31 de jan de 2013

De Frente com o Ateu: O Resumo da Ópera

E aí, amigos leitores, como tem ido a vida? Divertiram-se com este e outros blogs?

Bom, hoje, o post é curto em simples, pois é o post de encerramento da minha segunda série de posts completa (a primeira foi a do fim de 2011), os sobre Religião. Basicamente, vou listar aqui os posts que fiz em ordem e resumir, em poucas linhas, seu conteúdo. Aqui vai a lista:

Contestação e Merchandising, post em que apresentei a série e os temas que viria a debater depois.
Ateísmo (x Teísmo x Antiteísmo), um apanhado bem breve sobre minhas concepções dos limites entre o ateu e o antiteísta e do porquê de o ateísmo não ser religião nem ideologia.
Agnosticismo, post em que, seguindo uma definição para os termos, expliquei o que era agnosticismo e porque essa corrente não entra em conflito com o ateísmo.
Laicização, Laicismo, Laicidade, Secularização, um texto que serviu para demonstrar que as diferenças entre dois vocábulos ditos sinônimos, "laico" e "secular", ultrapassa os campos da "mera" semântica.
Adendo, ou, melhor dizendo, a explicação de porque a religião não pode acabar, e, consequentemente, porque o mundo ficaria pior sem a religião.
Religião e Caráter, usado para expor meu ponto de vista sobre o slogan da ATEA "Religião não define Caráter"
O Resumo da Ópera, post auto-explicativo (rs).

Como eu havia dito no primeiro post desta série, este post serviria para resumir a série e fazer o balanço geral. Assim sendo, eu diria que a experiência foi muito proveitosa, pois minhas pesquisas me levaram a uma maior compreensão do mundo. Além disso, mesmo que não tenham havido muitos comentários nesta série, o feedback foi muito intenso e o debate que eu quis propor aos meus leitores acabou sendo gerado de uma forma ou de outra.

Então, no geral, eu daria, entre 0 e 10, uma nota 8 para esta experiência, que pretendo repetir no futuro, mas com outros temas, claro. Inclusive, aproveitando a deixa, vou deixar aqui embaixo um espaço para as sugestões de assuntos para as próximas séries dadas pelos leitores.

Por fim, também quero um último feedback dos leitores. E então, amigos, o que acharam da série? Gostariam de ter visto mais pontos de vista sobre os temas que expus? Gostaram das referências que citei, ou acharam que faltou um pouco de referências mais sólidas academicamente falando?

Enfim, amigo leitor, dou-lhe a palavra e despeço-me mandando-lhe meu forte abraço e agradecendo-lhe por ter acompanhado esta série até o fim. Até mais.

26 de jan de 2013

De Frente com o Ateu - Religião e Caráter

E aí, amigo leitor, como vai?

Hoje será o dia em que, sem dúvida, eu terei de fazer "um exercício de dar linguagem a qualquer sofista", como disse uma vez meu amigo Chico Sofista, e vocês vão entender o porquê de eu dizer isso logo na sequência deste post, que é mais um daqueles sobre os quais falei em Contestação e Merchandising

Bom, há algum tempo a ATEA e outras agremiações de ateus e agnósticos vêm sendo alvo de críticas no Facebook, e isso se dá por basicamente três motivos: O fato de ambicionarem reunir os ateus como se fossem todos membros de uma ideologia (o que o ateísmo não é, como expliquei no meu primeiro post da série), o fato de o seu comportamento ser parecido justamente com o dos alvos de suas críticas, as religiões, pois há até "depoimentos de conversão", e suas constantes demonstrações não de quererem um tratamento igual ao dos religiosos, mas sim sua tentativa constante de colocar a religião um patamar abaixo do ateísmo com falsidades históricas e distorções teológicas e filosóficas.

Porém, como eu disse, esses três motivos são apenas a base da crítica, não sua totalidade. Assim sendo, decidi abordar aqui um ponto que talvez até mesmo a religiosos menos preocupados em defender sua religiosidade passe despercebido.

Como todos sabem, o slogan mais frequentemente utilizados por essas associações é o de que "Religião não define caráter". Eu mesmo, até quando ainda era deísta agnóstico, compartilhava todo orgulhoso essa "frase linda postada pelas associações dos ateus oprimidos pelos cristãos malvados".

No entanto, chega um dia em que se cai na real, meus amigos. Não quero, com isso, dizer de forma alguma que o slogan está errado e que deve ser jogado na lata do lixo dos argumentos. Não. O que digo, e provo a vocês, é que esse slogan é bem mais vulnerável do que pensava aquele que o criou e o tornou o carro-chefe da propaganda ateia pela primeira vez.

A primeira vulnerabilidade dessa frase é que ela não "verbaliza" o sujeito "Religião". Explico: ao colocar apenas "Religião" na função de sujeito, a frase acaba ficando sujeita a duas interpretações: ou declarar uma religião não define caráter, ou praticar uma religião não define caráter. Algum leitor mais perspicaz poderia fazer uma objeção dizendo: "Ora, Octavius, mas é óbvio que a frase deve ser interpretada como 'Ter uma religião não define caráter'. Não consegue ver isso, logo você, que diz que faz Letras e tal?"

A esse meu fiel leitor, provavelmente ateu, respondo que vejo sim essa interpretação, só que até mesmo ela ficaria ambígua e retornaria às duas interpretações que dei. Exemplo: se eu me declarasse católico hoje mesmo, seria o mesmo que dizer que eu tenho fé na religião cristã católica, ou seja, que eu TENHO uma religião, mesmo que da boca para fora. E se eu praticar princípios de fé cristã mesmo sem me declarar um crente de qualquer denominação, quem me ver de fora pensará que eu TENHO uma religião, pois a pratico.

Ou seja, a interpretação que o fiel leitor me mostrou continuaria "ambígua". Aliás, neologizando, eu diria até que seria uma interpretação "antrígua", pois esse "ter" ainda poderia significar "pertencer a". Ou seja, todo mundo que fosse batizado e que não tivesse pedido a excomunhão de sua religião ainda a teria, mesmo sem praticá-la. Eu mesmo, por exemplo, poderia me declarar "católico" sem problemas, pois já tenho pelo menos dois dos sete sacramentos sagrados comprovadamente "tomados" (no caso, o Batismo e a Eucaristia).

Mas, como todos vocês sabem, não é assim que a banda toca em lugar nenhum. Assim sendo, fiquemos com as duas interpretações que eu sugeri (e que são as mais coerentes). Agora, cabe-nos um exercício de lógica para demonstrar a falibilidade desse slogan.

