15 de abr de 2013

O Império Liberaloide contra-ataca - Duffinho e Ateus de Areia

Olá, amigos leitores, e está na hora de bater mais um dos nossos papos.

Bom, como todos estão carecas de saber, há dois dias fiz um texto (este aqui) discutindo os arjumentos argumentos do blogueiro carioca Paulo Sérgio Duff acerca de conservadorismo, ou melhor, de um suposto "começo do fim" do conservadorismo em terras tupiniquins.

Acontece que, ao contrário do que eu pensava, Duff respondeu (aqui) e, além dele, recebi algumas reclamações sobre os argumentos que usei no post. Como percebi que as reclamações ficaram recorrentes, resolvi poupar meu trabalho e responder item por item do que me foi dito em um texto. Já adianto ao leitor que não sei ao certo o tamanho que terá este post, então peço sua paciência. Adianto também que, tendo em vista que algumas respostas, tanto do Duff quanto de outros, só podem ser frutos de burrice ou desonestidade intelectual, não será incomum que eu me altere um pouco nas respostas.

Mas, enfim, vocês vão perceber isso logo logo.

Primeiro de tudo, Duffinho reclama de minha postura agressiva e joga uma conversinha muito da mole para justificar que não iria me rotular como "conservador". Só que um detalhe que eu percebi, especialmente nesse segundo post, é que o blogueiro carioca não definiu o que vem a ser o conservadorismo como ele o usou. Com isso, deu brechas para que eu dê novas regras ao jogo, ou, trocando em miúdos, mostre uma definição de conservadorismo, que foi exatamente a que eu segui tanto no meu texto de resposta a ele quanto no post Revolução e Besteiras Parte 1. Para ajudar o leitor, coloco-a aqui, como no original, adicionando também as definições de conservantista, reacionário, liberal e revolucionário. Na íntegra, defini os termos como segue (em itálico):

A primeira coisa sobre a qual quero falar é sobre como pessoas são classificadas de acordo com suas posições socio-político-morais (sim, o neologismo é forçado, mas foi o melhor que achei). Basicamente, existem duas interpretações principais que usamos para essa classificação. Enquanto uma delas divide as pessoas em quatro estratos (reacionários, conservadores, liberais, revolucionários), a outra divide em cinco grandes grupos, sendo estes reacionários, conservantistas, conservadores, liberais e revolucionários. No caso, e como esta classificação é menos generalizadora do que aquela (que iguala conservadores e conservantistas), vou explicar os termos segundo a segunda classificação e deixá-los transparentes para todos.
Comecemos, então, com o segundo e terceiro termos (deixarei o primeiro para o final). O que seria, afinal, um conservantista? E o que o diferencia de um conservador?

Sendo bem sucinto, o primeiro, assim como o segundo, é todo aquele que tem certa resistência a mudanças. O que os diferencia é que enquanto o conservador, apesar de não ser um fã de mudanças, sabe reconhecer  que algumas, por algum motivo, são necessárias, e advoga por elas após criteriosa análise de suas implicações na sociedade, o conservantista rejeita todas igualmente e prefere manter as coisas como estão mesmo que sofra por isso depois.

No outro polo, temos os liberais, que são todos aqueles que têm pouca resistência a mudanças nos costumes e que, por isso, geralmente advogam a favor destas, mesmo que alguma delas possa trazer danos à sociedade, e os revolucionários, que são aqueles que tentam mudar não apenas alguns costumes da sociedade, mas sim reformá-la e renová-la por inteiro, seja culturalmente, seja institucionalmente.

Estes, porém, acabam sendo tão radicais em seu desejo de mudança que costumam gerar os seus próprios opositores, os famosos reacionários, aos quais o artigo se refere em tom irônico. Resumidamente, o reacionário é aquele que, ao contrário do revolucionário, não quer mudanças inovadoras (mas nem sempre benéficas, diga-se de passagem), mas sim regressistas (nem sempre maléficas, também diga-se de passagem), ou seja, que façam com que a sociedade volte a um estágio anterior do qual já saiu há algum tempo.


