiro et caterva)

Olá, amigos leitores, e vamos a mais um post da série "Eu, Apolítico".

Como alguns de vocês devem saber, no dia de ontem, um certo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética da USP, inventou de destilar toda sua sabedoria universitária em um detalhadíssimo e embasadíssimo comentário de Facebook sobre o novo livro de Olavo de Carvalho, O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota (sobre o qual talvez fale em breve). Ocorreu que, para desespero de seu alunado da USP e de seus fãs (se é que os tem), Olavo, como sempre, respondeu à altura e o desafiou publicamente para um debate sobre um tema qualquer a ser escolhido pelo mesmo Janine, que, até o momento, sequer se dignou a responder ao desafio.

Pasmado com tamanha falta de maturidade intelectual, resolvi, então, postar e explicar, de uma vez por todas, porque é dever de qualquer pessoa com mais de 10 anos de idade e de 2 neurônios ativos no cérebro assumir uma postura cética, ou seja, de desconfiança e de investigação própria perante o pregado pelos acadêmicos de terra brasilis (e de outros lugares também). Vamos, então, aos trabalhos.

Janine Ribeiro e a inexplicável Ética

Renato Janine no auge de suas ponderações sobre Ética...sqn
Como primeiro exemplo, usarei o próprio caso Janine. Apesar de ser professor de Ética da USP, parece que Janine, ao criticar Olavo, esqueceu-se de um dos princípios mais básicos para ser um intelectual de ética, que é o de criticar apenas o que conhece. Ao dizer, em sua crítica, apenas que o fato de Olavo de Carvalho ser bem vendido mostra o quanto o retardamento cresce com a tecnologia - e, ironicamente, o próprio Janine postou isso em uma rede social, talvez o mais representativo fruto da inovação tecnológica -, as únicas ideias que alguém pode ter do filósofo Renato Janine Ribeiro é que ou é um nome tão grande da Filosofia brasileira e mundial que pode desprezar todos os outros, ou simplesmente não leu a obra que está criticando.

O caso é que, ao ouvirmos sua mais recente entrevista ao programa Provocações (aqui, aqui e aqui), na qual ele nega peremptoriamente ser um dos grandes nomes da Filosofia, percebemos que, pelas próprias palavras de Janine, a primeira hipótese cai por terra e a segunda ganha ainda mais força.

Isto, porém, nem é o mais estranho. O mais peculiar é, ao longo de toda a entrevista, o professor de Ética simplesmente não só não conseguir chegar a uma definição mais ou menos razoável de seu objeto de estudo e ensino como também parecer mudá-la com as perguntas que lhe são feitas. Por exemplo, quando é perguntado sobre a Ética no jornalismo, o filósofo afirma categoricamente, mas sem definir antes o que seria esta ética, que um jornalista que segue a ideologia do patrão é, invariavelmente, antiético. O fato é que, se fosse um aluno em seu primeiro ano da iniciação "científica" (e entro nesta questão de o que é ciência mais tarde) tendo estas dificuldades e se contradizendo a cada segundo, teríamos, então, um desvio perdoável, exatamente porque tratamos com um iniciante. Para um pós-doutor e livre-docente, no entanto, a banda precisa tocar de um modo bem diferente, pois definitivamente não é viável pagar a alguém para estudar e ensinar conceitos sobre uma área que sequer sabe definir plausivelmente.

Mesmo com tudo isso, não posso dizer que o caso de Janine Ribeiro, o filósofo da Ética sem conceito e sem explicação, seja o pior dentro das universidades, nem que a dificuldade em definir um objeto de estudo seja, nas ditas Ciências Humanas, um problema crônico. O problema, aliás, é quando a área é definida até bem demais...