Se tomarmos o primeiro sentido, o que diz que "declarar religião não define caráter", não há problema com o slogan. Afinal, em um mundo democrático, a declaração de religião é livre, ou seja, qualquer um pode "ter" a religião que bem entender. Assim sendo, como exemplifiquei acima, eu mesmo, se precisasse disso por algum motivo, poderia muito bem me declarar católico e quase ninguém me questionaria, também pelo fato de a  não-praticância de uma religião não ser  usada, no Brasil, para provar que alguém não é religioso, pois temos diversos "cristãos não-praticantes" pipocando por aí.

Com isso, vemos que a declaração de uma religião não quer dizer nada além de que a pessoa se declara religiosa. Aliás, pode-se até interpretar essa "religiosidade da boca para fora" como um sinal de mau-caráter, pois, como bem dizem os religiosos sérios que conheço, "Não é Deus que deve te servir, mas sim você que deve servir a Deus". Também por isso que não me declaro católico sob circunstância alguma: por não acreditar no Deus cristão, e consequentemente por não praticar a fé católica

Bom, enfim, creio que a explicação para o fato de não haver problemas com o slogan se tomado no primeiro sentido já é suficiente. Porém, se tomarmos no segundo sentido, a frase é facilmente refutável e, portanto, altamente vulnerável a críticas.

Praticar uma religião define caráter? A resposta para essa pergunta é sim, pois toda religião tem um extenso código moral a ser cumprido pelos seus fiéis. Assim, quando eles cumprem esse código, com suas permissões e restrições diversas, não importa se os não-fiéis concordam com o código ou não, o fato será que, de fato, haverá sim um caráter definido aí, e um caráter pautado justamente pela religião.

Assim sendo, ao usar essa frase, o movimento dos ateus pode trazer para si não mais simpatizantes, mas sim mais odiadores. Afinal, ninguém é obrigado a receber com um sorriso no rosto quem lhe diz que ele não tem caráter mesmo praticando a religião que declara. Inclusive, essa é a interpretação que muitos ateus dão a essa frase, e por isso a rejeitam fortemente.

Alguém ainda poderia perguntar: "Ora, mas por que esses religiosos têm de inventar de interpretar a frase de outro jeito?". A isso, há uma resposta simples: Porque a frase é incompleta, ou seja, ela não é clara o suficiente para ser plenamente entendida. Tanto em cursos de Letras quanto na Internet, uma das primeiras lições que aprendemos é que ninguém é obrigado a entender o que você não escreveu e que, portanto, deve-se sempre dar ao leitor todas as informações de que precisa para interpretar o texto como o seu autor deseja.

Ou seja, para não dar margem ao mau entendimento, o correto a se fazer é deixar a frase mais clara quanto for possível. Afinal, "Declarar uma religião não define bom caráter" ou até mesmo "Ateísmo não define mau caráter" soam-me slogans bem menos vulneráveis a más interpretações do que o paupérrimo (do ponto de vista semântico e pragmático) "Religião não define caráter".

Enfim, o que acontece é que, na ânsia de atingir as massas, esses movimentos fazem seus slogans na pressa e economizam palavras. Porém, o que eles esquecem é que uma coisa é o processo de Economia Linguística, ou seja, o de substituir palavras por outras com menor número de sílabas (por exemplo, trocar o português "espetáculo" pelo inglês "show"), que, apesar de perigoso (explico isso em outra ocasião), não é muito danoso ao entendimento de uma frase, e outra coisa é suprimir palavras de uma frase na qual elas são absolutamente necessárias para a boa compreensão da mensagem que se deseja passar.

O detalhe é que, ao invés de contar com o que diz o dito popular, ou seja, que "para bom entendedor, um pingo é letra/meia palavra basta",  devemos, quando formadores de opinião ou representantes de alguma causa, sempre lembrar de que há os maus entendedores, ou seja, aquele que só vai entender palavras completas, o que é a coisa mais normal do mundo, convenhamos.

Bom, era isso o que tinha para conversar com os amigos leitores que tiveram a paciência de me aturar até o fim deste post. Vou deixar links que encontrei aqui embaixo e despedir-me de vocês.

Enfim, agradeço à atenção dos amigos leitores, mando-lhes meu forte abraço e até o próximo papo!

Links:

Primeiro post da Série sobre Religião: http://adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2012/12/de-frente-com-o-ateu-ateismo-x-teismo-x.html

"Religião não define Caráter" slogan da ATEA: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://pensandoavida.com/blog/wp-content/uploads/2011/07/Atea_religionodefine.jpg&imgrefurl=http://pensandoavida.com/blog/2011/07/28/religiao-nao-define-carater/&h=282&w=600&sz=113&tbnid=nBrFm7ctP1nQ9M:&tbnh=56&tbnw=120&zoom=1&usg=__R0trYBKYIR0_0bfRHTSZq3xrWS4=&docid=qqqgnnC_AHB7-M&hl=pt-BR&sa=X&ei=NT0DUeaeLeSL0QGDgoGICA&ved=0CDAQ9QEwAA&dur=2162

Campanha da ATEA é barrada em Porto Alegre: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2010/12/religiao-nao-define-carater-diz-campanha-de-ateus-3147266.html
(PS: Não, Hitler não era cristão, ok?)

Post fantástico da Anja Arcanja sobre a questão: http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/08/religiao-nao-define-carater-mas.html

Outras coisinhas sobre o assunto em questão:
http://www.ditopelomaldito.com/2012/02/religiao-nao-define-carater.html
http://www.atea.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=225 (posicionamento da ATEA sobre a questão. Confesso que não gostei, rs).
http://oculossobreamesa.blogspot.com.br/2011/07/religiao-nao-define-carater.html
http://gospelbrasil.topicboard.net/t5982-religiao-nao-define-carater

19 de jan de 2013

De Frente com o Ateu - ADENDO

E aí, amigos leitores, como foi a última semana para vocês?

Esse, como vocês já perceberam pelo título, é o meu quarto post da série sobre Religião, aquela sobre a qual falei brevemente em Contestação e Merchandising. Bom, como sabem, eu havia dito, no post anterior, que juntaria dois temas que havia deixado separados no post supracitado. Entre esses dois temas, havia uma espécie de "Adendo-Surpresa" que se seguiria ao terceiro post, e que eu só revelaria no próprio post Adendo, após ter empreendido a discussão que queria no terceiro post.

Porém, antes de falar sobre o que será este post, preciso contar o que me inspirou a fazê-lo, e preciso falar que pelo menos duas pessoas com quem converso, meus amigos Clarion de Laffalot, do canal "O Fantástico Mundo de Clarion", e Chico Sofista, do blog "Vida Sofista", irão discordar forte e francamente de mim. Enfim, vamos aos trabalhos.