Ou seja, podemos ver, muito nitidamente, que "conservador" é apenas aquele que deseja que mudanças, se necessárias, sejam feitas com precaução para não causarem danos à estrutura social. Ou seja, ao contrário do que o computeiro quer nos fazer pensar, não existe associação alguma entre ser conservador e ser preconceituoso. Aliás, curiosamente, quando fala em "preconceito", Duff deixa muito mal subentendida a definição que usa também. Para ajudá-lo a escolher, e para finalizar este ponto, deixo algumas definições dessa palavra capciosa e já deixo uma dica: se for a primeira, meu amigo, dançou, pois, muito mais curiosamente ainda, são justamente os liberais (nos costumes, lembremos disso sempre, sofistas) que menos têm qualquer fundamentação para suas definições, afinal, liberalismo, nesse senso, se trata apenas de pouca resistência a mudar os costumes, e não é preciso fundamentar nada para não ser resistente às mudanças.

Prosseguindo, o segundo ponto que Duff criticou e por causa do qual fui muito criticado foi porque eu falei que os cristãos que responderam à Folha de São Paulo poderiam não ser "cristãos de verdade". Daí, empregando exatamente o mesmo raciocínio que o vlogger Clarion de Laffalot (um outro grande amigo meu) neste vídeo, e usando exemplos de alguns segmentos do Cristianismo antigo, o blogueiro carioca afirma que "não há cristão de verdade".

Seria lindo, não fosse o fato de que, ao contrário do que falam eles e os neo-ateus (que usam covardemente essa tática de negar que haja cristãos de verdade para meter cristãos sérios e não-sérios no mesmo saco), há, sim, como qualquer pessoa detectar a sinceridade não só de um dito cristão mas de qualquer um que se diga religioso. Para fazer isso, basta ver se a pessoa tem o mínimo de coerência pelo menos com o que sua igreja prega (ou seja, não faz sentido um católico ser a favor da legalização do Aborto ou um luterano ficar louvando São José, por exemplo) e se ela teme ou se tem medo de sua divindade. Acreditem, mesmo como ex-católico, consigo ver a diferença entre esses dois tipos de pessoas.

Aliás, falando em catolicismo, eu mesmo deveria ser mais grato ao Catolicismo nesse sentido, pois ele facilita o meu argumento. O argumento de "não há cristão de verdade" até cola, mas com o Catolicismo, que é uma ala específica do Cristianismo, fica mais difícil fazer isso, pois há diretrizes específicas que o fiel católico deve seguir "para não ser excomungado". E se pegarmos os números daquele Censo 2010 que linkei, veremos que a maioria da população, além de cristã, é católica (aproximadamente 64,5% dos brasileiros). Com isso em mente, já podemos separar o joio do trigo, isso sem contar que quase todo cristão brasileiro tem sua igreja. Creio, então, ter derrubado essa conversa mole.

Continuando, no texto do blogueiro carioca, vemos, em seguida à reclamação sobre "cristãos de verdade", uma coisa que meu amigo Luciano Ayan chama de Simulação de Falso Entendimento, que é basicamente pegar a tese do adversário, fingir que não entendeu e distorcer o pensamento do que ele disse (Maingueneau, um dos ícones da Análise do Discurso, diria que se trata de "Interincompreensão regrada"). Isso pode ser observado quando Duff diz:  

Quando o entrevistador perguntou sobre casamento gay, acha que o cristão entendeu casamento de avestruz? Está muito obscura sua linha de raciocínio! Me parece mais vontade de contestar uma fonte, do que de fato refutá-la, embora paradoxalmente diga que ela não existe! Estranho!