A "ciência" brasileira: Primeiro como farsa, depois como drama

Citei, em meu post sobre o Apelo à Autoridade, o seguinte exemplo dessa falácia:

"FALÁCIA II: "A ciência linguística já provou que não existem línguas simples ou complexas, mas sim línguas diferentes, logo o mesmo vale para variantes linguísticas e, portanto, é inadmissível dizer que tal fala é 'inadequada'". (destaque meu)" (SANTOS, O.H.C., 2013)

E destaquei, na ocasião, o apelo à ciência como única fonte possível da verdade e, portanto, como única fonte de respostas aceitáveis sobre qualquer assunto que seja. Isto, se fosse apenas "privilégio" de linguistas, sociolinguistas e crentes no Bagnismo em geral, não seria de muita ameaça, pois, apesar de acabar com qualquer crédito que essa área filosoficamente interessante e até mesmo bem fundamentada possa ter para um estudante mais ou menos sério, representaria um caso isolado e de forma alguma refletiria o estado atual das outras ciências. O problema é que, ao contrário do que parece, este tipo de cientificismo barato está se disseminando, já há muitos anos, como praga dentro de universidades.

Marcos Bagno em momento de profunda reflexão científica
Para poder ver isto mais claramente, basta prestar atenção aos dois discursos a seguir. O primeiro é do filósofo, sociólogo, antropólogo, sexólogo, biólogo, teólogo, filantropo e papa da sociolinguística, o já citado e criticado Marcos Bagno, e o segundo é o discurso mais comum contra o também já citado Olavo de Carvalho. Vejamos:

DISCURSO I: "Depois de muita discussão, pesquisa e reflexão sobre a necessidade ou não de 'ensinar gramática' na escola, os linguistas e educadores que propõem um ensino de língua mais sintonizado com as reais necessidades dos cidadãos concluíram que, definitivamente, não cabe mais desperdiçar o tempo e o espaço da escola com a tentativa infrutífera de inculcar nos aprendizes uma nomenclatura técnica interminável para ser aplicada em exercícios de análise sintática e/ou morfológica sem nenhum objetivo claro e definido. Com isso, podemos dizer, sem medo, que não é para ensinar gramática na escola" (BAGNO, 2011)

DISCURSO II: "Você lê Olavo de Carvalho? Mas que tolo, a Academia nunca levou esse cara a sério, ele sequer se formou em Filosofia".

No primeiro discurso, de um dito cientista da linguagem cuja fidelidade ao método científico, como se verá, é de dar inveja a Allan Kardec, podemos perceber que não só é invocada a autoridade anônima de linguistas e educadores (ou seja, dos "cientistas", os únicos que podem saber a verdade sobre determinado assunto), como de pessoas que querem atender às reais necessidades do cidadão. Muito curiosamente, não se mostra nem como esses linguistas chegaram a essa conclusão, nem como se definiu quais são as "necessidades dos cidadãos", quanto mais como se fez para definir o que são "cidadãos" - se são tomados, no caso, como indivíduos ou como massa amorfa útil para a teologia progressista (e, sim, isto faz total diferença). 

Fico muito curioso, então, em saber qual seria a reação de Karl Popper ao ver tudo o que disse sobre a necessidade da Falseabilidade em ciência ser jogado, sem dó nem piedade, no lixo. Imagino que seria algo parecido com isto:

"Você desprezou minhas filosofias da ciência... PARA ISSO?"



Mas, enfim, indo agora ao segundo discurso, vemos, desta vez, a estratégia toda mais claramente, certo? Afinal, mesmo sendo o maior dos reacionários, se Olavo de Carvalho passasse pela Academia, ele seria aceito por muitos, não é mesmo?

A isto, amigo leitor, respondo: Errado. E explico o porquê.

A miséria da filosofia e das ciências e a ascensão da ideologia

"O povo é sempre opressor. Marx e Rousseau são dois mentirosos"
Vendo o exemplo de Olavo de Carvalho, poderia parecer que, fosse ele formado, mestrado e doutorado, não haveria nenhuma rejeição a seu trabalho e ele seria, como se intitula, considerado, por todos, um filósofo. Acredita-se nisto, porém, até se saber que o cidadão acima, o filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, não só tem doutorado como pós-doutorado e, mesmo assim, é achincalhado e tem seu trabalho filosófico reduzido a nada pelos seus adversários políticos. Mas, afinal, sendo ele, de fato, formado filósofo, qual seria a razão para não lhe dar, segundo a lógica do segundo discurso, este título?