Há mais de um mês, o Clarion lançou um vídeo que chamou de "Crítica aos Ateus", vídeo que ganhou grande repercussão no Facebook dele e de alguns outros vlogueiros ateus. Pouco depois disso, o Yuri Grecco, do canal "Eu, Ateu", soltou um vídeo em resposta ao vídeo do Clarion. O Clarion, então, replicou com um vídeo chamado "Crítica aos Ateus - Parte 2", e o Yuri preferiu não responder (talvez porque tenha concordado, ou sei lá, rs).

Entretanto, a discussão não parou por aí. O Pirulla, vlogger bem conhecido e admirado por muitos, viu os três vídeos e resolveu fazer um vídeo com os argumentos que os ateus não deveriam mais usar, vídeo que gerou uma resposta do vlogger Júnior, do Canal AntiFé, e um adendo posteriormente.

Ainda assim, não foi essa discussão que me motivou a escrever este texto. O que me motivou a isso foi perceber que, dos quatro vloggers envolvidos (Pirulla, Clarion, Júnior e Yuri), três afirmaram categoricamente que "o mundo seria muito melhor sem a religião". E, sinceramente, me desculpem Clarion, Júnior e Yuri, mas eu só posso discordar e até ficar incomodado com uma afirmação dessas. Por isso, dedicarei este post a expor algumas razões pelas quais não quero o fim da religião exatamente por achar que, sem ela, o mundo estaria pior.

O primeiro motivo para a minha recusa ao fim da religião (organizada ou não) é uma questão que o Pirulla quase sempre menciona em seus vídeos, que é a função prática da religião na vida das pessoas. Sejamos sinceros aqui: Muitas vezes, a fé em uma divindade se revela não ao lermos um argumento super foda pró-Deus, ou quando vemos as besteiras feitas por muitos estatistas ateus ou ainda as besteiras que uma certa associação brasileira de ateus posta no Facebook. Não é por isso que o "povão", "a massa", crê em Deus, especialmente porque a massa desconhece essas discussões. A crença em Deus aparece e fica mais forte em situações difíceis, como na perda de algum familiar ou ente querido, que é quando mais precisamos de CONSOLO, um consolo para continuar vivendo e pensando que o ente foi para um lugar melhor. E isso, meus amigos, dificilmente o Estado ou qualquer outra instituição fará pelos cidadãos. Já a religião faz isso muito bem, convenhamos.

O segundo motivo é a CARIDADE. Vou citar um exemplo aqui mesmo de São José do Rio Preto. Além das associações de caridade já tradicionais da Igreja Católica (entre elas o famoso Lar São Vicente de Paula), talvez a instituição de caridade mais famosa de Rio Preto seja o centro espírita Ielar, que abriga dezena de pessoas e crianças em seus centros de ajuda comunitária. Inclusive, eles também são os responsáveis por algumas creches na Zona Norte de Rio Preto, creches totalmente voluntárias nas quais as crianças são bem cuidadas durante a semana e os pais ainda podem, se precisarem, aprender uma profissão em cursos voluntários.

A isso, porém, reconheço que existem duas objeções possíveis. A primeira seria a de que não se deve fazer nada em nome de algo falso, mesmo que sejam atos de caridade. Pelo menos para mim, essa objeção não faz o menor sentido tanto porque é difícil cravar com certeza absoluta qual religião é verdadeira quanto porque a caridade não traz danos, mas sim benefícios às pessoas.

A segunda seria exatamente a de contrariar essa minha afirmação e dizer que, na verdade, "a caridade só acomoda as pessoas, que preferem se manter na pobreza a trabalhar para ter coisas melhores". Ora, sejamos honestos aqui: acomodar-se é um traço cultural de qualquer brasileiro. Não é a religião nem a caridade que causam acomodação, mas sim o fato de a nossa cultura já ser acomodada. Portanto, a premissa dessa objeção ao meu argumento claramente não se sustenta. E isso porque só estou falando do Brasil neste caso. A própria ICAR mantém milhares de obras de caridade em vários lugares do mundo, e em especial no continente africano.

Enfim, há um último motivo pelo qual não quero o fim da religião, mas esse é bem mais ligado a uma outra discussão. No caso, a acusação que se faz contra as religiões é que elas alienam todo mundo. Quando falo de alienação, falo obviamente do sentido que os marxistas (e não Marx, frise-se) atribuem a essa palavra, ou seja, colocando algo, no caso a religião, como causa do desinteresse por questões sociais e políticas. O caso é que isso também é um traço da nossa cultura, e esse traço não tem o dedo da Igreja e nem de qualquer outra religião. A religião é responsável sim, mas por outra coisa, que, de fato, é de suma importância para a nossa convivência, que é exatamente o fato de a religião trazer a coesão social, ou seja, de unir as pessoas em torno de um objetivo na maioria das vezes bom. Ou seja, religião não aliena as pessoas, pelo menos não no sentido que os marxistas dão à palavra.

Podem até dizer que estou sendo ingênuo aqui, e talvez eu esteja mesmo sendo. Porém, a causa que eu atribuo à perseguição sofrida por grupos minoritários, peso que normalmente recai sobre as religiões, não está no fato de os brasileiros serem religiosos. Se assim fosse, não existiriam ateus racistas ou homofóbicos, por exemplo, o que de fato existe. Também se o problema fosse religião, não ocorreriam brigas entre torcidas de futebol ou militantes de partidos T, SDB e outros.

A questão é que o ser humano, e o brasileiro mais ainda, não aprecia as discordâncias. O detalhe é que, no Brasil, isso vai a um nível extremo. Nosso foco, então, não deveria ser acabar com uma causa que gera discordância (a religião), mas sim tentar mudar o modo como o brasileiro reage contra quem dele discorda. Não é acabando com a religião que vamos acabar com qualquer dos outros preconceitos. Dando o exemplo do preconceito contra ateus, todo mundo poderia virar automaticamente teísta e pensar mal desse grupo do mesmo jeito. Como bem diz o Pirulla, até podemos apertar, mas temos que lembrar que somos o lado fraco da história. Imposição de minoria sobre maioria não funciona. Como diria meu nobre amigo Guilherme Tomishiyo, não é brincando de fascismo de estado que se ganha qualquer coisa. Aliás, no caso das minorias, perde-se muito mais do que se ganha.

De tudo isso, é possível concluir que o fim da religião não faria o mundo melhor de forma alguma, pois, além de perdermos um bom instrumento de coesão social (talvez o único item em que a religião possa ser trocada por outra coisa com a mesma eficiência), perderíamos também algo que o Estado, a Política e a Ciência dificilmente trariam de volta, que é o consolo e a caridade que permitem às pessoas uma sobrevida, por mais curta que seja.

Enfim, não sei se meus pontos ficaram muito claros aqui, mas essa é a minha argumentação. Vou linkar os canais, os vídeos e o blog que citei no fim do post.