 O detalhe é que, não sei se por inocência, incapacidade mental ou pura desonestidade intelectual, Duff não entendeu que, quando eu falei que a pesquisa foi mal feita, é justamente porque ela pode ter sido feita apenas com cristãos "falsos", ou, melhor dizendo, com pessoas que só declaram religião por status quo. Essas pessoas, obviamente, vão ter viés diferente, mas isso se dá porque elas declaram religião sem conhecer o mínimo possível sobre suas religiões. Garanto para você, Duff, que a maioria delas era... CATÓLICA. Agora, que católico é esse que apoia casamento gay, isso é que eu quero saber.

Depois, com alguns cálculos mirabolantes, o carioca tenta consertar sua soma ERRADA feita com dados OBSCUROS para justificar o porquê de ter somado grupos sem contar que eles podem se cruzar (sdds, teoria dos conjuntos, como se o conjunto dos não-religiosos só contivesse heterossexuais, ou como se todo gay fosse liberal) e ainda afirma que eu disse o que não disse: que os outros 25 milhões de brasileiros são liberais. Isso pode ser desmentido pelo seguinte trecho, do qual ele só pegou a palavra "GARANTIDAMENTE":

Fazendo o cálculo direito, o que teríamos como GARANTIDAMENTE não-conservadores seriam 25 milhões de brasileiros, mas, ainda assim, isso só seria verdade se não houvessem não-cristãos, não-religiosos, ateus e homossexuais conservadores, mas há, e muitos. (grifo meu)

Ou seja, ficou clara a desonestidade intelectual de Duff aqui também.  

Aliás, lamento, vou ter que corrigi-lo mais uma vez: cristão liberal uma ova bem redonda! Por mais que não goste disso, meu amigo Duff, a essência do Cristianismo é toda CONSERVADORA. Liberalismo nos costumes e Cristianismo são incompatíveis, exatamente porque as teses liberais, como a da legalização do Aborto, não podem ser aceitas por cristãos. Fora isso, eu já demonstrei, por A + B, que os números que o senhor atribuiu aos homossexuais e não-religiosos estão ERRADOS, com uma somatória também errada. Da próxima vez, confira os dados oficiais antes de sair falando merda e atribuindo números mágicos de crescimento aos grupos.

A propósito, aproveite e aprenda a não reverter os seus erros. Quem começou errando ao associar automaticamente não-religiosos e homossexuais a liberalismo não fui eu, foi você. Portanto, essa reversão é só mais uma das suas armadilhas retóricas podres. Enfim, prossigamos.

Indo agora para o campo mais filosófico-sociológico da coisa, foi aqui que tive uma das experiências mais torturantes da minha vida, pois tive de encarar o desconhecimento completo de um sujeito despreparado que quis discutir a filosofia das relações sociais. Como não gosto de apenas ofender meus oponentes (apesar de esse merecer), prefiro mostrar tal despreparo.

Primeiro, Duff diz que o único modo de ser neo-ateu é nascendo e começando a criticar a religião, pois isso não é coisa nova. Fica clara aqui a desonestidade intelectual desse cidadão, que, apesar de discutir até hoje com religiosos e de eu ter explicado isso no meu texto, não entendeu que neo-ateu não é todo crítico das religiões, mas sim os críticos que o fazem como discurso de ÓDIO. 


O que quis dizer mostrando a diferença entre as críticas não foi fazer uma falácia genética, como Duff apontou, mas sim diferenciar um crítico que se foca no objeto que critica de um que se foca apenas na "opressão do sistema capitalista burguês da mídia alienadora". Concordam comigo que a primeira crítica é muito mais apreciável do ponto de vista filosófico?

