25 de nov de 2012

Telenovelas - Segundo Round

Como vão, meus queridos leitores? Tudo bem com vocês? Como vai a vida?

Bom, depois de mais algum tempo desde o meu último post ( Cliquem aqui se quiserem rever), volto a escrever para que tenhamos um bom "dedo de prosa", como diriam os mais antigos.

Enfim, como já sabem pelas últimas leituras, os meus posts vêm adquirindo um novo padrão. Antes, eu escrevia um texto apenas com a minha opinião sobre um assunto. Agora, decidi fazer pelo sistema de refutação, ou seja, eu mostro meus posicionamentos (ou não, pois, como todos vocês sabem, nem sempre meus posts contém minha real opinião) refutando alguma coisa que outra pessoa tenha dito.

Como também já sabem, o meu alvo predileto são posts banais e cheios das maiores falácias que todos podemos ver ao entrar no Facebook. Porém, dessa vez decidi fazer algo diferente. É muito fácil ser crítico aos outros e apontar (e rir dos) erros dos outros. O problema é quando se percebe que você mesmo já falou coisas até piores do que as que você hoje rotula como besteiras.

Foi o meu caso. Revendo alguns posts do passado, percebi que falava muita bobagem em alguns (falava um pouco em todos, mas teve uns que, enfim né, rs). Digo, aliás, que se fosse refutar detalhadamente uma por uma as besteiras que eu já disse, poderia concluir minha graduação, pois não teria um post simples de blog, mas sim uma tese de Doutorado em Pirando na Maionese em um blog na Internet I e II . Por isso, escolhi revisitar apenas um dos vários temas sobre os quais já falei.

Mas, antes de refutar, vou apresentar-lhes o tema primeiro. Há alguns anos, mais especificamente em 2010, a UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) colocou como tema de redação de seu vestibular as telenovelas. O tema, em forma de pergunta, era: "A Telenovela Brasileira: Conscientização ou Alienação?". Ou seja, o vestibulando teria de desenvolver argumentos para defender, por quaisquer n motivos que pensasse, que as telenovelas conscientizavam ou alienavam o povo (ou ainda nenhum dos dois, o que é mais incomum).

Após ver o tema, produzi um texto (link) em que defendia com unhas e dentes que as novelas alienam, que são uma forma de deixar o povo burro, enfim, todo aquele blá-blá-blá que todos já conhecemos. Um leitor que concorde com o meu posicionamento pode falar: "Ah, cara, mas você tá pirando é agora. Teu texto não tem nada de errado, véi!". Para esse leitor, apesar de admirar sua fidelidade a um posicionamento, só posso responder que, sim, tem muita história mal contada no meu texto.

Antes de continuar, é bom explicar que meu posicionamento político é bem diferente daquela época. Afinal, de marxista a apolítico há um mundo de diferenças, entre elas a de um apolítico não precisar seguir toda uma ideologia, podendo se posicionar sobre os temas sem pensar se o posicionamento é da ideologia política E, C ou D. Um dos motivos de eu ter deixado o marxismo é exatamente o fato de eu discordar de um conceito-chave para os marxistas, que é o de alienação.

Mas, enfim, falo sobre isso em outra oportunidade. Agora, vamos ao que interessa:

Antes de tudo, um grave erro que eu cometi no meu texto, e que seria considerado um problema de redação (outra coisa sobre a qual eu talvez fale em outra ocasião), foi eu não ter definido o conceito de alienação. Neste post, vou usar uma ótima definição que eu achei no Dicionário Online de Português. Segundo eles, alienação pode ser definida como segue:

Ação ou efeito de alienar: alienação de uma propriedade.
Jurídico. Ato de transferir para alguém uma propriedade ou um direito: alienação de um apartamento.
Resultado de algum tipo de abandono ou efeito da ausência de um direito comum: alienação da segurança.
Filosofia. Hegelianismo. Quando a consciência torna-se desconhecida a si própria ou a sua própria essência.
Informal. Desinteresse por questões políticas ou sociais.
Psicologia. Estado da pessoa que, tendo sido educada em condições sociais determinadas, se submete cegamente aos valores e instituições dadas, perdendo assim a consciência de seus verdadeiros problemas.
Psicopatologia. Perda da razão, loucura: alienação mental.
Psiquiatria. No desenvolvimento de um sintoma clínico algumas pessoas ou situações comuns tornam-se estranhas ou perdem sua natureza familiar.
Alienação a título gratuito, doação.