Bom, é isso, fico por aqui com o quarto post da série sobre religião, agradeço aos amigos leitores pela paciência e mando-lhes meu forte abraço. Até a próxima, gente.

Links:

Canal do Pirulla: http://www.youtube.com/user/Pirulla25?feature=g-high-lik
Canal do Clarion: http://www.youtube.com/user/ClarionDeLaffalot
Canal do Yuri: http://www.youtube.com/user/EuAteu
Canal AntiFé: http://www.youtube.com/user/CanalAntiFe
Canal do Guilherme Tomishiyo: http://www.youtube.com/user/Tomishiyo?feature=chclk

Crítica aos Ateus:http://www.youtube.com/watch?v=dJnewA8L2vQ
Resposta do Yuri Grecco: http://www.youtube.com/watch?v=FSCic8H2l94
Crítica aos Ateus (Parte 2): http://www.youtube.com/watch?v=2BTOFeE4zRA&list=UUoIBn8OiF8-1Vho3dUkSDYQ&index=10
Argumentos que ateus não deveriam mais usar (Pirulla): http://www.youtube.com/watch?v=qC-Rwm8ueQo
Resposta do AntiFé ao Pirulla: http://www.youtube.com/watch?v=GNGkfhZOMWc
Adendo do Pirulla: http://www.youtube.com/watch?v=5u_dAUCQbFc

Blog Vida Sofista: http://vidasofista.blogspot.com.br/

12 de jan de 2013

De Frente com o Ateu - Laicização, Laicismo, Laicidade e Secularização

Olá, amigos leitores que acompanham este blog. Como estão?

Este é mais um post daquela minha série de posts sobre Religião sobre os quais falei em Contestação e Merchandising. Caso vocês releiam o post, verão, no final dele, que havia uma programação que dizia qual seria a ordem dos posts. Porém, para economizar postagens, pois não tenho muito a falar sobre ambos os temas, decidi unir, em um mesmo texto, os itens 3 e 4 sobre os quais havia me proposto a falar.

Caso deem um "scroll down" até o finzinho do post, também verão uma sugestão de tema dada pelo meu amigo Alex Pina para esta série. Falo sobre ela porque sinto que devo dar uma satisfação ao Alex pois não vou abordar especificamente esse tema em um post. Quero deixar claro, porém, que não o farei simplesmente porque, nesses três próximos posts que encerram a série, acabarei abordando esse assunto de um jeito ou de outro e de uma forma até ampla, eu diria. Também quero aproveitar e esclarecer que não vou discutir, neste post, sobre "Estado Laico" e as "Ameaças ao Estado Laico", pois quero empreender essa discussão em uma outra série de posts, essa mais voltada para a política, mas sobre a qual ainda demorarei a lhes falar.

Bom, terminados esses esclarecimentos, é hora de partir para a dissertação sobre o tema. Não foram poucas vezes que ouvi falar e até falei que queria um "Estado secular" ou um "país laico", ou mesmo uma nação "laica e secular". Eu mesmo, no meu auge de neo-ateísmo, já cheguei a argumentar contra as "atrocidades religiosas" e a favor do "secularismo no Estado". Esse, porém, deve ter sido, se não o maior, um dos maiores erros conceituais que cometia.

O leitor pode me contestar perguntando: "Ei ei ei, como assim, Octavius? Eu fui no dicionário na internet, naquele que você sempre indica, e vi que 'laico', 'leigo' e 'secular' são a mesma coisa. Justo você, que recorre tanto ao dicionário, vai querer desafiá-lo agora?"

A esse perspicaz leitor, respondo: Vou, vou desafiar o dicionário, e explico o porquê. Quando se lida com vocabulários sem um sentido específico e sem um contexto de uso, o dicionário é, de fato, a melhor opção. Porém, quando se lida com filosofia, política, economia, biologia ou qualquer outra das nossas chamadas "ciências", devemos sempre lembrar que as palavras não se isolam do seu contexto de uso. Trocando em miúdos e explicando melhor, em ciências, especialmente em ciências humanas, não se pode usar as palavras que queremos quando queremos, mas sim apenas quando elas forem coerentes com o contexto em que as usamos.

Ainda assim, não provei qual é o erro em falar "Estado secular" ou "país laico", ou "nação laica". Para isso, farei primeiro uma distinção entre Estado, Nação e País.

Basicamente (e deixarei um link com uma explicação bem simples sobre essa distinção), Estado é a forma de organização política da sociedade. Já Nação é a sociedade em si, ou seja, cada comunidade que tem uma língua padrão para comunicação e que tem costumes-padrão. Por último, País é todo território que é habitado pela comunidade e que tem fronteiras políticas. Assim sendo, podemos resumir que ao referirmo-nos a Estado, Nação e País, estamos nos referindo, na verdade, à organização política, à sociedade e ao território respectivamente.

Por que eu fiz essa distinção? Porque, primeiro de tudo, podemos perceber, com isso, que é impossível um país ser laico ou secular, especialmente porque, pelo menos do que sabemos, a Terra não tem capacidade de raciocinar. Ou seja, a não ser que você seja um desses caras que acredita, sei lá, em "chakras", em "mãe-natureza criadora" ou em outra coisa do tipo, não tem como dar rótulos que requerem RACIONALIDADE a países.

Segundo, fiz essa distinção porque ela será essencial, junto à segunda distinção, para finalmente pararmos, de uma vez por todas, de brigar por causas sem sequer saber pelo que brigamos.

Bom, a segunda distinção que faço é, então, entre "laicização" e "secularização". Pelo sufixo "-ação", podemos constatar que ambos são processos pelos quais alguma coisa passa. No caso, a laicização é o processo POLÍTICO de separação entre o Estado e a Religião. Ou seja, quando se briga pela laicização, luta-se por um Estado Laico. Dentro do grupo de quem defende a laicização, temos os defensores da "laicidade", ou seja, quem apoia que, além de desvinculado das religiões, o Estado seja neutro quanto às religiões e, portanto, parafraseando a nossa Constituição Federal, não deve financiá-las, mas também não deve proibir ou embaraçar suas manifestações, e os defensores do "laicismo", ou seja, aqueles que têm uma postura mais agressiva e de oposição à existência em si mesma das religiões, algo que me soa, inclusive, como o famigerado "antiteísmo" sobre o qual comentei no primeiro post desta série.

Já a secularização é um processo que tem maior relação com a sociedade em si. Secularização é a gradual perda de espaço das religiões na esfera da vida pública, passando a serem mais importantes na vida privada. Também é característico que as sociedades secularizadas tenham uma moral um pouco mais distante de princípios religiosos, ou, melhor dizendo, que adotem certos princípios morais não porque a religião C, M, J, H ou B as forçou a isso, mas sim por outros motivos. Assim, quando se fala em secularização, fala-se em Nação Secular. 