Depois, vem o pior: Duff nos diz que não é preciso propor novos valores para criticar os vigentes. Mal sabe ele que os críticos que ele tanto louvou propuseram sim novos valores, que não criticaram com base em frustrações pessoais e, principalmente, que uma das bases de qualquer sociedade são seus costumes, seus valores, sua cultura. Cria-se literatura, música, arte em geral com base em valores. Fora isso, valores são também uma poderosa arma de coesão social, algo que, ao contrário do que muitos dizem, serve para bem mais coisas do que "para alienar o povo com a mídia opressora". Sinceramente, nem me digno a responder mais. Faltou estudo. Só isso. Isso se prova quando diz o seguinte:

Então vamos falar novamente do ponto central do seu argumento! Segundo seu raciocínio, não tenho que lutar contra homofobia, racismo, e violação do estado laico, porque segundo você tenho que empurrar outra coisa no lugar do racismo, homofobia e violação do estado laico". 

Como se esses valores fossem COMPROVADAMENTE os da sociedade atual, e como se fosse fácil definir "violação do Estado Laico" e "Homofobia".

Por fim, para fazer a "reflexão", Duff põe o medíocre vídeo "Aos Ateus de Areia", feito, sem dúvida, por ateus de merda que, como ele, pensam que não precisam de base filosófica nenhuma para criticar as religiões e que basta tirar valores e nada pôr no lugar. Isso fora o fato de eles rejeitarem um rótulo que foi inclusive aceito por mais de um autor neo-ateu, entre eles o autor de "New Atheism: Taking a Stand for Science and Reason".  Bom, deixo a resposta por conta deste texto do Luciano Ayan, que responde também por todos que consideraram esse vídeo o que ele é de fato: uma merda.

Agora para finalizar, rechaço de novo os dois textos do Duff, pois foram mal feitos e não se focaram na real questão. Não deve ser motivo de alegria ou preocupação se o conservadorismo está diminuindo ou não, mas sim as causas disso. Aliás, a própria alegação inicial dele (de que conservadorismo está caindo) pode ser refutada quando vemos o grande aumento no número de evangélicos neopentecostais (logo, conservadores radicais) e de seguidores de Bolsonaro e Olavo de Carvalho na internet.

Peço, também, para que o blogueiro carioca leia um pouco mais sobre filosofia e que leia também as obras dos críticos que citei para ver que o que temos não são "críticos da religião", mas sim um bando de adolescentes idiotas revoltadinhos com a mãe e inflados por professores comunistas mais idiotas ainda, que fazem os críticos religiosos da velha guarda parecerem uma espécie de gurus para babacas semi-alfabetizados frustrados com a vida.

Com isso em mente, e "por derradeiro", rechaço também o posicionamento de que "não interessa se o ponto de vista é pró ou anti-religião". MENTIRA. Interessa sim, especialmente porque, pelo menos hoje, pode dar uma pista das qualidades argumentativas do seu interlocutor. No caso, os anti-religião vêm me decepcionando muito mais.

Enfim, é isso, amigos leitores. Peço desculpa pela raiva e, para compensar a falta de explicação sobre o que é o "neo-ateísmo", deixo alguns links no fim. Eu NÃO VOU RESPONDER MAIS AO SENHOR PAULO SÉRGIO DUFF, pois cansei de passar raiva com tanta burrice e mau-caratismo intelectual. Que ele me desculpe, pois é um grande amigo, mas faltou estudo em TODAS as partes. Se ele quiser responder para ficar com a última palavra no debate, que o faça, pois provavelmente não refutará uma linha do que eu disse, assim como não refutou agora. Tudo o que demonstrou, aliás, foi falta de conhecimento e um hedonismo atrozes. (aliás, o que é "estar coagido"? Do que eu saiba, pode-se "estar acuado" ou "estar sendo coagido"?)

Bom, mais uma vez eu peço desculpas pelo tom da resposta, peço desculpa ao Duff se o ofendi, mas, sinceramente, não deu para aturar tanta desonestidade. Espero que continuem fiéis ao blog mesmo depois desse episódio, mas, mesmo se não continuarem, mando-lhes meu abraço do mesmo jeito!