O detalhe, amigo leitor, é que, no fundo (e no raso, sejamos francos), não interessa, tanto aos acadêmicos quanto aos intelectuais progressistas brasileiros em geral, quais os conceitos utilizados e qual a formação (ou não) de Pondé e Carvalho. O que interessa é se o que eles dizem, não importando se em obras teóricas ou em informais programas de televisão e internet, desafia ou não os dogmas defendidos, com unhas e dentes, pelos teólogos do Progressismo, talvez a degeneração mais pobre do já intelectualmente paupérrimo Marxismo.

Isto, para quem conhece o progressismo, significa, na prática, que só se poderá fazer filosofia ou ciência "respeitada e pautada pela Academia" se dermos vários saltos de fé e aceitarmos, sem maiores questionamentos, premissas como "O homem é bom, mas a sociedade capitalista o corrompe" (e aqui Rousseau fica entre o choro e o riso), "a sociedade se divide entre opressores e oprimidos" (Paulo Freire e seu séquito marxista de seguidores vão ao delírio), entre outros. 

O real problema, no entanto, não é se estas premissas estão corretas ou não, mas sim a limitação que se impõe à criatividade e ao processo de aquisição de conhecimento pelo qual o cientista, antes de sê-lo de fato, deve passar, pois, para sequer se questionar (ou sequer querer se questionar) sobre esses dogmas, poderá ler apenas autores que corroborem, de antemão, com as conclusões a que quer chegar, o que vai na contramão de todas as considerações razoáveis já formuladas sobre o modus operandi das ciências.

Como não ser minimamente cético, então, perante uma instituição que aplaude de pé e dá título de filósofo a pessoas que incitam o ódio entre as classes (se é que estas existem) e de cientista político a quem reduz todo o problema da violência à desigualdade social enquanto despreza aqueles que, em sua visão, são meros "reacionários", mas que, de fato, apenas representam uma visão diferente? 

Encerro os trabalhos por aqui e deixo esta pergunta e um trecho de "A Ordem do Discurso", obra de um dos ídolos-mores da esquerda, Michel Foucault, para o leitor poder ver que, como se diz no popular, "o buraco é mais embaixo". Obrigado pela atenção e até breve, amigos leitores.

"Daí ele disse: só acredito na ciência, huehuehuehuehue"
"A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso [...]Geralmente, se vê na fecundidade de um autor, na multiplicidade dos comentários, no desenvolvimento de uma disciplina, como que recursos infinitos para a criação de discursos. Pode ser, mas não deixam de ser princípios de coerção; e é provável que não se possa explicar seu papel positivo e multiplicador, se não se levar em consideração sua função restritiva e coercitiva" (FOUCAULT, 2012)

Obras Consultadas:

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 54. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 22. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2012.  

NOVOS PODCASTS:

48º Podcast de Octavius: Marília Gabriela "entrevista" Olavo de Carvalho

13 de set de 2013

Falácias - Apelo à Autoridade

Olá, amigos leitores, e este é mais um dos meus posts sobre falácias, que, como já defini quando falei da primeira delas em 15/06, são "[...]todo tipo de argumento enganoso, o típico argumento que, para uma visão menos atenta e apenas estrutural, parece estar correto, mas que tem alguma falha lógica ou semântica em sua constituição ou em sua conclusão." (SANTOS, O.H.C., 2013).

Ao contrário das outras vezes, porém, falarei sobre a falácia do título não por si mesma, mas como uma forma de adiantar um post que em breve farei sobre Educação e que já foi prometido ao meu leitor e ouvinte em um de meus podcasts.

Vamos, então, aos trabalhos. O argumentum ad verecundiam (em português: Falácia do Apelo à Autoridade) consiste em afirmar que um argumento está certo porque seu autor é X, formado em Y, mestrado em Z e doutorado em ABCDEFGH..., ou, simplesmente, é dizer que o argumento está certo não pela sua lógica, mas pela credibilidade do autor que o apresentou.