É sempre bom lembrar, porém, que não é necessariamente a laicização do Estado nem a secularização da sociedade que trazem quaisquer tipos de avanços sociais. Podemos ver, inclusive, que alguns dos países (unidades territoriais habitadas por comunidades com cultura própria) que têm os maiores IDHs são nações teocráticas (Israel, Kuait e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, figuram entre os 40 maiores IDHs), não-laicas ou pouco laicas (A Noruega ocupa o 2º lugar, por exemplo, e tem o Estado oficialmente ligado à Igreja Luterana), e pouco secularizadas (Os EUA, apesar de serem um estado laico, não são uma nação secularizada de forma alguma).

É também bom lembrar que, muitas vezes, nem tudo o que reluz é ouro, ou seja, nem toda ideia que parece boa trará só bons frutos. Meu amigo Emerson Oliveira, do site Logos Apologética, é um que não só se opõe à completa secularização da sociedade como mostra frequentemente, tanto em seu perfil quanto no blog do Logos, os resultados da secularização em alguns países. Eu, por exemplo, fico quase neutro nessa questão, pois, ao mesmo tempo que não veria problema nenhum em secularizar a sociedade, também não acho que grande coisa vai mudar em um mundo secularizado.

Além disso, caros leitores, sejamos nós defensores apenas da laicização, apenas da secularização ou de ambas, é sempre bom lembrar que estamos em uma democracia, que é um regime que deve prezar pela liberdade de expressão e de pensamento de TODOS, e que uma política pública errada adotada pelo Estado leva a catástrofes e a vexames históricos dos quais nunca nos livraremos.

Enfim, era isso que eu queria discutir hoje com vocês. Vou deixar algumas referências para que vocês comecem a pesquisar por si próprios e formem suas próprias concepções sobre esse tema delicado. Despeço-me por aqui e deixo hoje não só o meu forte abraço a todos os leitores como também lhes aconselho a serem sábios quando forem decidir o que vão fazer com o conhecimento que forem adquirindo. Enfim, fica aqui meu forte abraço, amigos leitores!

Links:

Explicação do professor Newton Almeida sobre Estado, Nação e País: http://geografianewtonalmeida.blogspot.com.br/2011/03/estado-nacao-territorio-pais.html

Artigo excelente sobre Laicidade, Laicismo e Secularização (por César Alberto Ranquetat Júnior): http://cascavel.cpd.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/sociaisehumanas/article/viewArticle/773
(cliquem para fazer download do pdf)

Tabela com o IDH 2012 das nações: http://www.sempretops.com/informacao/idh-mundial-tabela/
Sobre a Igreja da Noruega: http://www.noruega.org.br/About_Norway/policy/Populacao/general/church/
Site "Logos Apologética": http://www.logosapologetica.com/


7 de jan de 2013

Docência e Adolescência (Argumentativa)

E aí, amigos leitores? Como vão as vossas merecidas férias?

Bom, hoje eu vou ter que lhes pedir desculpas antecipadamente, pois serei radicalmente infiel às minhas propostas neste blog. Como vocês todos bem sabem, eu sempre ressaltei que o objetivo deste blog não é criticar pessoas, mas sim grupos e suas ideias quando estas me parecerem incoerentes com a realidade. Porém, as atitudes que um professor e linguista da UnB, o doutor Marcos Bagno, vem tomando no Facebook incomodam-me profundamente, e é sobre essas atitudes que falarei neste texto. Por isso, peço-lhes desculpas, mas vou ter que quebrar essa minha regra, por ser um caso que eu chamaria de "caso de vida ou morte intelectual", e vocês vão entender porque em breve.

Antes de tudo, quero explicar duas coisas. A primeira delas é que eu simplesmente adoro o trabalho do linguista Marcos Bagno (não o conheço como professor) quando este se propõe a falar sobre Linguística. Junto com Sírio Possenti, linguista da UNICAMP, o professor Bagno é, sem dúvida, quem eu considero autoridade no assunto. Os textos de ambos são acessíveis, fáceis de ler e fáceis de compreender até mesmo para um leigo, o que, em termos de divulgação científica, é excelente.

A segunda coisa é uma explicação ao próprio professor Bagno, caso ele venha a ver este post. Gostaria de falar-lhe, professor, que seu crítico é ateu, apolítico, liberal (nos costumes) e, falando a grosso modo, "linguista" (por preferir a Linguística à visão Normativa sobre Gramática). Portanto, por mais que eu acabe sendo um pouco grosseiro em algumas partes do texto, espero que o receba não como uma censura, mas sim como uma crítica construtiva ao seu modus operandi*, se assim posso dizer.

Por que eu expliquei tudo isso? Porque, apesar de ser um fã do professor, não posso, por uma questão de honestidade intelectual mesmo, concordar com algumas atitudes que ele tem tomado tanto em seus artigos quanto em seu perfil de Facebook quanto aos seus opositores, sejam eles intelectuais ou "meros" alunos. Por isso, decidi usar este espaço para pelo menos tentar alertar o professor sobre seus erros e sobre as prováveis consequências de seus erros argumentativos.

Primeiro, todos aqueles que já trabalharam pelo menos uma vez com a Linguística sabem que, no meio acadêmico, ela é considerada como ciência. Inclusive, o próprio professor defende-a com unhas e dentes exatamente por ser um método mais científico de análise da língua.

No entanto, a defesa de Bagno apresenta dois problemas transparentíssimos para qualquer um que já tenha lido duas ou três páginas sobre o que é ciência. Ao fazer suas defesas, Marcos Bagno ora toma a ciência como sua ideologia, e peca por desconsiderar que ciência não é ideologia, já que esta tem mais a ver com crenças pessoais ou grupais e aquela é uma das formas descobertas pela humanidade para a busca do conhecimento, ora ele insere traços de seu comunismo (sua ideologia) declarado em seus textos, esquecendo, também, que, ao ideologizar uma ciência, além de não respeitar os critérios mais básicos de metodologia científica, ele corre o risco de restringir seus conhecimentos ou sua ciência apenas ao grupo que siga a mesma ideologia, o que, em termos de conhecimento, é inaceitável.

Fora isso, Marcos Bagno cai em contradição quando despreza os normativistas por não terem embasamento científico (mas sim filosófico) para suas teses mas, ao mesmo tempo, defende as ideias de vários filósofos da linguagem. Estranho, não?

Aliás, é quando ele mostra o seu desprezo pelos normativistas que comete talvez seu maior erro. Marcos Bagno, ao atacar a visão Normativa de Gramática, apela sempre para a "idade das ideias". Explico: Muitos afirmam que foram vários filósofos gregos (ou seja, gente que viveu há pelo menos 2300 anos) que teorizaram e primeiro aplicaram essa visão à língua. O professor, então, se aproveita da antiguidade dessa linha de pensamento para inferir que está errada, ou que deve ser descartada.