Links:

Vídeo do Pirulla sobre Neo-ateísmo: http://www.youtube.com/watch?v=xcmNSgHuPRc 

Texto do meu amigo Renan, do Direitas Já, sobre o Neo-ateísmo: http://direitasja.com.br/2012/04/07/por-que-eu-nao-sou-um-neo-ateu/

Texto do amigo Emerson Oliveira (Logos Apologética) sobre Neo-ateísmo e (falta de) Filosofia:
http://logosapologetica.com/por-que-os-neo-ateus-atacam-a-filosofia-2/#axzz2QaOHHqL5

* Adendos:

Definições de SENSO COMUM:
http://www.dicio.com.br/senso/
http://www.dicio.com.br/lugar-comum/

14 de abr de 2013

O começo do liberalismo burro? - Duffinho ataca

Olá, amigos leitores, como vão? Hora de mais um dos nossos papos, certo?

Bom, como estou sem inspiração para começar as séries que havia prometido desde o início de Fevereiro (coisa que pretendo fazer até o fim deste ano, leitor, não se preocupe, rsrs), resolvi esperar até que ela viesse e ir estudando enquanto isso para falar sobre um dos temas da série sobre Política. Mas, como vocês sabem, vivo debatendo no Facebook e, dias desses, meu amigo Paulo Sérgio Duff, do blog Caldeirão de posts, publicou um texto no mínimo curioso sobre  conservadorismo no Brasil.

Sinceramente, Duff que me desculpe, mas fazia tempo que eu não lia tanta besteira junta em tão pouco espaço. Por isso, decidi fazer este post como resposta e abordar, um por um, os argumentos do blogueiro carioca. Antes, porém, aviso duas coisas. Aviso que:

1- Antes que algum leitor sofista venha reclamar, estão aqui meus parâmetros para definir "conservadores e liberais", algo que o próprio Duff rejeitou fazer mas em que, creio eu, seguimos o mesmo raciocínio, ou seja, de que liberal é todo não-conservador na questão dos costumes.

2- As minhas críticas ao Duff serão pesadíssimas, com esse peso tendo proporção direta com a raiva que senti ao ler o texto em questão.

Enfim, vamos aos trabalhos. Primeiro, o blogueiro carioca nos apresenta o objeto de sua reclamação: o discurso de conservadores cristãos (e ateus) contra os neo-ateus e/ou esquerdistas que pretendem mudar o mundo levantando cartolina na frente da Prefeitura ou comentando, sem embasamento filosófico-político algum, em vídeos feitos com menor embasamento ainda. Em seguida, ele reclama que "o senso comum pensa que, se você é conservador, logo X, se é liberal, logo Y".

Primeira coisa, vamos deixar bem claro, leitor: o senso comum NÃO PENSA sobre a oposição "conservador x liberal" nem sobre filosofia, nem sobre política, nem nada disso. O senso comum é o povo, e a lógica do povo brasileiro é simples: ter seus valores, impor indiretamente seus valores aos outros e nunca, por questão de comodismo, contestar esses valores. Isso vale para religiosos sincretistas que são católicos mas que tem "uma simpatia pelo candomblé", para cristãos que são também espíritas e apoiam o Aborto apesar de todos os cristianismos rejeitarem essa conduta, para neo-ateus que não se assumem marxistas mas querem porque querem "o fim da religião", o que trará, em sua ótica, "um mundo melhor", entre outros. A questão é uma só, Duff, meu amigo: o erro de conservadores, liberais e todos os outros é pensar que o senso comum, ou melhor, o POVO, pensa sobre essas questões, sendo que ele não tem tempo hábil nem paciência para isso.
 

Segundo, o argumento conservador não se foca no fato de se lutar contra o Conservadorismo em si ou contra o Cristianismo, pois liberais e revolucionários existem em todo lugar e lutam contra todo tipo de religião ou filosofia (trocando em miúdos, há liberais desde os budistas até os islâmicos). O ponto central do argumento é que se você não tem nada melhor para pôr no lugar do atual sistema, não lute contra este. Isso também vale para pessoas que simplesmente querem "pequenas mudanças" no sistema, como a aprovação do casamento gay e outras coisas. 