Para facilitar um pouco, vejamos como esta falácia se formula:

FALÁCIA I: "Ora, mas como assim você não acredita na hipótese antropogênica para o aquecimento global? Quer desafiar a inteligência do Al Gore, seu leigo?"

Vamos, então, à análise desta afirmação. Primeiro, para situá-los, a hipótese antropogênica para o aquecimento global é aquela que defende não só a existência do aquecimento global, como a culpa dos seres humanos por seu rápido desenvolvimento. Como qualquer hipótese, há os que a defendam com unhas e dentes, há os agnósticos (ou seja, os que não estão certos de que esta esteja certa) e os céticos (aqueles que delas desconfiam).

O detalhe é que, independente de qual seja a minha posição ou a de meu leitor sobre o antropogenismo, não acho que seja difícil perceber que existe uma diferença muito clara entre falar "Eu sou um defensor da hipótese porque as evidências que conheço me levaram a isso" e afirmar "O pensador Al Gore, ecologista renomado, defende esta hipótese, logo ela está certa".

Entendem, amigos leitores? Citar autores afamados para corroborar com suas ideias não só não é proibido, como, na maior parte das vezes, é necessário e até obrigatório. Agora, daí a divinizá-los e transformá-los, ao invés de suas linhas de raciocínios, em provas cabais para um assunto, é um salto de fé e um erro lógico inadmissíveis em qualquer debate e em qualquer autor de qualidade.

Há, porém, um caso mais sutil, que é o apelo à autoridade anônima, ou seja, é quando a autoridade não é enunciada. Um exemplo clássico é:

FALÁCIA II: "A ciência linguística já provou que não existem línguas simples ou complexas, mas sim línguas diferentes, logo o mesmo vale para variantes linguísticas e, portanto, é inadmissível dizer que tal fala é 'inadequada'". (destaque meu)

Não entrando aqui no mérito de se o autor da frase está com a razão ou não quando a questão é língua, vamos nos atentar ao ponto destacado. O autor, ao invés de demonstrar porque não há línguas melhores do que outras e mostrar de que premissas se partiu para se chegar a essa conclusão, prefere simplesmente apelar para a entidade "ciência", tida por muitos como incontestável mas composta, ao contrário do que se pensa, por várias linhas diferentes de pesquisa.

Só para ficar na Linguística, temos pelo menos três grandes vertentes que, cada uma a seu modo, definem objetos como "língua", "linguagem", "fala", "texto", entre outros. Temos o Estruturalismo, fundado por Ferdinand de Saussure, o chamado pai da linguística moderna; o Gerativismo, capitaneado pelo sofista político e linguista respeitável Noam Chomsky; e a Sociolinguística, uma resposta ao Gerativismo fundamentada principalmente nos escritos de William Labov.

O mais importante, porém, são as seguintes perguntas: Qual dessas vertentes "provou" que não há línguas melhores do que outras? De que premissas partiu? Como isso ficou provado? Qual foi o método adotado para fazer as pesquisas necessárias para isso? Nenhuma das outras vertentes, ou mesmo nenhum dos outros cientistas da própria vertente, contestaram essa ideia? Essa hipótese é falseável? Essa hipótese vem sendo contestada, e os contestadores vêm sendo ouvidos e respeitados?

Essas e muitas outras, entretanto, são perguntas desconsideradas quando se afirma, com tanto dogmatismo (algo, aliás, pelo menos em tese, anticientífico), que "a ciência", seja ela qual for, "provou X, logo fim de papo". Isso, ao contrário do que muitos dizem, não é argumento, é apelo à autoridade, logo falácia ou método barato de propaganda. Argumentação, nesse caso, seria a apresentação das evidências e dos raciocínios que levaram algum cientista a concluir X, e não Y. Fora disso, só há falsos argumentos.