Com isso, vemos que, quando eu disse que a função das novelas era a da alienação, por mais marxizado que meu discurso estivesse, eu tinha me esquecido de que havia pelo menos NOVE interpretações para o mesmo conceito. Como nunca ouvi falar de alguém que tenha ficado louco por causa de uma novela, a não ser por raríssimas exceções, estando essas, curiosamente, em novelas, nem que tenha doado ou transferido bens pelo mesmo motivo, e por ser o próprio conceito de consciência como usado em Hegel (pois o uso em Hegel e na psicologia é bem diferente) extremamente difícil de definir, vou me ater apenas a três das definições, aquelas que destaquei do restante

Primeiro, por que ver novela não resulta em abandonar um direito? Porque, nas próprias novelas, vemos o que acontece com aqueles que, por diversos motivos, tiveram seus direitos cruelmente tirados e abandonaram a luta por eles. Aliás, as novelas, de uma forma ou de outra, podem acabar nos alertando sobre o mal de não se conhecer os próprios direitos, entre eles o direito ao respeito independentemente de credo, etnia, orientação sexual, entre outros. Também vemos que, quando se pode fazer exercer um direito, deve-se sim exigi-lo. Nos últimos capítulos da novela Sinhá Moça, por exemplo, era possível ver o que acontecia quando os negros tentavam (legitimamente) conquistar e fazer valer um direito que não tinham, que era o da liberdade de ir e vir e o de não ser propriedade de outra pessoa, ou seja, de ser dono de si mesmo. Mais recentemente, em Cheias de Charme, vimos o que aconteceu com a empreguete Cida por esta não conhecer e consequentemente não ter, desde sempre, reivindicado seus direitos na casa da família Sarmento, fato que a fez passar anos e anos de sua adolescência em condições de trabalho "infantil" análogas às de escravidão.

Ainda assim, tudo isso ainda não faz das novelas algo não-"alienante". Portanto, adiante. Por que as novelas não são a causa do desinteresse por questões políticas e sociais? Porque o que causa essa falta interesse é a nossa cultura, cujo traço principal definitivamente não é a politização desde a infância. Além disso, pode-se adicionar também o fato de as pessoas terem se desiludido com políticos e com a política já na primeira vez que votaram. É aquela velha história de o candidato fazer promessas e mais promessas irreais e o eleitor, por falta de senso crítico e por não ter uma cultura de pesquisar o nível de realismo das promessas, confiar seu voto ao candidato, que naturalmente não cumpre as promessas. Com isso, vemos que o nosso desinteresse por política em geral tem causas culturais, ou seja, pré-telenovelas. Dizer que as telenovelas são culpadas por isso seria, então, igual a dizer que não havia despolitização no Brasil antes delas, o que seria desonestidade intelectual ou ignorância histórica.

Também por esses argumentos, podemos confirmar que as novelas também não podem ser acusadas usando o sentido psicológico de alienação, pois o que causa alienação segundo a Psicologia são as condições sociais em que uma pessoa é educada.

O leitor, como é perspicaz, pode perguntar: "Opa, peraí camarada, mas as telenovelas hoje já não são uma parte das condições sociais em que somos criados?". Pois é, caro leitor, disse bem, são uma parte de um todo, de um sistema. No caso, não seriam as novelas, mas sim o próprio sistema em que somos criados, o responsável pela "alienação", sendo as novelas apenas um elemento usado por esse sistema.* O detalhe é que começamos a ser educados antes de começarmos a ver novelas. Assim sendo, já começamos a ver novela com uma mente "alienada" por um sistema, o que também isenta as novelas do ônus de serem um fator de alienação.

Com isso, fica claro que, ao contrário do que eu (porcamente) sugeri no meu primeiro texto, as telenovelas não são, por si só, alienantes. Ainda assim, teriam as novelas a função de conscientizar as pessoas, ou seja, de torná-las conscientes de algo, seja de seus problemas ou de problemas de outros?

A resposta para isso é não. As telenovelas, se analisadas pela dicotomia "Conscientização X Alienação", acabam se tornando argumento para disputas ideológicas fúteis. Para saber a real função das telenovelas, precisamos lembrar que elas são uma forma de ENTRETENIMENTO. Assim sendo, a única função delas é a de conseguir audiência para a emissora onde são veiculadas. Traduzindo: uma telenovela, por ser telenovela, tem como única e exclusiva função entreter pessoas, trazê-las para a frente da televisão para que deem audiência expressiva para a emissora X ou Y.

Isso, então, significa que eu não posso ver telenovelas para adquirir um pouco de cultura? Também não. No final das contas, quem tem a responsabilidade sobre o que extrai de uma novela é o telespectador. Ou seja, se eu decidir analisar criteriosamente uma novela e procurar sobre algo que ela tenha apresentado e que me interesse, o que me faria adquirir algum conhecimento, ou se eu acabar me tornando alienado por causa da novela, o mérito ou a culpa não serão da novela, serão meus.

O detalhe é que, para muitas pessoas, é muito mais fácil culpar uma ou mais redes de televisão, um veículo de entretenimento, pelas próprias falhas. Mesmo com o imenso e crescente acervo de obras e estudos acadêmicos sérias que temos, e que são uma opção bem mais confiável para conhecimento do que novelas, algumas pessoas ainda preferem o modo mais fácil. Afinal, é bem mais fácil procurar conhecimento em uma hora de novela do que ler diversos livros sobre um assunto para se saber que, na verdade, é impraticável tentar conhecer tudo sobre alguma coisa. Ainda assim, isso não torna a busca pelo conhecimento de forma honesta e sincera menos legítima.

Com tudo isso, creio que agora sim todos concordamos que eu, de fato, consegui escrever muita besteira em um espaço tão pequeno de linhas.


* Quando me refiro a sistema, leia-se qualquer sistema, seja capitalista, comunista, democrático, ditatorial ou o que for. É bom lembrar que o entretenimento pode ser, no máximo, uma arma do sistema, mas não o responsável por X ou Y.