O detalhe que os anti-conservadores simplesmente não conseguem entender é que certas mudanças em um sistema, além de serem culturais e, portanto, covardes, também podem esfacelá-lo de uma vez só. Apesar de eu mesmo ser um defensor de direitos iguais para casais homossexuais, reconheço que, de fato, a aprovação do casamento gay como paradigma juridicamente e socialmente aceitável trará sim mudanças que podem literalmente destruir pilares essenciais à nossa sociedade. Isso, porém, discuto com mais calma quando for falar da questão gay no Brasil.

Terceiro, quando os conservadores lembram o neo-ateu babaca dos ateus intelectuais ou os revolucionários de sofá dos intelectuais, isso não é feito para dizê-los que os bons ficam quietos, também porque esse argumento seria tolo, já que eles geralmente não ficam quietos nem respeitam as opiniões e crenças alheias (também porque "opinião" culmina em filodoxia, não em filosofia). Os ateus intelectuais são usados porque suas críticas, além de originais em seus tempos, foram embasadas não em ressentimento, como é a crítica revolucionária atual, mas sim nos conhecimentos que tinham e que sempre procuraram expandir sobre essas doutrinas e sobre como funciona a sociedade.

Exemplificando melhor, quando se lê o Ética, de Spinoza (que nem ateu era, mas era um crítico das religiões monoteístas por estas pessoalizarem demais suas divindades), vemos que esse autor não perde tempo difamando seus adversários dentro do teísmo porque eles faziam parte do "sistema malvado e opressor", mas sim porque, segundo a lógica spinoziana, seria impossível a existência de uma divindade pessoal pois este traço (a pessoalidade) quebraria algum dos pilares lógicos em que se funda a existência divina. Com Nietzsche, em Assim Falava Zaratustra - Uma filosofia para todos e para ninguém e em Além do Bem e do Mal - Prelúdio de uma filosofia do futuro, vemos um caso parecido: quando o antiteísta alemão critica Cristianismo e Budismo, não o faz por estes serem partes de um sistema, mas sim por julgar suas doutrinas como fracas.



Com isso, é possível ver que o que dá razão aos conservadores de usar os ateus intelectuais é que nenhum deles, a não ser os marxistas, propõe o fim da religião ou a derrubada de um sistema. Aliás, quanto ao fim da religião, até mesmo nisso estes (os marxistas) estão divididos, pois o próprio Sartre diz em O Existencialismo é um Humanismo que se deve defender a liberdade do outro se se quiser assegurar a própria liberdade, deixando implícito, assim, que não deseja o fim das religiões.

Entendem o que quero dizer? A ironia de Duffinho é linda, mas é digna de uma pessoa com idade mental de 15 anos que não tem convívio suficiente com Filosofia para entender o porquê de as críticas conservadoras serem pertinentes.


Mesmo assim, o maior problema foi quando o cientista da computação usou números errados e chegou a "pelo menos 54 milhões de não-conservadores no Brasil, e com tendência a alta", o que pode ser desmentido ao examinarmos os números do censo IBGE 2010, que nos aponta de cara, por exemplo, a existência de mais de 123 milhões de católicos e  42 milhões de evangélicos em uma população de cerca de 190 milhões. Fazendo o cálculo direito, o que teríamos como GARANTIDAMENTE não-conservadores seriam 25 milhões de brasileiros, mas, ainda assim, isso só seria verdade se não houvessem não-cristãos, não-religiosos, ateus e homossexuais conservadores, mas há, e muitos.