Porém, o que o professor pelo visto ignora, ou não sabe, é que o que ele está fazendo é uma falácia chamada Argumentum ad Novitatem (Em Latim Clássico: Argumentum ad Nouitatem; Em Português: Apelo à Novidade), e que, por consequência, não é a "idade" de uma ideia que deve ser levada em conta quando se argumenta contra ela. Se for assim, então, teremos que banir a própria Língua Portuguesa do nosso país, afinal, ela mesma já conta seus 800 e poucos anos. O que quero demonstrar aqui é que o argumento de idade, quando assim colocado, é reduzido ao que ele é de fato: uma tolice. Deve-se argumentar contra ideias, claro, mas com base em sua eficiência social (ou seja,  se essa ideia vem dando certo para a sociedade) e na lógica da qual elas derivam.

Porém, o uso dessa falácia não para por aqui. Marcos Bagno também faz o mesmo com a moral cristã, outro objeto de seus ataques. Neste caso, o professor, exatamente por não ser filósofo ou teólogo, acaba cometendo erros ainda mais grosseiros. Além de usar a já referida falácia, o linguista ainda comete o que chamamos de "Falácia do Espantalho", pois distorce totalmente a visão cristã sobre a vida e a acusa de homofóbica e preconceituosa.

Para refutar o dizer "a moral cristã é preconceituosa", basta informar ao professor que não se trata de preconceitos, mas sim de conceitos bíblicos, e que, em um Estado Laico, é completamente legítimo defender sua moral religiosa em público desde que se dê esse direito também às outras religiões, o que, até onde eu saiba, acontece de uma forma ou outra.

 Já para refutar o dizer "a moral cristã é homofóbica", basta mostrar a definição de homofobia, que seria "o ódio extremo aos homossexuais" e não "toda e qualquer crítica ao comportamento homossexual". Bagno também cai no erro de afirmar que chamar alguém de pecador é o mesmo que demonstrar ódio. O detalhe é que essa informação não procede por duas razões:

1- Pecado é conceito bíblico e, portanto, não há como alguém que se diga cristão não chamar de pecadores  aqueles a quem sua moral dá esse rótulo. Cercear-lhes esse direito seria passar por cima da lei de liberdade religiosa, o que só se fez e só se faz em regimes comunistas.

2- Na própria Bíblia, existe um trecho em que se diz qual deve ser a atitude do cristão ante o homossexual e ante à homossexualidade: deve imperar o respeito e a inserção dos homossexuais na comunidade. Se alguns agem em desacordo com o que dita essa moral, ela não se torna errada. Aliás, isso só prova é que quem está agindo errado não está agindo por princípio religioso, mas sim por achismo sobre os desígnios divinos.

Assim sendo, fica claro que, ao contrário do que diz nosso professor, a moral a que ele se opõe não é tão horrenda assim, pelo menos não perto de outro costume bagnista, que é o de desmerecer o papel religioso e social da Igreja e de Bento XVI por causa da idade deste. Porém, sobre este nem vou comentar muito tanto porque já expliquei o erro deste tipo de raciocínio alguns parágrafos atrás e porque agora vou passar a comentar as ATROCIDADES argumentativas do professor.

A primeira delas é a de rotular todos os que discordem dele de "reacionários", "conservadores", "homofóbicos" ou "defensores do atraso". O que Marcos esquece é que os valores que ele defende não necessariamente garantem sequer a sobrevivência da humanidade, quanto mais qualquer tipo de progresso. Aliás, só de ver o número astronômico de mortes que ocorreram nos lugares em que se adotou ideias do ídolo-mor de Bagno, Karl Marx, fica perceptível que essas ideias são nocivas a quase qualquer tipo de sociedade. Além disso, desmerecer os argumentos de alguém por rótulos que você lhe deu é, sem dúvida, a forma mais argumentativamente bizarra possível de Argumentum ad Hominem (Ataque ao argumentador), algo que, por si só, já serve como indício não só da qualidade dos argumentos de quem comete essa falácia como também muito provavelmente aponta sua idade mental.

A segunda delas, e não menos bizarra, é a de apelar constantemente a autoridades sem demonstrar porque essas autoridades estão certas. Explico: é de praxe do professor citar o nome de um ou dois filósofos da linguagem em um argumento para tentar fazer o interlocutor com quem debate aceitar sua linha de pensamento. Porém, qualquer um que tenha a mínima noção sobre como se deve argumentar sabe que não basta citar o nome do filósofo, deve-se mostrar também de que premissas ele parte para chegar na conclusão de que a ideia A, B ou C é válida.

A terceira das atrocidades é a de, em um gesto de pura arrogância intelectual, se recusar a debater com determinados filósofos por eles serem "reacionários". Isso, além de um ser um ad hominem bizarro, pode ser entendido também como incapacidade de refutar quem o contesta. Vou dar um exemplo: já há algum tempo, os opositores de Bagno linkam em suas postagens textos do professor Olavo de Carvalho em que este contesta algumas visões do linguista da UnB. Porém, ao contrário do que quem tem preconceito contra os olavistas e contra o Olavo pensa, os pontos que Olavo levanta em seus textos são bem coerentes e mereceriam sim uma apreciação maior por parte não só de Bagno como de outros acadêmicos da área. Mas, Bagno prefere rotular o seu adversário e negar aprendizado aos dois lados, tanto a normativistas quanto a linguistas, além de nos negar a oportunidade de ver um debate que, sinceramente, poderia ser muito produtivo para todos, inclusive para a reputação de ambos os contestadores.

Eu falaria também sobre os apoios velados à censura da mídia, sobre o fato de mandar "à merda" quem o contesta, mas prefiro mostrar essas atrocidades no fim do post com algo que fiz em cima de algumas postagens do professor no Facebook e que chamei de "Guia 'Democrático'-Bagnista". O que importa aqui, no entanto, não são as atrocidades, mas sim as consequências delas: além de demonstrar que, argumentativamente falando, o professor ainda não passou sequer pela adolescência, atitudes como essa acabam não só queimando o filme de todos os partidários da Linguística como também acabam gerando mais opositores a essas ideias. Não é com um discurso agressivo   e até mesmo anti-científico que se consegue fazer alguém tomar o lado da Linguística, mas sim debatendo com respeito e explicando com clareza as ideias dessa ciência. Não é com coerção, com intimidação, caro professor, que se faz ciência e que se faz alguém tomar gosto por uma ciência.