Mas, enfim, para terminar, vamos a mais alguns exemplos:

FALÁCIA III: "Como assim não existe marxismo cultural? Ora, mas Olavo falou que..." (Gosto muito dos artigos de Olavo de Carvalho, mas não é porque ele falou algo que isso está necessariamente certo. O próprio, aliás, sempre preza por mostrar evidências muitas vezes mais do que suficientes para o que fala. Não há, portanto, motivos para usar "apenas" Olavo como autoridade suficiente para provar qualquer coisa).

FALÁCIA IV: "Você acredita em verdades absolutas? Mas que trouxa, a Filosofia já provou que a verdade é relativa!" (Favor me apresentar a essa Filosofia, pois a que eu conheço é muito controversa e muito plural para "afirmar" qualquer coisa)

FALÁCIA V: "É inadmissível alguém falar que sexualidade é pura questão de escolha ou de comportamento quando a ciência já provou que..." (Mesmo caso da FALÁCIA II).

Bom, acho que esses são suficientes por hora. Despeço-me por aqui e agradeço-lhe pela atenção, caro leitor!

5 de set de 2013

O preconceito do Pragmatismo Político (et caterva) contra Danilo Gentili (1)

Que há muito tempo venho criticando órgãos de mídia e "intelectuais" de esquerda, não é nenhuma novidade para o sempre fiel amigo leitor. Há algo, porém, que pode, de fato, ser-lhe novidade: o mais completo mau-caratismo por parte de blogs progressistas na hora de falar sobre humor, associando toda e qualquer piada da qual esses articulistas não gostam à palavra "preconceito", tentando, com isso, censurar o humorista que a profere.

Desta vez, a vítima foi o humorista Danilo Gentili, ex-repórter do CQC e agora comandante da tripulação do Agora é Tarde (AET), composta também por Roger, vocalista do Ultraje a Rigor e também vítima frequente desse tipo de ataque e deste ataque em específico, feito pelo site Pragmatismo Político, já criticado neste blog em outras oportunidades.

Danilo Gentili, o "preconceituoso" apresentador da BAND
Para não ficarmos na enrolação, vamos ao enredo deste drama comunista, porque, como se sabe, o drama burguês é para "miguxos reaças" (o que quer que isso signifique) e para manés como Anton Tchekhov e Luigi Pirandello - apesar de eu duvidar muito de que nossos amigos progressistas tenham a capacidade para compreender este tipo de peça.

Danilo Gentili e o inexplicado preconceito

Indo sem mais pestanejar aos fatos, o ocorrido foi que Gentili tocou em um ponto caro a esse tipo de gente: os médicos cubanos recém-chegados ao Brasil pelo programa Mais Médicos. Sim, caro leitor, ao contrário do que falaram, isso não tem nada a ver com mais ou menos nordestinos, mas sim com a sacralidade inquestionável de todos os atos da ditadura marxista dos Castro, que vem destruindo a ilha há mais de 50 anos.

No caso, Gentili fez a seguinte piada...


e cometeu um grave erro, pois deu brecha para o discurso vitimista dos progressistas ao falar apenas uma palavra: NORDESTE. Quando citou esta palavra e colocou, em seguida, palavras como "fome" e "trio elétrico", Danilo virou prato cheio para a autopromoção dos novos heróis da pátria. No subtítulo da reportagem do Pragmatismo Político, lemos, já de início, que:
   
Apresentador da TV Bandeirantes destila preconceito contra nordestinos e cubanos. Para Gentili, o Nordeste é um lugar sem energia elétrica, sem água e sem comida.

Para ver como este trecho é mentiroso, é só ouvir o primeiro pedaço da piada de Gentili:

Um apagão afetou boa parte do Nordeste. Digo "boa parte" porque nem todas as cidades lá têm energia elétrica... (destaque meu)

Como vemos no trecho destacado, nem de longe o apresentador do AET afirma que "O Nordeste não tem energia elétrica, água e comida". O que ele diz é que algumas cidades no Nordeste não tem energia elétrica, e isso, por mais que doa aos ouvidos frágeis dos progressistas, é fato, pois se aplica não só ao Nordeste, como a todo o Brasil, em que, em vários lugares, realmente falta o acesso à eletricidade e mesmo a comida e a água, citadas ao longo da piada.