Obviamente, há cristãos não-conservadores, como disse o blogueiro carioca. Porém, o que se deve especular é: será que eles são cristãos de verdade ou só se declaram assim por alguma conveniência? Afinal, por mais que teimem em dizer que é muito difícil averiguar quem é "de verdade" ou não no Brasil, é possível sim ver quando um cristão o é apenas na fachada, e isso inclui as pessoas que seguem mais de uma doutrina junto com o Cristianismo (Cristianismo-espírita, por exemplo, sendo que tanto o catolicismo quanto os protestantes e os mórmons, além de não permitirem consulta a mortos, não permitem, por questão lógica, que o fiel siga outra doutrina além da sua), ou de pessoas que, como Duff citou, contrariam a sua própria Igreja e apoiam a possibilidade de mulheres celebrarem atos religiosos ou de gays se casarem.

O detalhe, meus amigos, é que Duff se aproveita da falha de alguns cristãos (afinal, os grupos entrevistados pelos jornais geralmente são pequenos) e de dados cujas fontes ele não apresentou para executar um ataque, no fim das contas, medíocre aos conservadores, citando, para estragar de vez o bolo, uma pesquisa claramente tendenciosa que relaciona Q.I como inversamente proporcional a "ideias preconceituosas" (seja lá o que isso for).


Por fim, Duff ainda usa uma imagem que corrobora com a tese cristã de que o mundo está decaindo moralmente. Afinal, não há nenhuma garantia de que as pessoas da imagem sejam cristãs, nem de que o que façam seja apoiado por suas Igrejas. Aliás, olhem que curioso, a maioria das Igrejas condena o Carnaval, uma das práticas mostradas.

Tudo isso só vem nos mostrar que, no fim das contas, o problema continua sendo o fato de as pessoas declararem religião e não a seguirem. É isso, aliado a uma desonestidade intelectual flagrante, que permitiu ao blogueiro carioca alimentar a ilusão de que o conservadorismo está no fim, algo que qualquer um que saiba fazer uma pesquisa com fontes confiáveis e que saiba que amostragens de jornal podem falhar grosseiramente pode constestar.


Seria o texto de Duff, então, uma prova do começo do liberalismo burro em nossa sociedade? Ou é só mais fogo de palha  e desonestidade intelectual?

 

Enfim, leitores, espero que tenham gostado desse nosso papo. Peço desculpas ao Duff caso tenha pegado muito pesado e a vocês caso a fonte deste artigo saia estranha e/ou o texto tenha saído pouco coeso, mas, sinceramente, o texto a que respondi padecia desse defeito, então ficou difícil respondê-lo sem sofrer com o mesmo mal.

Bom, era só isso que eu tinha a falar por hoje, agradeço pela atenção e mando-lhes meu forte abraço.

7 de abr de 2013

Merchandising 3

Olá, caros leitores, como vão?

Bom, este é um post bem breve. Como já prometi alguns posts atrás, vou falar brevemente sobre a terceira série deste blog, que envolverá a obra "cotidiana" do filósofo e professor da PUC-SP e da FAAP-SP, Luiz Felipe Pondé.

Sendo bem sucinto, o que farei é pegar textos do Pondé e, como em Dialeticando com Luiz Felipe Pondé, discutirei algumas das suas ideias que eu considerar mais relevantes ou mais interessantes do ponto de vista filosófico, social ou político. Apenas para deixar claro, não usarei os mesmos argumentos do texto supracitado, exatamente porque meu posicionamento sobre ideologias e religiões está muito diferente agora. O que farei, no entanto, é contestar certas ironias do bom filósofo pucano.

Basicamente, os textos com que "dialeticarei" (e daí vem o nome da série, que é "Dialeticando com Luiz Felipe Pondé - O Retorno) vêm de três fontes distintas, sendo uma delas a coluna do Pondé na Folha de São Paulo, a segunda o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaios de Ironia, e a terceira o Contra um Mundo Melhor - Ensaios do Afeto, sendo os dois últimos os livros mais recentes publicados por Pondé, de 2012 e 2010, respectivamente.

Enfim, era só esse recado que eu queria deixar por hoje. Agradeço pela paciência do leitor, mando-lhe meu abraço e prometo postar algo mais interessante em breve.