Bom, isso era tudo o que eu tinha para falar ao ilustre professor e a vocês, amigos leitores. Como já sei que vocês entendem perfeitamente muitos dos meus pontos de vista, espero apenas que Bagno os entenda e que tome minhas críticas não como demonstração de ódio, mas sim como as críticas de mais um que se esforça por fazer de qualquer debate um lugar para adquirir conhecimento, não para inflar o próprio ego. Vou deixar abaixo o Guia que fiz e uns links com as falácias que citei ao longo deste post.

Enfim, agradeço pela paciência dos que leram este post até o fim e mando-lhes meu forte abraço, amigos leitores.

Guia "Democrático"- Bagnista

Lição 1: Todos os meios de comunicação deverão ser regulados.... menos quando falarem mal do Papa, das religiões ou dos "reaças-católicos-homofóbicos-racistas-conservadores- vá à merda"

Lição 2: Ao invés de responder dignamente a uma pergunta que se oponha às teses defendidas por você, rotule quem pergunta de "fascista", "antidemocrático" ou "conservador" e, para completar, ridicularize-o se falar uma variante muito culta

Lição 3: Lembrar sempre que a Lição 2, com certeza, não vai queimar o filme daqueles que defendem as mesmas ideias que você nem das ideias que são defendidas. Afinal, foi-lhe revelada a verdade absoluta do comunismo-marxista-antiteísta que, pelo visto, 95% da população não aceita. Mas isso é porque são todos reaças, óbvio

Lição 4: Se as pessoas não acatarem de cara suas ideias sobre política ou sociedade, compartilhe textos e mais textos com puro ad hominem contra os seus opositores até convencer as pessoas a seguir os ideias que você defende

Lição 5: Se as pessoas não acatarem sua ordem para que sigam esses ideais, chame-as de "fascistas"

Lição 6: As Lições 4 e 5 só valem para aqueles que querem fazer parte do comunismo-marxista-antiteísta. Reaças só têm o direito de ser esmagados pelas profecias do sacrossanto Karl Marx

Lição 7: Ao falar mal da Rede Globo ou da VEJA enquanto defende um "pobre" ditador comunista bolivariano, sempre coloque algum texto de revista de esquerda. Afinal, quem precisa de imparcialidade em Ciências Sociais/ Históricas, né?

Lição 8: Como você é um crítico do "reacionarismo-católico-homofóbico-racista-conservador vá à merda", não é desleal nem infantil que coloque, em alguma postagem, #ChupaGlobo ou #ChupaVEJA

Lição 9: Ao mesmo tempo que faz tudo isso, defenda com unhas e dentes a regulação dessa mídia golpista que só sabe defender o Papa e outras coisas que "atrasam o desenvolvimento do país"

Lição 10: Ah, não se esqueça de terminar suas "nerd rages adolescentes" com a frase "MARX SEJA LOUVADO". Inclusive, se possível, lute para que ela seja inserida nas cédulas de dinheiro, pois Deus é só uma ideia atrasada

Lição 11: Sempre dê audiência para mídias estrangeiras de lugares onde há a divina regulação. Afinal, com toda certeza, essas mídias ultrapoderosas vão ser de muita ajuda na hora da sacra revolução marxista

Lição 12: Lembre-se de que conservadorismo e neonazismo são, sem sombra de dúvida, exatamente a mesma coisa. Afinal, é óbvio que o o nazismo queria conservar a ordem ariana que predominava na Europa da época.

Lição 13: Esqueça a Lição 12, pois não era a ordem ariana que predominava na Europa, portanto não tinha como o nazismo ser conservador

Lição 14: Esqueça a lição anterior, foi escrita por um reaça

Lição 15: Quando se falar sobre "imprensa manipuladora", não se deve pôr nenhuma revista de esquerda nesse balaio, pois todas elas são idôneas, intelectualmente honestíssimas e, mais importante, apoiam a maravilhosa e superpacífica revolução marxista

Lição 16: Sempre que for homenagear uma ditadura comunista, faça-o colocando sempre o nome do ditador antes de falar sobre o povo. Afinal, não há dúvidas de que o sofrimento do povo nessas ditaduras é só mais uma conspiração que a mídia burguesa inventou para ganhar audiência em cima dos pobres governantes comunistas

Lição 17: Quando sair o menor deslize até mesmo de um familiar de um representante da elite "reacionária-católica-homofóbica-racista-conservadora vá à merda", comemore como se fosse uma grande vitória. Afinal, isso com certeza vai fazer o povão esquecer daquele boato que a mídia golpista criou de que a sacra doutrina comunista ceifou mais de 100 milhões de vidas humanas.

Lição 18: Lembre sempre que essas mortes supracitadas, por serem em nome da glória do Deus Marx, não devem ser lembradas. Afinal, opositor bom é opositor morto.

Lição 19: Amar ao trio de ferro (Marx, Stalin e Lênin) acima de qualquer outra coisa. Afinal, quaisquer outros ídolos são frutos do reacionarismo já citado nas outras lições.

Lição 20 (Última Lição): Sempre usar o nome de Marx em vão. Afinal, apelo à autoridade está aí para isso, né? Só mesmo a "zelite" não consegue entender os sacros dogmas marxistas.

Links:


Outras Falácias (Recomendo ler sobre Non Sequitur, Evidência Anedótica e Post Hoc Propter Ergo Hoc): http://ceticismo.wordpress.com/ceticismo/logica-falacias/

*modus operandi seria, em uma tradução literal, "modo de operação", ou seja, é o modo como alguém "opera", ou, melhor dizendo, "age".

4 de jan de 2013

De Frente com o Ateu - Agnosticismo

Olá, amigos leitores. Depois de algum tempo, volto a este blog para outra daquelas nossas conversas.

Hoje, vou dar sequência na minha série de posts sobre Religião, sobre a qual falei no post Contestação e Merchandising, que vocês podem procurar nos outros posts abaixo deste post. Como dito lá, o meu segundo post nessa série seria sobre o tema "Agnosticismo". Mas, antes de começar com os conceitos, preciso contar uma pequena história, e vocês entenderão porque eu farei isso logo de cara.

Bom, outro dia, comprei, em uma famosa livraria aqui da região, o "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaio de Ironia", do filósofo e professor da FAAP e da PUC-SP, o ilustríssimo Luiz Felipe Pondé. Como já lhes disse em dois posts anteriores, esse livro me interessou profundamente, especialmente por ter um tom provocativo, como deve ser o da boa filosofia.

Mas, não vim aqui para falar sobre essa excelente obra, mas sim sobre uma afirmação de Pondé em seu livro, afirmação essa que me trouxe inspiração para este post. Destaco sutilmente essa afirmação no meu post sobre o livro (que acabo de linkar para quem quiser saber mais sobre a obra em si), mas, por uma questão de conveniência para os leitores, vou citá-la de novo aqui. Pondé diz que "Até golfinhos conseguem ser ateus, porque o ateísmo é a visão de mundo mais fácil de ter: a vida é fruto do acaso e não tem sentido além dos pequenos sentidos que inventamos".