O mais grave, porém, não é essa ridícula distorção da fala do apresentador, mas o que vem na reportagem que se segue a esse subtítulo. Lá, e em muitos dos comentários a ela, acusa-se Danilo Gentili do crime de, OH, preconceito! Mas, como quase toda a acusação dirigida de um progressista a seu alvo, falta algo básico, que é definir claramente do que o réu está sendo acusado, uma das coisas mais elementares quando o assunto é a lei. 

Entretanto, para os progressistas do Pragmatismo Político (e para todos os outros que comentaram ou não), preconceito parece ser não o que de fato é, ou seja, um julgamento apressado - e normalmente negativo, apesar de o termo poder ser usado tanto para o bem quanto para o mal - de um fato ou de um indivíduo sobre o qual nada se conhece ainda. 

Seria preconceito, por exemplo, chamar Olavo de Carvalho de "astrólogo conspiracionista maluco" sem sequer ler seus textos e suas obras, acusar Reinaldo Azevedo de "defensor da teocracia" sem ver sobre o que realmente fala em seus artigos na revista e no site da VEJA ou mesmo dizer que o livre-mercado é a causa da fome no mundo sem sequer entender o que significa "livre-mercado". Mesmo assim, raras vezes vi algum progressista reclamando publicamente da ação de seus colegas e avisando-os de que estão sendo preconceituosos. 

Reinaldo Azevedo defendendo energicamente a "teocracia"...sqn
Ao invés disso, preferem manter o termo indefinido e usá-lo ao bel prazer contra humoristas ou contra qualquer um que defenda ideias opostas às desses heróis do terceiro milênio. "Preconceito", então, passa a ser um termo plástico demais e, portanto, além de ser banalizado, torna-se inexplicável e inexplicado.

"Piada" por quê?

Isso, no entanto, ainda não é tudo, amigo leitor. Vejamos o relato do repórter sobre a piada de Danilo Gentili. Segundo ele...

Na 'piada', o humorista afirmou que os médicos cubanos, contratados pelo governo federal por meio do programa Mais Médicos, agora estão se sentindo em casa na região, sem água e sem luz.
Para completar a 'piada', o vocalista da banda Ultraje a Rigor (banda do talk show apresentado por Gentili), Roger Moreira, afirmou que no Nordeste 'tem papel higiênico ainda'. O apresentador respondeu que 'tem comida também'. (destaques meus)

Há alguma coisa de estranho aí, certo? Pois é, foi o uso da palavra "piada" entre aspas, para inferir que o que Danilo faz não é, realmente, humor, mas sim outra coisa, como o já inexplicado e cada vez mais inexplicável "preconceito". Um recado parecido pode ser visto abaixo, mas, desta vez, com uma explicação, quase miraculosamente, explicitíssima: É do "opressor" que se deve rir, e não do "oprimido".


E eis o erro de todo esse raciocínio: "Opressor" e "oprimido" são categorias que, para serem aceitas, dependem de uma série de premissas que nos levam, basicamente, a dois principais caminhos: marxismo revolucionário ou marxismo heterodoxo (progressismo). Ou seja, para aceitar que haja um grupo "opressor" e outro "oprimido" na sociedade, além de praticamente banir a categoria "indivíduo" das análises, precisaríamos pressupor que existem classes sociais homogêneas compostas por pessoas com interesses e necessidades rigorosamente iguais e que é sempre quem tem o poder aquisitivo ou as propriedades que está no lado mais forte do conflito (2)

Enfim, trocando em miúdos, por Danilo ter feito a piada "com o grupo errado", o escrevente deu a si mesmo a permissão de desqualificar todo o processo criativo do apresentador e dos roteiristas do AET. Ora, progressistas, mas isso não é a "coisificação do homem"? Afinal, não foi Danilo, tecnicamente, reduzido a mero objeto usado pela ideologia progressista para ganhar adeptos na luta contra "a opressão"? (termo esse que, também, permanece obscuro).