Mesmo com uma bibliografia com extensão pelo menos 50 vezes menor que a do ilustre professor (e isso sem exagero nenhum), desaprovei, dessa afirmação, dois pontos. Porém, só vou discutir um aqui, por ser só ele pertinente a este post, e deixarei o outro para um post que farei exclusivamente para debater as ideias do filósofo em geral.

Como Pondé (e todo mundo) deve saber, as crenças e as descrenças foram desenvolvidas por seres humanos. Como ele também sabe, a manutenção de uma crença ou de uma descrença também só pode ser feita por seres humanos. Por quê? Porque, de todos os seres vivos conhecidos, o ser humano é o único que possui a faculdade mental chamada "raciocínio", que o levou a desenvolver tanto coisas que hoje consideramos triviais quanto sistemas filosóficos, políticos, sociais, econômicos e teológicos extremamente complexos e detalhados.

Assim sendo, também é exclusiva do ser humano a capacidade de opinar sobre essas crenças, pois só consegue opinar VOLUNTARIAMENTE aquele que é racional. Ateísmo, antes de tudo, é uma opção. Então, sendo o golfinho um ser não-racional, não é possível chamá-lo "ateu", pois ele não tem como desenvolver uma opinião sobre divindades exatamente por não conhecê-las.

Isso significa, então, que o máximo que poderíamos considerar um golfinho seria como um agnóstico, ou seja, como um ser que não sabe se deus existe ou não.

Com os seres humanos, a diferença é uma só: o agnóstico humano não é agnóstico por irracionalidade, mas sim por ter pensado nas hipóteses-deus e ter chegado à conclusão de que ele não teria como provar a existência ou a inexistência de deuses, ou melhor dizendo, de que ele não pode cravar, com certeza absoluta, que deuses existem ou inexistem.

O caro leitor pode me perguntar então: Ora, então o oposto de agnóstico é teísta e ateu ao mesmo tempo?

Para isso, a resposta é não. Não existe incoerência filosófica entre ateísmo e agnosticismo, pois o ateísmo tem a ver com não crer, e o  agnosticismo tem a ver com não saber. Vejam o meu caso, por exemplo: sou agnóstico ao deus cristão e aos outros deuses, pois não SEI se sua existência ou inexistência é um fato, mas, ao mesmo tempo, sou ateu a todos eles, pois eu não CREIO, por motivos pessoais, que algum deles exista. Assim sendo, o oposto do agnóstico é o gnóstico, ou seja, aquele que, por algum motivo ou por algum tipo de evidência, não só tem convicção de que deus(es) existe(m) ou não como também o sabe. Eu tendo a pensar que ser ateu gnóstico equivale a ser um ateu positivo, pois, por uma questão de lógica, se eu sei que deuses não existem, eu  vou rejeitar sistematicamente a crença neles. O mal disso é que, como eu disse, a maioria dos ateus positivos age de um modo antiteísta, ou seja, ele acaba por não tolerar a crença alheia.

É também por isso que eu prefiro o agnosticismo nessa questão, pois eu não creio que, como ateu, eu possa, metaforicamente dizendo, declarar a morte dos deuses. Porém, ainda resta uma questão: Os teístas, então, podem dizer que tem certeza da existência de um Deus?

A essa questão eu respondo tanto sim quanto não, porque a verdadeira questão não é se eles podem ou não ter essa certeza, mas sim se eles devem ou não ter essa certeza. Explico: um teísta agnóstico, por exemplo, por não ser filiado a uma religião, pode acreditar em um deus mas não ter certeza de sua existência. No entanto, quando se trata de um teísta religioso, a coisa muda de figura, e eu explico o porquê.


Lembram que, quando eu disse que o ateísmo não é uma religião, o fiz com base no fato de que não existe dogma para ser ateu? Pois é, com as religiões, a coisa muda de figura. Não há como ser católico, evangélico, espírita, judeu, muçulmano ou hindu e não ter certeza absoluta de que sua divindade existe, pois todas essas religiões, cada uma a seu modo, afirma a existência de Deus como algo certo. E isso mesmo entre os chamados "Não-praticantes" se confirma, pois, se formos perguntar a um católico não-praticante, por exemplo, se ele está certo de que deus existe, teremos um "SIM" convicto, pois senão ele não seria católico. Se formos perguntar, por exemplo, ao meu amigo Emerson, do site Logos Apologética, ou a qualquer outro dos moderadores cristãos PRATICANTES, se eles têm certeza absoluta da existência de Deus, eles naturalmente responderão que sim, senão não estariam seguindo o Cristianismo. 

Entendem? Se uma pessoa segue uma religião, ela não tem como ser agnóstica, pois ela colocaria em dúvida o pilar mais básico da sua crença, que seria a existência de um Deus. Se essa certeza é coerente, é uma outra questão. Mas, que elas podem ter essa certeza elas podem, e isso por diversas razões filosóficas, teológicas e de outras naturezas. 

Curiosamente, há um caso de uma orientação religiosa que, pelo menos a meu ver, não pode ser praticada por um gnóstico: o Ceticismo, que prega exatamente a DÚVIDA, coisa que o gnóstico, por uma questão de obviedade, não tem. Ainda assim, falo isso segundo os meus conhecimentos, que, tanto em matéria de ceticismo quanto em matéria de religiões, devo admitir, são parcos.

Enfim, era isso o que eu tinha para conversar com vocês, amigos leitores. Vou deixar uns links aqui embaixo sobre este tema, e me despeço de vocês. Um forte abraço e até o próximo post!

Links:

Significado e Origem Etimológica de "Gnose": http://www.dicionarioinformal.com.br/gnose/

Vídeo do Pirulla sobre Agnosticismo e Ateísmo:  http://www.youtube.com/watch?v=LVkklTe77Ww

Vídeos do Clarion de Laffalot sobre Agnosticismo:
http://www.youtube.com/watch?v=B2prg7myi5Y
http://www.youtube.com/watch?v=n97BCAv0Ujk
http://www.youtube.com/watch?v=jFlXaUWh1_8

(Várias) Definições de Agnosticismo:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Agnosticismo
http://agnosticismo.com.br/
http://ceticismo.net/comportamento/entendendo-o-agnosticismo/ (Um artigo completo sobre isso)
http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2787999

PS: Faço a mesma linha de raciocínio dos golfinhos para os recém-nascidos. Traduzindo, discordo da ideia de que nascemos ateus, e creio que nascemos todos AGNÓSTICOS, pois, como recém-nascidos, não temos como "saber Deus".