O leitor, como de praxe, ainda pode fazer, pelo menos, mais uma pergunta: Tem como ficar pior?

Racionamento (cubano) e burrice (brasileira)

A resposta, amigo leitor, é sim. Voltando à reportagem, lemos que:

Além do preconceito direcionado à Cuba e ao nordeste brasileiro, Gentili revelou na “piada” o seu desconhecimento sobre a atual realidade cubana em relação à segurança alimentar da sua população.

Eis que chegamos no ponto para o qual toda a discussão se direcionava, e sobre o qual já falei brevemente no início de toda esta querela: a "empáfia" - e uso aspas pois, para pessoas normais, ou seja, aquelas que acreditam na necessidade de haver a liberdade de expressão, não há nenhuma ousadia por parte do ex-CQC - de Danilo ao criticar o Sacro-Império Comuno-Cubânico, comandado pelo guru espiritual-materialista Fidel Castro (e seu irmão, o atual presidente Raul Castro) e mais conhecido como Cuba.

"Daí vocês gritam: FASCISTA! PRECONCEITUOSO!"
Normalmente, seus defensores por aqui são aqueles que, fora o fato de não ativarem mais do que um neurônio de todo o cérebro, simplesmente não conseguem conceber sequer que existam pessoas como Yoani Sanchez, as chamadas "oposições permitidas", quanto mais reais opositores àquilo que, apesar de todas as evidências em contrário, insistem em chamar de "o paraíso na terra". Os falsos pragmáticos da política, por sua vez, não fogem à regra, e, para defender os ditadores Castros, alegam que:

Em visita a ilha governada por Raul Castro, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, José Graziano da Silva, reconheceu os esforços do governo cubano para garantir a segurança alimentar da população. Cuba hoje possui uma situação de segurança alimentar próxima a de países desenvolvidos, com um índice de desnutrição menor que 5% da população.
“Cuba é um dos 16 países do mundo que já atingiram a meta da Cúpula Mundial da Alimentação de reduzir pela metade o número absoluto de pessoas com fome. Isso tem sido possível graças à prioridade que o governo tem dado para garantir o direito à alimentação e as políticas que implementou”, afirmou o representante da ONU em maio deste ano."

O detalhe, amigo leitor, é que o repórter se esquece de mencionar que a única razão pela qual os índices de desnutrição em Cuba são tão baixos é que há o famoso racionamento de comida, um dos milhares de ônus (uma lista interminável de ônus, aliás) do sistema socialista-comunista de governo. Para os que não sabem (ou que preferem ficar sem saber), isto significa que, enquanto no sistema capitalista ou em um sistema não-socialista, filas são formadas, na maioria das vezes, durante o lançamento de algum filme ou de uma novidade tecnológica que todos desejam adquirir, no sistema socialista, formam-se filas e filas de pessoas para pegar a comida para o dia ou para o mês, sem direito à reposição ou a qualquer quantidade a mais de comida, não importa em que circunstâncias.

Analisando, então, a situação com esses dados, pode-se dizer mesmo que, para uma população tão pequena e tão regulada, o governo de Cuba vem sendo, de certo modo, até incompetente, pois sequer consegue manter o controle quando já tem o monopólio de tudo.

Enfim, fica transparente mais uma vez, portanto, o amadorismo do site dos maiores lunaticamente teóricos "pragmáticos" brasileiros, que me levaram ao ponto de defender Danilo Gentili, cujo trabalho como humorista eu aprecio, mas de cujas opiniões, na maioria das vezes, discordo (como quando falou sobre Impostos e sobre Carnaval). Espero que o amigo leitor tenha gostado e que eu não tenha cometido o mesmo "erro" de Danilo, o de ter sido "preconceituoso" contra nordestinos e cubanos.

Agradeço-lhes pela atenção e até breve, amigos leitores.

(1) et caterva: Termo em latim que equivale a "e companhia", "e comparsas". Normalmente usado com conotação negativa.
(2) Esse erro marxista também se faz presente (e macula) a concepção de "preconceito linguístico", mas isso explicarei mais claramente quando postar sobre o tema.